Entrevistas

Claudia Piñeiro, da Verus, lança “Tua” na Bienal

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Por Cláudia Lamego

EstClaudia PINEIROe ano, a Bienal do Rio vai homenagear a Argentina. Entre os autores convidados está Claudia Piñeiro, que acaba de lançar no Brasil seu mais recente livro, Tua, pela Editora Verus. A argentina falará de literatura e cinema na primeira mesa, no estande do Consulado do país, e finaliza sua participação conversando com o autor Eric Nepomuceno sobre identidade e diversidade na América Latina. Seus romances traduzidos aqui, entre eles As viúvas das quintas-feiras, premiado pelo jornal “Clarín”, retratam de forma incisiva e cortante a classe média de seu país, com seus preconceitos, dramas, virtudes e defeitos, num estilo que a aproxima muito do cinema argentino contemporâneo. A partir de crimes cometidos por pessoas comuns, a autora desvenda uma sociedade que muito se assemelha à nossa, como ela reconhece, na entrevista abaixo.

 

O Brasil é citado nos três livros seus publicados por aqui, mesmo que apenas de passagem. Personagens como os moradores de Altos de la Cascada, o condomínio chique nos arredores de Buenos Aires onde se passa As viúvas das quintas-feiras, são facilmente encontráveis em nossas principais capitais, como Rio e São Paulo. Você enxerga alguma semelhança entre as nossas elites? Qual é a sua relação com o nosso país?

Há alguns anos, quando fui apresentar As viúvas das quintas-feiras  no Rio de Janeiro, muita gente me falou de lugares extremamente parecidos com aqueles descritos no romance. Conheci vários, inclusive. Paramos em um Hotel na Barra da Tijuca e ali havia se proliferado este tipo de urbanização. Vi o mesmo em São Paulo. Com certeza cada país tem suas características particulares, mas não acredito que sejamos tão diferentes nisto e nem em outros aspectos. Para mim, o Brasil é um lugar onde sempre desejo estar. Estive várias vezes no país para passar férias. Conheço cidades do Norte e do Sul. Estudei português durante dois anos na embaixada brasileira na Argentina porque admiro o idioma e a cultura do Brasil. Particularmente, nós argentinos invejamos a alegria dos brasileiros. Não sei se isso é um mito, mas é assim que nós vemos.

Complementando a pergunta anterior, qual é a sua relação com a nossa literatura? Tem algum autor que você admira, seja clássico ou contemporâneo?

Alguns autores têm uma grande trajetória e são indispensáveis, como Jorge Amado e Clarice Lispector. Clarice não nasceu no Brasil, mas a considero uma autora brasileira. Tenho muita admiração por ela. É o que há de melhor na literatura não só no Brasil, mas na América Latina. O último livro que eu li de um autor brasileiro contemporâneo foi De gados e homens (Record), da Ana Paula Maia.

As tramas de Betibu, Tua e As viúvas das quintas-feiras envolvem crimes, mas a leitura desses livros revela muito das relações humanas, da falta de comunicação entre as famílias, do conflito de gerações, da hipocrisia de certas relações sociais, do papel das mulheres, sempre protagonizando cenas importantes, sejam como fúteis e submissas às aparências do casamento seja como trabalhadoras modernas e independentes. Nesse sentido, como você define sua literatura? Ela vai além do policial, certo?

Nenhum desses romances, com exceção de Betibu, foi escrito com o propósito de ser um romance do gênero policial. Eu começava a escrever um romance de personagens, de relações, de famílias com segredos, de prisão, e no meio se plantava a morte e com ela o enigma da busca pela verdade. Então, quase todos os romances têm subtramas policiais, que para mim não são as mais importantes, mas que competem de alguma forma com outras linhas dramáticas de grande intensidade. Em todos os casos, o gênero policial me veio de surpresa no meio do processo de escrita. Por isso, quando fui escrever Betibu, já tendo passado por isso várias vezes, decidi que esse romance sim seria de gênero e me lancei na trama policial desde o primeiro capítulo.

Na Bienal, você estará numa mesa sobre futebol. Qual é a sua relação com o esporte que une as nossas culturas, mas que nos opõe frontalmente dentro de campo?

Tenho alguns contos sobre futebol e fiz o prólogo de um livro de contos sobre o tema escrito para mulheres. Suponho que por isso tenha sido convidada para a mesa.

Num debate sobre o Tua, muitas pessoas compararam seu livro com o cinema argentino contemporâneo, que faz sucesso por aqui. Você já teve livros adaptados para o cinema. Qual é a sua relação com essa arte?

Eu sou roteirista e, por isso, tenho muito respeito pelo trabalho de adaptação. Acredito que o filme pode ser um feito artístico baseado em um livro, mas é um produto diferente. É outro feito artístico. Por isso, entrego o texto com confiança no trabalho do diretor, do adaptador, dos atores e vou ao cinema com a ilusão de me surpreender com esse trabalho. Nas três vezes que meus livros foram levados ao cinema, em As viúvas das quintas-feiras, no Tua  e em Betibu, as adaptações foram muito diferentes e eu gostei muito das três.

Em Betibu, você captou com muita perspicácia os bastidores da redação, da relação da velha e da nova geração com a notícia e também da crise que vive hoje a imprensa, com os novos meios digitais. Acha que essa crise pode afetar também o mercado literário, na medida em que o mundo se digitaliza e as pequenas livrarias se veem engolidas pelas grandes redes, principalmente online?

A literatura é muito mais importante do que as grandes cadeias. As grandes redes vendem a maioria dos livros, mas pelo menos em Buenos Aires, todo mundo sabe aonde ir se quisermos algum livro específico que não cumpra com os requisitos do marketing necessários para que ele seja vendido em uma grande cadeia. Eu tenho minhas livrarias preferidas e todas são pequenas e de livreiros. Em Buenos Aires, há muitas delas, lindas aliás, com café para folhear as páginas antes de comprar o livro. É um ritual para além do livro em si e acredito que isso não nos será privado. Quanto ao universo digital, vejamos a parte positiva: a circulação dos textos. Tinha livros que não chegavam à Argentina e, graças aos e-books, agora podemos ler. Os livros fora de catálogo e os difíceis de serem encontrados, por exemplo. Não creio que o livro em papel morra porque é um objeto de desejo, assim como o Brasil é para os argentinos.

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