Entrevistas

“O próximo da fila”, de Henrique Rodrigues

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Por Juliana Krapp

Poeta, cronista, contista, organizador de antologias, autor de livros infantis e gestor de projetos de leitura. Há mais de uma década, o carioca Henrique Rodrigues tem atuado em diversas frentes do meio literário. Porém só agora estreia no romance, com O próximo da fila, obra de contornos autobiográficos na qual acompanha a história de um adolescente da classe C, morador da periferia, que recorre ao emprego numa rede de fast food para aliviar o arrocho financeiro da família.

foto henrique rodrigues

 

Enquanto desvenda o microcosmo no interior da lanchonete — com seus tipos humanos, hierarquia, padrões próprios, contradições e afetos —, o livro elabora um retrato ao mesmo tempo mordaz e lírico do Rio de Janeiro dos anos 1990. Época de hiperinflação e de incerteza econômica, mas também de rap, de criatividade, de rebeldia. E, para os personagens desta história, de descobertas, amores, reviravoltas. Ao focar sua narrativa num jovem suburbano e pobre, atado ao itinerário escola-trabalho-casa, O próximo da fila se arrisca num percurso original, muito diferente do que tem aparecido no quadro da literatura brasileira contemporânea. O pobre, aqui, não está à margem, mas sim no centro da trama, elaborando uma trajetória vigorosa e singular, desconcertante e irresistível.

Durante bastante tempo você costumava dizer aos amigos, de forma bem-humorada, que estava ‘escrevendo um romance sobre um cara que passa esfregão numa lanchonete’. Com a obra já publicada, como você a definiria, em poucas palavras?

Trata-se de uma visita aos primeiros anos da década de 1990, um período difícil da nossa história recente, sob a perspectiva de um jovem pobre. Passados mais de 20 anos, achei que o balcão de uma lanchonete seria um belo lugar a partir do qual poderia contar a trajetória de um personagem que, como muitos brasileiros, tinha que se virar para sobreviver numa época em que tudo era muito complicado para as chamadas classes C e D.

Assim como o protagonista, você também trabalhou, quando adolescente, numa rede de fast food — a mais famosa de todas. Também esfregou o chão seguindo a técnica do oito, fritou hambúrgueres e serviu ao caixa. Evidentemente, há muito de memória em O próximo da fila. Assim como de ficção. É um ‘cabo de guerra’, como você mesmo define. Como lidou, na escrita, com essa tensão permanente entre memória e invenção?  

Com o tempo, a memória prega peças e vai se tornando difusa, ainda mais quando voltamos para um período específico, como os nossos anos de formação. E por isso mesmo, sendo matéria difusa e fluida, é que a memória pode ser inventada, para usar o termo do poeta Manoel de Barros. Revisitei algumas sensações, cheiros, pessoas, frases e ideias que há tempos estavam numa gaveta das lembranças. Naturalmente, ter vivido por três anos numa lanchonete me deu mais experiências e vivências sobre esse ambiente, o que tornou o processo de escrita até divertido. Mas seria bobo apontar no livro o que é ficção ou aconteceu, mesmo porque para o leitor não faz diferença, pois ele quer é uma boa história. E tem outra coisa: escritor de ficção não é fonte confiável sobre fatos reais, especialmente sobre si mesmo. Por isso, creio que toda obra de ficção seja autobiográfica em alguma medida. Aprendi isso depois de anos de estudo, prática e muita leitura, pois às vezes é preciso se distanciar um pouco do texto, e outras vezes é preciso saber se aproximar. No fim das contas, a memória, assim como a invenção, constituem dois elementos, sobretudo técnicos, para a construção do romance, então esse cabo de guerra gera uma energia que deve servir unicamente ao propósito da narrativa.

Quando você trabalhava na lanchonete, poderia imaginar que escreveria um romance sobre isso, publicado por uma grande editora? Como decidiu ser escritor?    

Quando estava lá, virando carnes na chapa ou catando guimbas no estacionamento, eu fazia letras de rap mentalmente sobre qualquer coisa, e me divertia pacas. Um trabalho mecânico deixa a cuca livre para criar, e sempre tive muita imaginação. Mas jamais poderia imaginar que aquela coisa simples de um adolescente viraria matéria para esse mesmo cara, quando ficasse mais velho, escrever num livro. Por isso é que esse romance é algo emocionante para mim, e gostaria muito de poder viajar no tempo, chegar para aquele garoto de 16 anos e dizer: ‘Segue em frente e captura tudo o que está no seu entorno, pois essa vai ser a sua matéria de trabalho’. Não tive muitos brinquedos na infância, então a realidade era uma coisa toda aberta, sendo possível recriar o mundo inteiro na cuca. Quando descobri os livros, na escola pública, foi uma maravilha, pois eles davam uma forma para as coisas imaginadas. Decidi ser escritor aos 13 anos, quando ganhei um concurso de frases na escola. E ouvi muitos risos, claro, porque um garoto pobre dizer que quer ser escritor é tão crível quanto dizer que quer ser astronauta. E claro que é possível ser astronauta! Depois comecei a ler mais do que pediam, e fui em frente. Por exemplo, decorava poemas e depois escrevia para as garotas dizendo que eu tinha feito, e mesmo se na maioria das vezes não conseguisse nada, foi um aprendizado de escrita. Desisti da carreira militar, que sempre diziam ser a única solução para o pobre, quando passei no vestibular de Letras para a Uerj. Lá também encontrei um arsenal de leitura que me ajudou muito nesse meu objetivo.

A autoficção é um traço muito marcante na literatura brasileira contemporânea. Seu livro, porém, tem ao menos uma característica que o distingue de seus pares: a classe C está no centro da trama. E não aparece mediada pela estética da violência. O que tem prevalecido na ficção atual são ou protagonistas de classe média alta, ou uma periferia muito marcada pelo ‘estar à margem’. Por que é tão raro encontrar livros sobre a classe C que não se enquadrem na chamada ‘literatura de periferia’? Por que você assumiu esse outro caminho?

Acho que eu talvez fosse um escritor mais conhecido se ouvisse o que me disseram na Academia certa vez: ‘Por que faz sonetos? Vai fazer hip hop para representar sua classe.’ Mas por quê? Acho que sempre tentam colocar rótulos, especialmente na tentativa de não cruzarmos certas fronteiras bem delimitadas. Seria como dizer para um cara mais pobre que quer dançar que só pode se expressar na Batalha do Passinho, ou o que quer cantar se for funk, pintar só se for grafiteiro, e por aí vai. Tudo isso é legal, mas e se o indivíduo quiser conhecer outras coisas? Diversidade é a gente fazer o que gosta, sem rótulo ou cota artística. Vejo que boa parte da literatura, talvez a maioria, seja produzida por e para uma classe média ou média alta. Talvez só recentemente os espaços tenham se democratizado um pouco mais, e mesmo assim é preciso entrar na categoria meio estereotipada do ‘escritor da margem’, mas aí é um tipo de margem padronizada, já com alguns estereótipos construídos por um ponto de vista que vem muitas vezes de fora. A classe C, sendo maioria, é tão diversa, tão cheia de matizes, que permite outros olhares sobre ela.

Grande parte do romance se passa dentro de uma loja de fast food, num cenário permeado por hambúrgueres e símbolos americanos, onde todos precisam atender ao ‘Padrão’. Mas é um romance brasileiríssimo, que retrata de forma muito vigorosa a cultura carioca dos anos 90. Como extrair tanta vida de um ambiente tão asséptico? 

O próximo da fila é um romance sobre a minha aldeia. Quando se começava a falar da tal globalização, ela já nos entrava narina adentro, pois importamos sempre hábitos que parecem ser melhores, não só na comida, mas nos filmes, no vestuário, na sede de consumo desenfreado. O fast food acabou sendo um símbolo disso. Mas dentro de cada coisa globalizada existe uma alma local. No nosso caso, mesmo com o Padrão descrito no livro, acredito que em cada lugar do mundo os garotos da rede de lanchonete tenham uma história diferente para ser contada.

Podemos dizer que parte de sua verve de escritor aflorou no contato com os personagens e situações que vivenciou nessa época da lanchonete? Acredita, como alguns autores, que a experiência de vida é primordial para o fazer literário? 

Não creio na primeira hipótese. Depois da lanchonete, quando fui para a faculdade, trabalhei seis anos como balconista numa locadora de filmes e games. Acho que ali sim encontrei material que me ajudou a construir uma voz literária, pois games e filmes são grandes manifestações de criatividade e narratividade. Em geral a pesquisa e o exercício técnico são mais fundamentais para a produção literária. Mas acredito que, para determinados livros de ficção, a experiência vivida é um fator importante. Não por acaso escolhi uma epígrafe do Émile Zola. Para escrever o Germinal, ele passou dois meses vivendo entre os mineiros retratados no romance.

Você iniciou a carreira literária como poeta, depois se tornou contista, cronista e autor de livros infantis. Só agora, quase uma década após a estreia com A Musa Diluída (Record), se aventurou pelo romance. Por que decidiu investir numa narrativa de mais fôlego? Qual sua relação com o gênero romance? 

Gosto de passear por diferente categorias literárias. Sempre gostei de estudar técnicas e praticar até cansar. Acho estranho prosadores que não leem poesia e vice-versa, autores de livros infantis que não dialogam com os demais etc. Na faculdade, um professor disse que determinada forma poética (sextina) era dificílima de se fazer e que só meia dúzia de poetas haviam escrito. E lá fui eu passar o fim de semana inteiro trancado, escrevendo o poema de forma obcecada. O professor, que aliás é um bom poeta, me obrigou a ler em sala, quase me matando de vergonha. Depois participei de vários eventos de poesia e fui perdendo a timidez. Então aos 30 anos eis que foi publicado A musa diluída, meu primeiro livro, depois de 12 anos de prática. Depois parti para contos, infantis, juvenis. E agora, beirando os 40, nel mezzo del camin, achei por bem escrever um texto mais longo. O romance é um espaço de excelência da literatura, pois exige tempo e disciplina. Só não concordo que seja o maior, como se fosse o topo da hierarquia literária, algo que só existe para o mercado, não para a arte literária si. Todo tipo de texto literário tem o seu valor e sua marca distinta.

Além de atuar como escritor, você trabalha com gestão de projetos de leitura. É uma forma de, ainda, transitar entre os dois lados do balcão?

Sim, tenho sempre essa sensação ainda. Estou sempre transitando entre as duas posições, com o cuidado também de não misturá-las. Mas essa posição permite um olhar duplo sobre o meu objeto de trabalho e, sobretudo, respeito ao outro, a quem está do outro lado.

Você tem o hábito de visitar escolas e eventos literários, mantendo interlocução sobretudo com crianças e jovens. Acredita que o escritor pode ser mais atuante na formação de novos leitores?    

Nesses últimos anos, com a proliferação de eventos literários, o escritor saiu da toca e passou a fazer parte do processo da leitura. Nas redes sociais é possível estabelecer uma relação fácil e direta entre autor e leitor, o que também permite um contato com autores mais tímidos, pois o sujeito que escreve não necessariamente precisa ser um palestrante hábil. Mas no meu caso tem sido importante manter esse elo com os leitores. Quando vou numa escola pública conversar com a garotada, por exemplo, sinto que estou devolvendo algo que me foi dado, é o mínimo que posso fazer para ajudar a formar leitores e cidadãos mais conscientes. Ninguém ainda encontrou um modelo definitivo para formar leitores em larga escala, mas nos melhores exemplos, como a Jornada de Passo Fundo, o escritor foi um elemento sempre presente.

Quais são seus projetos atuais? Há algum novo livro ou coletânea à vista?

Sim, estou organizando com o Marcelo Moutinho uma antologia de contos inspirados nas canções do Noel Rosa. E tenho dois infantis novos a caminho também. E no meio disso devo trabalhar em um novo romance. E continuar com minhas crônicas semanais no site Vida Breve. A ideia é não deixar de passear pelos muitos modos de escrever.

 

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