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Alberto Mussa abre o Café Literário na Bienal do Rio

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Por Manoela Sawitzki

Em 1567, o serralheiro Francisco da Costa foi encontrado morto. Jerônima Rodrigues, sua esposa, mameluca desejada por muitos homens, surge como provável pivô do crime. Dez suspeitos foram investigados, e um deles condenado à morte por enforcamento. O primeiro homicídio oficialmente registrado na cidade ganha, mais de quatrocentos anos depois, uma nova e surpreendente investigação. Mas mais do que o crime, foi o desejo de compreender a mentalidade da época, “a possibilidade de conhecer o Outro”, o que moveu o autor nesse romance.

Mussa 2014 - foto de Paula Johas 2

 

A primeira história do mundo, como você adverte no início do livro, faz parte de um projeto de 1999: a escrita de cinco romances policiais, uma para cada século de história do Rio de Janeiro. Juntos, eles formarão uma espécie de compêndio mítico da cidade. Em O trono da rainha Jinga, a ação se passa em 1626. O Senhor do Lado Esquerdo trata de um crime do século 20. Agora você se lança sobre aquele que teria sido o primeiro homicídio investigado e julgado na região, em 1567. Com esse projeto você cruza História e mitologia para criar novas mitologias sobre o passado. A ordem dos períodos históricos trabalhados até agora corresponde a algum dispositivo ou intenção?

Não, não há uma intenção na ordem dos romances. Venho fazendo à medida que as ideias surgem. Num certo momento, achei que ia abandonar o projeto, tanto que levei doze anos para publicar o segundo livro da série. Agora vou fazer mais uma pausa. Comecei a escrever um romance chamado A hipótese humana, cuja base é a mitologia popular que cerca o jogo do bicho.

 

Na época do lançamento de O Senhor do lado esquerdo, você já trabalhava neste novo livro. Os temas de cada um dos cinco volumes desse projeto já estão definidos? 

Ainda não. Para o do século 18, eu tenho uma vaga ideia. Meu detetive nesse livro vai ser um familiar do Santo Ofício, que vai investigar pessoas acusadas ou suspeitas de feitiçaria. Quero fazer dele um homem honesto, que acredita nas verdades da igreja e crê na eficácia da Inquisição. É um tema fascinante, a Inquisição, pouco explorado na literatura brasileira.

Você disse numa entrevista anterior que, ao contrário do que se pensa, não são longos processos de pesquisa mas fragmentos historiográficos que lhe dão as indicações de que precisa para fazer o que realmente intenciona: fabular. Como chegou ao mote de A primeira história do mundo? O assassinato de Francisco da Costa realmente aconteceu?

Quando me deu vontade de ambientar um livro no século 16, comecei a minha imersão no tempo, lendo cartas de jesuítas, relatos de navegadores, livros de história que tratavam do período. Tudo um pouco aleatoriamente. De repente me deparei com um volume chamado “Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro”. Foi nele que encontrei o caso de Francisco da Costa (de quem mantive o nome verdadeiro).

O que me chamou a atenção e me instigou a recriar essa história, foi o fato de, apesar de ele ter sido morto com 7 ou 8 flechas, ninguém ter desconfiado dos índios, que ainda estavam em guerra. Ao contrário, foram processados dez cidadãos, inclusive um fidalgo, cavaleiro da casa de el-rei. O motivo do crime não poderia ser mais literário: a mulher da vítima, Jerônima Rodrigues (nome também verdadeiro).

Mais do que o crime em si, a grande pretensão do romance é compreender a mentalidade daquelas pessoas, num mundo tão precário e improvisado, como era o Brasil em 1567. É esse tipo de experiência que me atrai na literatura, a possibilidade conhecer o Outro.

 

Seu processo de escrita é marcado por um senso de organização e planejamento extremamente rigorosos. Ocorre, no entanto, de algo importante surgir ao acaso, com a escrita em curso, e subverter o plano inicial?

Antes de começar a escrever, penso muito no que pretendo discutir, na estrutura geral do livro, faço anotações, desenho mapas, vou criando cenas mentalmente, conto a história para pessoas próximas. Não sei escrever sem fazer a narrativa oral do enredo. É assim que o livro amadurece. Quando sinto que a história está pronta, começo a escrita propriamente dita.

É claro que uma boa ideia pode surgir depois, mas nunca muda radicalmente a estrutura. O plano inicial sempre se mantém. Tem sido assim até agora.

 

Os títulos são as primeiras informações que lhe surgem sobre os livros que escreve, certo? Pode falar um pouco sobre esse? A primeira história do mundo, sobretudo depois da leitura do romance, é um título inquietante…

Exato, a primeira frase que escrevo é o título. O título resume o problema fundamental que quero discutir. A primeira história do mundo tem como fundo dois mitos importantes que me parecem complementares: o das mulheres sem marido; e o da dominação da mulher pelo homem.

A tese (literária, naturalmente) é de que a humanidade principia com o controle da sexualidade, particularmente da sexualidade feminina, tendo como consequência a referida dominação da mulher. Muitos mitos espalhados pelo mundo tratam disso. Todavia, mesmo nesses sociedades sexualmente controladoras, permanecem os impulsos eróticos naturais. Daí provém os mitos sobre mulheres que se rebelam, a ideia de que um mundo governado por mulheres é um mundo de libertinagem, de sexo livre.

A primeira história do mundo (considerada como mito) conta como os homens tomaram o poder das mulheres, e como algumas delas se revoltaram e fugiram, para construir um mundo próprio, independente.

A primeira história do mundo pode ser compreendida também como a nossa primeira história, história de um mundo novo que acabava de nascer, em que os mitos referidos exerceram um papel subliminar, mas muito forte, orientando o pensamento e o comportamento dos indivíduos.

A primeira história do mundo é ainda a história do primeiro crime que funda uma cidade — já que em praticamente todas as mitologias o mundo surge com um crime, com a quebra de um tabu, com uma desobediência, com um ato de rebeldia.

 

Seu trabalho literário tem se ancorado no espaço da dúvida. Nesse livro, o narrador-investigador parte de uma investigação original constituída sobretudo por relatos, depoimentos. Ou seja, o único fato indiscutível é o assassinato, de resto, há apenas versões. Conforme ele também aponta, os quatro séculos que nos separam do crime dão margens para imprecisões, incertezas e impossibilidades. Tudo aqui é terreno fértil para a ficcionalização. O tom ensaístico, de tese sendo construída, no entanto, sugere “verdades”, confunde, subverte o pacto de suspensão da descrença que o leitor de ficção faz com o autor. Você tem buscado essa subversão? Gostaria que a pergunta fatal, “mas isso realmente aconteceu?”, pudesse ser transcendida, e seus livros fossem tratados essencialmente como ficções?

Acredito que a categoria “ficção” já não dá conta de alguns modos contemporâneos de narrar. Acho um conceito superado. Ao mesmo tempo que eu invisto na fabulação, multiplico histórias dentro das histórias, também discorro sobre temas abstratos, também escrevo pequenos ensaios entre uma história e outra. O importante é que a narrativa seja autoral, que tenha uma voz autônoma. Para fazer uma comparação, o que faz da fotografia uma arte não é o objeto fotografado. Esse é real, não foi criado pelo fotógrafo. O que faz da fotografia uma arte é o olhar do fotógrafo; o que faz de um documentário uma arte é o olhar do diretor; o que faz de uma narrativa uma obra literária é o olhar, ou a voz, do narrador. Por isso, um livro como Os sertões (a rigor, uma reportagem, um relato jornalístico) pode ser lido como literatura, é literatura da mais alta qualidade. Euclides da Cunha não imaginou nada. Mas narrou com uma voz tão pessoal que fez literatura sem nenhuma ficção.

Acho legítimo que o leitor queira saber o que é ou não ficcional. Pela minha experiência, contudo, esse dado nunca muda a impressão que ele teve da leitura. O leitor acaba descobrindo que a fabulação é sempre maior do que aparenta ser. Não me preocupo com isso.

 

A primeira história do mundo faz um retrato bastante meticuloso sobre os primeiros movimentos de chegada e instalação dos europeus na costa brasileira, as populações indígenas que viviam aqui, e as interações iniciais entre esses mundos. Quais foram suas fontes principais para chegar a tais detalhamentos? E até que ponto você investiu em recriações?

Minha fonte principal foram os próprios textos do século 16, uma bibliografia que eu já dominava, em grande parte, por ter escrito Meu destino é ser onça. Mas li alguns livros sobre o Rio de Janeiro e sobre a história do Brasil em geral, no século 16. Os mais importantes dentre eles foram Geografia histórica do Rio de Janeiro, de Maurício Abreu, infelizmente falecido pouco depois de ter escrito essa obra monumental; e A inconstância da alma selvagem, do Eduardo Viveiros de Castro. Eduardo é para mim o maior pensador brasileiro da atualidade.

O maior prazer que eu tive ao escrever esse livro foi precisamente o de recriar aquele mundo tão rude, tão cruel, tão obscuro, sobre o qual sabemos tão pouco. Não sei se o meu Brasil quinhentista corresponde ao que existiu de verdade. O importante, pelo menos, é que seja verossímil.

 

Jerônima Rodrigues é uma mameluca desejada por muitos homens brancos do lugar – em detrimento mesmo de europeias que teriam vindo ao Brasil para se casar. Você concorda que Jerônima sintetiza nossas interseções originais e, sobretudo, o obscurantismo que há por trás delas? Pode falar um pouco sobre essa personagem?

Jerônima é a personagem. É o motivo do crime. E é a verdadeira vítima. Representa não só essas primeiras “brasileiras”, no plano histórico e sociológico, como também a Mulher Primordial, no sentido mítico.

Como a cidade tinha mais homens que mulheres, ela se torna um objeto, o centro da discórdia, das tensões entre os homens que a cobiçam. É uma mulher oprimida por toda uma Cidade que deseja devorá-la. Só podemos compreender o assassinato de Francisco da Costa, e o número absurdo de 10 suspeitos (numa cidade de 400 moradores), se percebermos outras hostilidades, a violência implícita numa cidade como aquela.

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