Entrevistas

“Que fim levou Juliana Klein?”, de Marcos Peres

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Por Manoela Sawitzki

Marcos Peres surgiu na cena literária nacional em 2013 como vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, com o romance O evangelho segundo Hitler (Record, 2013). No ano seguinte, foi também um dos vencedores do prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura. Paranaense nascido em Maringá, o escritor e funcionário do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, “uma fonte rica de enredos, de desencontros, de lides, de paixões”, vive atualmente em Curitiba. A cidade de “clima noir”, tantas vezes frequentada pela obra de nomes importantes como Dalton Trevisan e Cristovão Tezza, está presente também em seu novo romance, Que fim levou Juliana Klein?. O thriller elaborado, com idas e vindas no tempo, esmiúça a guerra entre duas famílias germânicas tradicionais, que dividem o meio acadêmico curitibano, e avança por embates filosóficos, romances, traições, suicídios, assassinatos e os conflitos de um delegado bronco e bebedor de cerveja.

Formado em direito, você foi revelado como escritor pelo Prêmio Sesc de 2013, com o romance O evangelho segundo Hitler. Antes desse livro, escreveu outros que foram engavetados. Pode falar um pouco dessa cronologia? A escrita faz parte de sua vida desde quando e de que formas? O direito, o funcionalismo público, como essas atividades se relacionam e afetam a atividade de escritor?

Escrevo desde que me conheço por gente. Desde que inquietações começaram a surgir em minha mente, iniciei a rotina de passá-las para uma folha de papel em branco. E, quando digo de inquietações, digo de perguntas sem respostas fáceis no Google, digo de assuntos que soariam estranhos, se narrados na mesa de um bar, para amigos. Escrever, para mim, sempre foi a melhor maneira de exorcizar os fantasmas, de queimar os demônios interiores – de acertar as contas comigo mesmo, portanto. Tenho uma gaveta cheia de contos e romances, datados da juventude. Alguns possuem argumentos interessantes, e pretendo revisitá-los no futuro, com paciência e mais cuidado. Minha rotina de ser um leitor voraz, de brincar com as palavras, é anterior ao curso de direito, sempre como uma terapia, quase uma paixão secreta. No terceiro ano do curso, descobri que a Biblioteca da UEM (Universidade Estadual de Maringá) tinha as Obras completas de Borges. Quem consultar o registro de empréstimos destes 4 tomos, verá muitas assinaturas minhas. Enquanto meus colegas estudavam a Constituição e o Código Penal, eu me perdia no Aleph, nas 3 versões de Judas… era, mesmo sem querer, o início de um completo extravio para o mundo da literatura. Naquele momento, escrever começou a se tornar algo mais sério.

O que faz, para você, na sua experiência, um livro permanecer na gaveta?

Acho que é uma questão subjetiva e que, por isso, variará de escritor para escritor. No meu caso, os primeiros escritos foram fundamentais, como exercício, como conquista de confiança. Senti essa confiança apenas com O evangelho segundo Hitler, ainda de maneira tímida, submetendo-o a um julgamento através de um pseudônimo.

Em 2014, O evangelho segundo Hitler recebeu o prêmio São Paulo de Literatura (Livro do ano de autor estreante). Como você lidou com essa chegada no mundo literário, que costuma vir cercada de incertezas, já autorizado com selos de reconhecimento? De que forma isso afetou seu processo a partir de então? Que fim levou Juliana Klein foi escrito ainda sob os reflexos de um primeiro passo extremamente bem-sucedido…

Eu já havia recebido um respaldo muito grande do prêmio Sesc de literatura, que foi a ponte para a publicação pela Editora Record. Quando comecei a escrever Que fim levou Juliana Klein?, não pensei em editores, em pressão de leitores ou no trauma da publicação do segundo livro. Quando tinha, em mãos, uma versão primitiva do que viria a ser o romance, fui para o Rio de Janeiro, para conversar com a Editora Record. Saí da reunião com o contrato assinado – um fato que deve ser mencionado (e louvado) por ter sido antes do prêmio São Paulo; um fato, portanto, ditado apenas pela confiança de uma grande editora a um jovem escritor.

Os temas da conspiração e do mistério aparecem no livro anterior e retornam com o novo romance. Agora, uma trama misteriosa envolvendo a guerra sangrenta entre duas famílias alemãs, cujos descendentes se fixam, e continuam os movimentos bélicos, em Curitiba. Uma guerra que envolve não apenas sobrenomes, mas o mundo acadêmico, e, sobretudo, correntes filosóficas. Vamos por partes, primeiro: de onde veio a ideia de escrever sobre os Koch e os Klein? O jogo, a ideia de aproximar, ou fundir, ficção e realidade, continua aqui?

Tive uma experiência marcante no Evangelho segundo Hitler ao colocar um escritor que admiro como protagonista do romance. É marcante, também, dar voz a um monstro como Hitler; o risco de que qualquer fala – mesmo que inserida em uma ficção que versa sobre o absurdo – soasse apologética foi sempre um temor real. Por tudo isso, pretendi escrever sobre um tempo e local mais próximos. Falo, portanto, de duas famílias rivais na capital do estado em que vivo, no ano de 2011 (E 2008. E 2005. E…). Curitiba tem um clima noir interessante, a capa do livro retratou muito bem isso. Além disso, eu gosto da ideia de trazer ideias, de arquétipos, de correntes para o núcleo central de minha ficção, de embaçar cada vez mais o muro entre o ficcional e o real. E aqui, arrisco a dizer que essa possa ser a linha central do Marcos, romancista. Como afirmei à época do lançamento de O Evangelho segundo Hitler, não sou um mero autor de teorias conspiratórias. Agora, repito: não sou estritamente um autor policial. Sou um pequeno sabotador da linha que liga o real e o imaginário. Um minúsculo pregador de confusões dos pensamentos alheios.

Seu romance anterior partia de um conto de Borges. Agora um livro de Nietzsche exerce certo protagonismo. Qual sua ligação com o pensamento nietzschiano?

Borges e Nietzsche serviram como muletas argumentativas – ainda que desvirtuadas – de O Evangelho segundo Hitler e Que fim levou Juliana Klein?, respectivamente. No entanto, o processo foi diferente. No Evangelho, Borges serviu não apenas como fagulha, como elemento propulsor do caos, mas também como personagem. Interessava-me, portanto, não apenas toda a sua obra, mas também detalhes de sua vida. No novo romance, fixei-me em um único aforisma de Nietszche. Por uma pequena ideia, o romance inteiro se desenrola. E, claro, não direi qual é esta ideia para não cometer um spoiler.

Um thriller filosófico, com atores do meio acadêmico, um mistério que liga (e afasta) gerações em torno de um livro… Desde quando surge seu interesse por esse universo? Pode-se dizer que seu romance também é uma crítica às disputas e querelas intelectuais em torno da apropriação de teorias e autores?

Não resumiria a questão apenas ao termo “apropriação”, acho que a coisa pode ser vista de uma maneira mais ampla: Em O Evangelho, o tema foi tratado quase como um pastelão; em Juliana Klein, com mais postulados acadêmicos, mais nuances, mais rodeios. No entanto, os dois romances têm em comum o perigo de se comprar uma ideia (ou uma teoria) sem posteriores reflexões, sem o benefício da dúvida. É uma crítica que pode ser feita, sim, às disputas intelectuais de autores (e dos herdeiros de autores). Mas é, em suma, uma crítica a ortodoxia de um pensamento, que pode ser vista na academia, na política, na religião, em uma repartição pública…

Você continua com a dupla vida de escritor (agora um escritor com uma vida literária para conduzir) e servidor público do Tribunal de Justiça do Paraná. E agora reafirma um fôlego de escritor de tramas elaboradas, que demandam tempo e espaço para se desenrolarem aos poucos, demoradamente. Ainda é possível conciliar essas atividades?

Sim. E, se houvesse uma academia literária dos servidores públicos, eu teria excelentes patronos. O serviço público funciona como um bom laboratório para a criação de personagens, além de uma fonte rica de enredos, de desencontros, de lides, de paixões.

Então dia a dia no tribunal de alguma forma contribuiu para a elaboração desse imaginário que envolve tramas de mistérios, teorias conspiratórias e crimes? Quais são suas principais referências?

Trabalhei em varas cíveis, criminais, federais… em cada processo judicial, há um enredo, uma verdade que precisa ser grifada para que seja, então, julgada. Não há, claro, teorias de Borges ou aforismas de Nietzsche, mas, sim, pequenos detalhes, atitudes, reações que são transpostas para os personagens que crio. Observar o vasto número de processos judiciais ao meu redor é a maneira de dar credibilidade aos meus personagens. A teoria pode ser absurda: posso afirmar que Borges foi precursor do nazismo ou que Sartre foi o autor de um crime em Curitiba. Os atores, no entanto, necessitam de realidade.

O delegado Irineu, um dos protagonistas do romance, surge no enredo como contraponto aos personagens teóricos, “pensadores”. Com frequência ele não entende o que dizem – até porque eles se expressam de forma quase cifrada, numa “língua” teórico-acadêmica, que parece se colocar contra ele e o que ele representa. Você poderia falar um pouco sobre esse aspecto do livro?

Em O Evangelho, quis deixar claro uma dicotomia: se o assunto tratava de teorias complexas, de explicações metafísicas ou religiosas, a forma, por sua vez, assumia um tom folhetinesco, com capítulos curtos, com ganchos, com algum suspense entre um capítulo e outro. Paguei um pouco por essa estratégia: mais de uma vez recebi – da academia – o elogio pelo tema, com a ressalva do formato best-seller; mais de uma vez recebi – do leitor acostumado com best-sellers – o elogio pelo suspense e a crítica pela complexidade do assunto, ou do tom professoral que, por vezes, a narrativa assume. Enfim, a crítica de um era o elogio do outro. Em Que fim levou Juliana Klein?, essa dicotomia está mais evidente no personagem. Irineu de Freitas não é um racionalista, como os detetives clássicos. É um delegado bronco, que bebe cerveja demais, que tem condições precárias na Polícia Civil, que sofre com atuações políticas populistas. Mas que, no entanto, está no epicentro de um caso que envolve postulados filosóficos, egos acadêmicos. É como um mocinho de um filme de ação de Hollywood em uma sala de aula, tendo que resolver uma prova sobre o existencialismo, com medo de reprovar na matéria. Este é seu dilema.

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