Entrevistas

“A pedido do embaixador”, de Fernando Perdigão

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Por Simone Magno

A pedido do embaixador - capa

Os fãs de literatura policial podem se preparar para conhecer um personagem que já nasce clássico: o detetive Andrade. Protagonista de A pedido do embaixador, primeiro romance de Fernando Perdigão, ele usa métodos não ortodoxos e uma divertida linguagem politicamente incorreta para solucionar crimes que assolam o Rio de Janeiro – em especial Copacabana. Com uma trama policial clássica, que flerta com um clima noir, mas se passa em um ambiente bem brasileiro, A pedido do embaixador (Record) será lançado no domingo, dia 30 de agosto, às 18h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon (RJ), onde o autor realiza sessão de autógrafos.

 

No livro, Andrade é chamado para investigar o assassinato de um dos sócios de uma agência de turismo voltada para o público LGBT, que era amigo do embaixador que dá título ao livro. Circulando nesse universo, o incorrigível detetive vai desfiando suas tiradas. Para quem o robe de chambre é “um jaleco comprido, de seda, que os gays usam para não ter o trabalho de tirar as calças”, ele não tem dúvidas na hora de interrogar um suspeito: vai “espremer a laranjinha até ela virar suco”.

Fernando Perdigão, um engenheiro com pós-graduação em economia, largou o mercado financeiro há quatro anos para se dedicar integralmente à literatura e à produção de roteiros. Na entrevista abaixo, o autor revela suas preferências literárias e conta como criou o detetive Andrade.

Como é se dedicar integralmente à literatura após anos no mercado financeiro?

Sempre namorei a escrita, mas não sobrava tempo para escrever. Há mais de 30 anos, lancei um livro de contos, Clínica moderna, que chegou a ser finalista do antigo prêmio Nestlé. Há quatro anos resolvi me dar essa chance. Quando decidi escrever, ainda não tinha ideia para livro nenhum. Sempre gostei muito de romance policial, adorava o Nero Wolfe do Rex Stout. Então, decidi fazer um romance policial clássico, de crime e investigação, mas em um ambiente bem brasileiro.

Você começou o livro pela trama ou pelo detetive?

Pelo Andrade, que tem aquelas características de detetive noir, desiludido com a sociedade, frustrado com a atividade profissional. Mas ele não é um cínico individualista como aqueles clássicos americanos, pelo contrário, ele é uma figura explosiva, meio exótica, grande. A figura traz para o livro um peso muito grande de humor. Ele é intolerante, desmazelado, usa métodos de investigação próprios da realidade brasileira, aquele impulso de pegar a primeira pessoa vagamente suspeita e lançar a culpa sobre ela. Para ele, é assim: toda testemunha é suspeita e todo suspeito é culpado. Andrade não é um ignorante, mas é bronco, e a figura toda é politicamente incorreta. Ele beira o preconceito, principalmente na retórica verbal. Apesar do que ele fala, a namorada é uma cabocla, quase índia; a assistente é militarizada, ambígua sexualmente; ele na verdade odeia todo mundo e é intolerante com todos, principalmente com os idosos, que começaram a ganhar direitos, mas o consolo dele é que essa é a única das minorias da qual ele vai fazer parte.

Teve alguma inspiração para compor Andrade?

Pensei em vários detetives, mas acho que ele tem semelhança com o protagonista de um livro de que eu gostei muito, A confraria de tolos, de John Kennedy Toole, autor que morreu cedo. É um rebelde ensimesmado, um jovem culto que vive com a mãe judia, apaixonado pela época medieval. Pensei um pouco nesse cara, mas como era um livro de humor, tinha que ter um exagero.

E por que ambientar o livro em Copacabana?

O espírito do Andrade é de frustração, de quem viveu Copacabana no auge. Passei a infância no bairro e ele se agigantou de uma forma opressora. É uma Copacabana que irrita pelo excesso de gente, que era o máximo, mas sofreu um processo de degradação urbana e agora está renascendo. Mas essas áreas o detetive nem olha; ele foca o ódio no shopping onde fica a agência, que lembra o shopping dos antiquários, que eu frequentava muito, adorava.

Você também situa o tempo do livro, citando as manifestações pela cidade, a vinda do papa Francisco, as UPPs…

Aproveito alguns elementos da realidade. Essas coisas renovam, é bom situar, tem livro de detetive que é de 1880. Agora os personagens usam celular.

A literatura policial está em alta. O que você destaca no gênero hoje?

Eu gosto do ambiente, gosto de histórias que não se passem na Inglaterra rural, gosto de ler autores africanos… No livro policial, a trama é o importante, mas o central é o personagem. Já li cem livros da Agatha Christie e me lembro da Miss Marple e do Hercule Poirot, mas não me lembro exatamente das histórias de cada um deles.

Você teve algum método para escrever?

Não sou a pessoa mais disciplinada do mundo, mas me obriguei a escrever em horário quase comercial. Posso me dispersar com facilidade, por isso me impus um horário. E fiz uma estrutura para ter o processo de investigação bem mapeado. Levei mais tempo fazendo isso, e a primeira coisa que me veio foi o final, como o detetive soluciona o caso. Gostei desse método porque não precisei chegar a impasses do tipo: e agora, como é que eu resolvo?

Como foi criar as tiradas impagáveis do Andrade?

As tiradas vêm de frases ouvidas a vida inteira, coisas que o brasileiro fala entre amigos. Quanto mais próximos, mais coisas bárbaras são ditas. Em grupos menores as pessoas são politicamente incorretas mesmo, como o Andrade, mas o que elas falam não é necessariamente o que elas fazem.

 

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