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Grupo Record estreia em blog

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Lançamentos, entrevistas com autores, resenhas, notícias e novidades sobre o Grupo Editorial Record serão publicadas, a partir de hoje, neste espaço. A estreia é com o primeiro capítulo de “Vá, coloque um vigia”, a aguardada obra de Harper Lee, autora do clássico “O sol é para todos”, que a editora José Olympio publicou em junho deste ano, com nova capa e nova tradução, de Beatriz Horta.

Publicado em julho nos Estados Unidos, “Vá, coloque um vigia” bateu recorde de vendas e causou sensação entre o público e a crítica. No romance, que Harper Lee escreveu antes de “O sol é para todos”, mas que guardou durante anos, Atticus Finch, o advogado que defende um negro acusado de estupro no primeiro livro, aparece com traços racistas. Narrado por Scout, sua filha, o livro mostra um Atticus mais complexo, sob o olhar não mais da criança da primeira obra, mas da filha que volta já adulta para o Sul, depois de uma temporada em Nova York. Confira o primeiro capítulo abaixo.

***

Desde a estação de Atlanta, ela vinha olhando pela janela do vagão-restaurante com um prazer quase físico. Enquanto tomava o café da manhã, viu ficarem para trás as últimas colinas da Geórgia e surgir a terra vermelha, e com ela as casas de telhado de zinco no meio de quintais limpos onde cresciam as moitas de verbena de sempre, cercadas de pneus caiados. Sorriu ao ver a primeira antena de tevê no telhado de uma casa de negros sem pintura e foi se alegrando mais à medida que as casas iam se multiplicando.

Jean Louise Finch sempre fazia essa viagem de avião, mas resolveu ir de trem de Nova York até o Entroncamento de Maycomb em sua quinta visita anual à casa do pai. Em primeiro lugar, porque na viagem de avião anterior ela quase morreu de susto quando o piloto resolveu passar no meio de um tornado. Em segundo lugar, porque se fosse de avião, o pai teria de acordar às três da manhã, dirigir por mais de cento e sessenta quilômetros para buscá-la em Mobile e depois ainda trabalhar o dia inteiro: não era justo, ele agora já estava com setenta e dois anos.

Estava feliz por ter decidido ir de trem. Os trens não eram mais os mesmos de quando era criança e a nova experiência era divertida: ao apertar um botão na parede da cabine, aparecia na porta um gordo cabineiro; um comando fazia surgir uma pia de aço inoxidável na outra parede e até um apoio para os pés. Estava resolvida a não se deixar intimidar pelas diversas recomendações escritas nas paredes da cabine (uma “cabine privativa”, como a chamavam), mas quando foi dormir na noite anterior, ficou imprensada contra a parede porque não obedeceu ao aviso que dizia PUXE ESTA ALAVANCA PARA BAIXO ATÉ OS SUPORTES, apuro do qual a tirou o cabineiro, deixando-a constrangida, pois tinha o hábito de dormir apenas com a parte de cima do pijama.

Por sorte, o cabineiro estava fazendo a ronda pelo corredor quando ela ficou presa naquela armadilha:

— Já vou tirá-la daí, senhorita — avisou em resposta aos socos que ela dava na parede da cabine.

— Não, por favor, apenas me diga como sair daqui.

— Posso ficar de costas para a senhorita enquanto resolvo o problema — respondeu ele, e assim fez.

Quando acordou naquela manhã, o trem sacolejava e bufava pelos campos de Atlanta, mas, obedecendo a outro aviso na cabine, ela continuou na cama até passarem por College Park. Vestiu-se com as roupas que costumava usar em Maycomb: calça comprida cinza, blusa preta sem mangas, meias brancas e mocassins. Embora ainda faltassem quatro horas para chegar, já podia ver a tia torcendo o nariz em desaprovação.

Quando começava a tomar a quarta xícara de café, a locomotiva da Crescent Limited grasnou feito um ganso gigante para outro trem da linha que ia para o Norte, cruzou com estrondo a ponte sobre o rio Chattahoochee e entrou no Alabama.

O Chattahoochee era largo, plano e lamacento. Estava baixo naquele dia; um banco de areia amarela tinha reduzido o seu curso a um fio d’água. “‘Talvez ele cante no inverno”, pensou. “Não me lembro de um verso sequer desse poema. Era: ‘Tocando a flauta pelos vales selvagens?’ Não. Era dedicado a uma ave aquática ou a uma queda d’água?”

Teve que reprimir com firmeza um princípio de alvoroço quando se deu conta de que o poeta Sidney Lanier devia ter sido parecido com seu primo, havia muito falecido, Joshua Singleton St. Clair, que tinha uma área de atuação literária que ia da região do Black Belt a Bayou LaBatre. A tia de Jean Louise com frequência descrevia o primo Joshua como um exemplo a seguir: um homem maravilhoso, poeta ceifado no auge da vida, Jean Louise devia se lembrar sempre de que ele era um orgulho para a família. Seus retratos eram elogiosos à família: o primo Joshua parecia um Algernon Swinburne rabugento.

Jean Louise sorriu ao se lembrar do pai contando a ela o resto da história. O primo Joshua tinha morrido cedo, era verdade, mas não pelas mãos de Deus, e sim pelas hostes de César.

Quando estava na universidade, o primo Joshua estudava muito e pensava em excesso: na verdade, achava que tinha saído diretamente do século XIX. Usava uma pelerine e botas de cano alto feitas sob medida, conforme modelo desenhado por ele. Foi detido pelas autoridades quando tentou matar a tiros o reitor da Universidade, que ele considerava pouco mais que um mero especialista em esgoto. O que sem dúvida era verdade, mas não justificava atacá-lo com uma arma letal. Depois de muito dinheiro ter sido distribuído, o primo Joshua foi tirado de circulação e viveu até o fim em instituições públicas para desequilibrados. Diziam que era uma pessoa razoável em todos os sentidos até alguém mencionar o reitor; então ele contorcia o rosto, adotava a postura de um grou, e assim permanecia por mais de oito horas, sem que nada nem ninguém conseguisse fazê-lo baixar a perna até que esquecesse o reitor. Quando estava bem, lia grego e deixou um pequeno volume de poesia que mandou imprimir em uma gráfica em Tuscaloosa. Os poemas eram tão à frente de seu tempo que ninguém ainda tinha conseguido decifrá-los, mas a tia de Jean Louise deixava o livrinho exposto, como quem não quer nada, em um lugar bem visível, em uma mesa na sala de estar.

Jean Louise riu alto e deu uma olhada em volta para ver se alguém tinha ouvido. O pai dela sabia como sabotar os discursos da irmã sobre a superioridade inata dos Finch: sempre contava à filha o resto da história, com um ar calmo e solene, embora Jean Louise por vezes pensasse distinguir nos olhos dele um brilho claramente irreverente. Ou seria apenas a luz batendo nas lentes dos óculos? Ela nunca soube.

A paisagem campestre e o trem tinham se reduzido a um suave balançar e, da janela até o horizonte, ela via apenas pastos verdes e vacas pretas. Perguntou-se por que nunca tinha considerado sua terra tão bonita.

A estação de Montgomery ficava em uma curva do rio Alabama, e quando ela saltou do trem para esticar as pernas e foi assaltada por sua monotonia, suas luzes e seus curiosos aromas, sentiu a familiaridade do reencontro. “Falta alguma coisa”, pensou. Era o guarda-freios. Um homem que percorria os vagões por baixo do trem com um pé de cabra; ouvia-se um barulho metálico e depois s-sss-sss, subia uma fumaça branca e a sensação era de estar no interior de uma panela fervendo. “Hoje, essas coisas são lubrificadas.”

Sem nenhum motivo aparente, foi tomada por um antigo temor. A última vez que estivera naquela estação tinha sido vinte anos antes, mas quando ainda era uma menina e ia para a capital com Atticus, morria de medo de que aquele trem chacoalhante caísse no rio e todos se afogassem. Mas quando voltou a embarcar, a caminho de casa, não pensou mais nisso.

O trem seguia estalando em meio a pinheirais e apitou com desprezo ao passar por uma maria-fumaça com sua chaminé, pintada de cores vibrantes, uma peça de museu parada em um desvio da estrada. Levava o letreiro de uma empresa madeireira, e a locomotiva da Crescent Limited podia engoli-la inteira com folga. Greenville, Evergreen, Entroncamento de Maycomb.

Tinha avisado ao maquinista para não esquecer de parar o trem para ela descer, mas, como era um velho, adivinhou o que ia acontecer: ele passaria pelo Entroncamento de Maycomb correndo feito louco e só ia parar o trem quatrocentos metros depois da pequena estação. Então, acenaria, se despedindo, e pediria desculpas, dizendo que quase tinha se esquecido dela. Os trens mudavam, mas os maquinistas permaneciam sempre os mesmos. Pregar peças em mocinhas que desembarcavam em estações de parada não obrigatória era uma marca registrada, e Atticus, que podia prever o que fariam todos os maquinistas de Nova Orléans a Cincinnati, estaria à espera dela conforme o combinado, não mais do que seis passos distante de onde ela tinha que desembarcar.

Sua casa era no condado Maycomb, distrito eleitoral de uns cento e doze quilômetros de comprimento por quase cinquenta em seu ponto mais largo, um lugar ermo, pontilhado de pequenos povoados, o maior dos quais era Maycomb, sede do governo do condado. Até uma época relativamente recente em sua história, o condado era tão isolado do resto do país que alguns dos seus habitantes, ignorando as preferências políticas dos sulistas nos últimos noventa anos, continuavam votando no Partido Republicano. Nenhum trem chegava até lá; o Entroncamento de Maycomb, um nome de cortesia, na verdade, ficava no condado Abbott, a trinta quilômetros de distância. O transporte rodoviário era irregular e não parecia levar a lugar nenhum, mas o governo federal tinha imposto a construção de uma ou duas estradas cortando os pântanos, dando assim aos moradores uma oportunidade de entrar e sair conforme desejassem. Mas pouca gente as usava, com razão. Para quem não queria muito, ali havia o suficiente.

O nome do condado e da cidade eram em homenagem ao coronel Mason Maycomb, um sujeito cuja equivocada autoconfiança e arrogante obstinação confundiam e intrigavam os que lutaram ao lado dele nas guerras contra os índios creek. A região onde ele atuava era levemente montanhosa ao norte e plana ao sul, nos limites da planície costeira. O coronel Maycomb, certo de que os índios não gostavam de lutar na planície, foi caçá-los nas regiões ao norte. Quando seu general descobriu que Maycomb vagava pelas colinas ao norte enquanto os creeks espreitavam em todas as moitas ao sul, mandou um índio amigo levar-lhe o recado: Vá para o sul, maldição. Ao receber a mensagem, o coronel Maycomb teve certeza de que se tratava de um golpe dos creek para enganá-lo (não eram liderados por um demônio ruivo de olhos azuis?). Ele então mandou prender o emissário índio aliado e continuou a avançar para o norte, até suas tropas ficarem totalmente perdidas na densa floresta, onde ficaram durante toda a guerra, consideravelmente confusas.

Anos depois, quando finalmente concluiu que a mensagem podia ser verdadeira no fim das contas, o coronel Maycomb começou a marchar para o sul e, no caminho, suas tropas encontraram colonos indo para o interior, que as avisaram de que as guerras indígenas tinham praticamente acabado. As tropas e os colonos se entrosaram de tal maneira que com o tempo se tornaram os antepassados de Jean Louise Finch, e o coronel Maycomb continuou avançando até onde hoje fica Mobile para se assegurar de que receberia o devido crédito por suas façanhas. A versão da história oficial não coincide com a verdade, mas esses foram os fatos como passaram de boca em boca através dos anos e como era do conhecimento de todos os moradores de Maycomb.

— … suas malas, moça — avisou o cabineiro. Jean Louise seguiu-o do vagão-restaurante até sua cabine. Pegou dois dólares na carteira: um de praxe e outro por soltá-la quando ficou presa na cabine na noite anterior. O trem, é claro, passou batido pela estação e parou quatrocentos metros depois. O maquinista apareceu, sorrindo, e se desculpou, dizendo que quase tinha se esquecido dela. Jean Louise retribuiu o sorriso e esperou com impaciência que o cabineiro colocasse a escada amarela para ela descer do vagão. Ele deu a mão para ela descer e recebeu as duas notas.

O pai não estava esperando por ela.

Ela acompanhou os trilhos com o olhar até a estação e viu um homem alto na pequena plataforma. Ele desceu de um pulo e foi correndo ao encontro dela.

Agarrou-a em um abraço de urso, afastou-a, beijou-a na boca com força e em seguida a beijou com delicadeza.

— Aqui, não, Hank — murmurou ela, muito contente.

— Calma, moça — ele disse, segurando o rosto dela. — Se eu quiser, beijo você até na escada do tribunal.

O homem que tinha o direito de beijá-la na escada do tribunal era Henry Clinton, amigo da vida inteira, companheiro do irmão dela e, se continuasse a beijá-la daquele jeito, futuro marido. “Ame a quem quiser, mas se case com alguém da sua espécie” era um ditado que para ela equivalia a um instinto. Henry Clinton era da mesma espécie de Jean Louise, e por isso agora ela não considerava o ditado particularmente rígido.

Foram andando de braços dados pelos trilhos para pegar a mala dela.

— Como está o Atticus? — ela perguntou.

— Hoje está com câimbras nas mãos e nos ombros.

— Quando fica assim, ele não consegue dirigir, não é?

Henry fechou os dedos da mão direita até a metade e disse:

— Não consegue fechar a mão mais que isso. A srta. Alexandra tem que amarrar os sapatos e abotoar a camisa dele quando fica assim. Ele não consegue nem segurar a lâmina de barbear.

Jean Louise balançou a cabeça; estava crescida demais para se revoltar com a injustiça de tudo aquilo, mas ainda era jovem demais para aceitar sem protestar a doença que estava deixando o pai inválido.

— Os médicos não podem fazer nada?

— Você sabe que não — disse Henry. — Ele toma quatro gramas de aspirina por dia e só.

Henry pegou a pesada mala e eles foram caminhando até o carro. Ela se perguntou como ia se comportar quando chegasse a hora em que ela sentisse dor dia após dia. Dificilmente seria como Atticus: se alguém perguntasse como ele estava, ele respondia, mas jamais se queixava; mantinha o mesmo humor de sempre, de modo que, para saber como ele estava, era preciso perguntar.

Henry só soube por acaso. Um dia, quando estavam no arquivo do tribunal, procurando a escritura de uma propriedade, Atticus de repente ficou branco feito uma folha de papel e largou o livro de hipotecas que tinha nas mãos.

— O que foi? — perguntou Henry.

— Artrite reumatoide. Pode pegar o livro para mim? — pediu Atticus.

Henry perguntou desde quando sofria da doença, Atticus respondeu que fazia seis meses. Jean Louise sabia? Não. Então, era melhor contar a ela.

— Se você contar, ela vai vir para cá cuidar de mim. O melhor remédio para essa doença é não se deixar vencer por ela.

E assim se encerrou o assunto.

— Quer dirigir? — perguntou Henry.

— Não seja bobo — respondeu ela.

Embora ela fosse boa motorista, detestava manejar qualquer coisa mais complicada do que um alfinete de segurança; dobrar cadeiras era para ela uma fonte de profunda irritação; jamais aprendeu a andar de bicicleta, nem a escrever a máquina, e pescava com um caniço. Seu esporte preferido era o golfe, porque seus princípios básicos eram um taco, uma bolinha e um determinado estado de espírito.

Verde de inveja, observou a maestria com que Henry manejava o automóvel, sem o menor esforço. “Os carros o obedecem”, pensou.

— Direção hidráulica? Câmbio automático? — ela perguntou.

— Exatamente — ele respondeu.

— Tudo bem, mas e se tudo travar e você não tiver como passar a marcha? Estaria encrencado, não?

— Nada vai travar.

— Como sabe?

— Basta acreditar. Vem cá.

Acreditar na General Motors. Pousou a cabeça no ombro dele.

— Hank, o que aconteceu de verdade? — ela perguntou.

Era uma velha brincadeira dos dois. Sob o olho direito de Hank começava uma cicatriz rosada que ia até o canto do nariz e seguia em diagonal cruzando o lábio superior. Tinha também seis dentes postiços que nem Jean Louise conseguia fazer com que ele tirasse para mostrar. Tinha voltado da guerra assim. Um alemão, mais para expressar seu descontentamento com o fim da guerra do que por qualquer outra coisa, dera-lhe uma coronhada com um fuzil. Jean Louise tinha decidido acreditar na história, se bem que, com todas aquelas armas que disparavam além do horizonte, os aviões B-17, as bombas aéreas e artefatos bélicos similares, é provável que Henry não tenha chegado muito perto dos alemães.

— Está bem, querida, vou contar. Estávamos em um porão em Berlim, todo mundo tinha bebido muito e começou uma briga… Você prefere ouvir alguma coisa mais plausível, não é? Agora aceita se casar comigo?

— Ainda não.

— Por que não?

— Quero fazer como o dr. Schweitzer e aproveitar a vida até os trinta.

— Ele aproveitou mesmo — disse Henry, sério.

Jean Louise se ajeitou sob o braço dele.

— Você sabe o que quero dizer — ela disse.

— Sei.

Os habitantes de Maycomb diziam que não havia rapaz melhor do que Henry Clinton; Jean Louise concordava. Henry era do extremo sul do condado. O pai tinha abandonado a mãe dele logo depois que ele nasceu, e então ela passou a trabalhar dia e noite em sua lojinha de esquina para que Henry pudesse frequentar as escolas públicas de Maycomb. A partir dos doze anos, ele passou a viver em uma pensão em frente à casa dos Finch, o que já o colocava em uma posição superior: era dono de si, não tinha de obedecer a cozinheiras, jardineiros, pai nem mãe. Também era quatro anos mais velho do que ela, o que na época fazia diferença. Ele a provocava; ela o adorava. Quando Henry tinha catorze anos, a mãe morreu, deixando-o quase nada. Atticus Finch cuidou do pouco obtido com a venda da loja (as despesas do enterro consumiram quase tudo) e, em segredo, ajudou com dinheiro do próprio bolso. Arrumou um emprego para ele depois da escola na mercearia Jitney Jungle; Henry terminou a escola e se alistou no exército, e depois da guerra foi para a faculdade estudar Direito.

Mais ou menos nessa época, um belo dia o irmão de Jean Louise morreu de repente e, depois que esse pesadelo acabou, Atticus, que sempre pensara em deixar o escritório para o filho, passou a procurar um jovem substituto. Era natural que esse jovem fosse Henry, e, no devido tempo, ele se tornou seu braço direito, seus olhos, suas mãos. Henry sempre tinha respeitado Atticus Finch, sentimento que em pouco tempo se transformou em afeto e Henry passou a considerá-lo um pai.

Mas não considerava Jean Louise uma irmã. Nos anos em que esteve longe, primeiro na guerra e depois na faculdade, ela tinha deixado de ser a menina briguenta e irascível que vivia de macacão para se tornar uma réplica razoável de ser humano. Henry e ela começaram a namorar durante as duas semanas de férias que ela passava em casa todos os anos e, embora ela ainda se comportasse como um garoto de treze anos e detestasse adornos femininos, ele via algo tão intensamente feminino nela que se apaixonou. Era uma pessoa agradável de olhar e de conviver na maior parte do tempo, embora não fosse, em nenhum sentido, uma pessoa fácil. Tinha um espírito inquieto que ele não conseguia compreender, mas sabia que ela era a garota certa para ele. Ia protegê-la, ia se casar com ela.

— Cansada de Nova York? — ele perguntou.

— Não.

— Se me der carta branca nessas duas semanas, faço você se cansar de lá.

— Está me fazendo uma proposta indecorosa?

— Sim.

— Vá para o inferno, então.

Henry parou o carro. Desligou o motor, virou-se para olhar para ela. Ela sempre sabia quando ele ficava sério: o cabelo cortado muito rente se eriçava como uma escova, o rosto ruborizava, a cicatriz se avermelhava.

— Querida, quer que eu fale como um cavalheiro? Srta. Jean Louise, atingi um status financeiro que me permite sustentar duas pessoas. Eu, como o velho Israel do Antigo Testamento, trabalhei durante sete anos nos vinhedos da universidade e nos pastos do escritório do seu pai por você…

— Vou dizer a Atticus para obrigá-lo a ficar mais sete anos.

— Que horrível.

— Além do mais, não foi Israel, foi Jacó. Não, os dois eram a mesma pessoa. Mudavam de nome a cada três versículos. Como vai a minha tia?

— Você sabe muito bem que ela está ótima há trinta anos. Não mude de assunto.

Jean Louise franziu o cenho.

— Henry — ela disse, séria — vou ter um caso com você, mas não me casar.

Acertou em cheio.

— Não seja tão infantil, Jean Louise! — Henry disparou e, esquecendo as recentes inovações da General Motors, pôs a mão na marcha e pisou na embreagem com força. Como não houve resposta, girou violentamente a chave na ignição, apertou alguns botões e o carro deslizou suave e tranquilamente pela estrada.

— Demora a acelerar, não? Não serve para andar na cidade — ela concluiu.

Henry olhou para ela furioso e perguntou:

— O que quer dizer com isso?

Mais um minuto e aquela conversa ia virar uma discussão. Henry estava sério. Era melhor irritá-lo, assim ele ficava quieto e ela podia pensar no assunto.

— Onde você arrumou essa gravata horrorosa? — ela perguntou.

Pronto.

Ela estava quase apaixonada por ele. “Não, é impossível”, pensou. “Ou está apaixonada, ou não está; o amor é a única coisa do mundo que é inequívoca. Existem muitos tipos de amor, é claro, mas todos eles ou se sente ou não se sente.”

Ela era uma pessoa que, diante de uma saída fácil, sempre escolhia o caminho mais difícil. A saída mais fácil naquele caso seria se casar com Henry e ser sustentada por ele. Alguns anos depois, quando os filhos estivessem grandinhos, apareceria o homem com quem ela devia ter se casado desde o início. Haveria exame de consciência de ambas as partes, lamúrias e preocupações, longos olhares trocados na escadaria dos Correios e sofrimento para todos. E quando deixassem para trás os gritos e os princípios morais elevados, restaria apenas mais uma aventura sem graça, no estilo do clube de campo de Birmingham, e um inferno privado criado por eles mesmos, equipado com os mais avançados eletrodomésticos Westinghouse. Hank não merecia isso.

Não. Por enquanto, ia tomar o árduo caminho da solteirice. Resolveu restabelecer a paz com honra:

— Querido, desculpe, desculpe mesmo — ela pediu, sincera.

— Tudo bem — disse Henry, e deu um tapinha no joelho dela. — É que às vezes tenho vontade de matar você.

— Eu sei que sou horrível.

Henry olhou para ela.

— Você é diferente, querida. Não sabe dissimular.

Ela o encarou.

— Como assim?

— Bom, em geral, a maioria das mulheres, antes de casar, é sorridente e agradável diante do noivo. Escondem o que pensam. Você, ao contrário, quando detesta alguma coisa, fica detestável, querida.

— Não é melhor o homem saber com quem está se metendo?

— É, mas não vê que desse jeito nunca vai agarrar um homem?

Ela mordeu a língua diante do óbvio e perguntou:

— Como posso me tornar uma mulher sedutora?

Henry se animou com a conversa. Aos trinta anos, ele gostava de dar conselhos, talvez por ser advogado.

— Em primeiro lugar, controle a língua — ele disse calmamente. — Não discuta com um homem, principalmente quando sabe que pode ganhar a discussão. Sorria bastante. Faça com que ele se sinta importante. Diga que ele é maravilhoso e faça tudo para ele.

Ela abriu um sorriso radiante e disse:

— Hank, concordo com tudo o que disse. Há anos não conheço um homem tão perspicaz, você é o máximo, posso acender seu cigarro? Que tal?

— Horrível.

Voltaram a ser amigos.

 

 

 

 

 

Comentários
  • c_i_d_a

    Oi galera! Eu adorei ter mais este canal de comunicação com vocês e o post de estreia não poderia ter sido melhor, eis aqui um livro que estou aguardando ansiosamente. Bjos!!! Cida – Moonlight Books

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