Palavra de editor

Autores da Record concorrem ao Prêmio Oceanos

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Por Carlos Andreazza
Editor-executivo da Record

A Record tem nove entre os 63 semifinalistas do Prêmio Oceanos, o antigo Portugal Telecom. É marca importante. Ainda há – claro – um longo e incerto mar a navegar, águas (felizmente) competitivas, antes que um deles possa vencer. Não importa. Ou melhor: importa, sim; queremos e podemos vencer; temos somente livraços nesta disputa; mas fico desde já contente em ver assim, de repente, um tão preciso retrato do que seja a Record, do que seja o compromisso histórico – e sempre renovado – da editora com a literatura brasileira.

Nenhuma editora brasileira investe tanto em escritores estreantes – jovens ou não – quanto a Record. (Investimento que – registre-se – aumentou neste ano da graça de 2015, e que crescerá em 2016).

Não é à toa que vemos, nesta lista, os livros (ambos de contos) de Nélida Piñon – consagrada, imortal, patrimônio da Record e do Brasil – e de Alexandre Marques Rodrigues, vencedor do Prêmio Sesc de 2014, autor estreante portanto, trinta e poucos anos de idade, um escritor a ser lido com senso de urgência, que já com seu primeiro livro (sem falsa modéstia, apresentado ao mundo com grande categoria editorial) desponta entre os maiorais da literatura nacional. (O que, aliás, aumenta a expectativa pelo romance, o primeiro, que ora escreve).

O nome disso é trabalho. O nome disso também é pluralidade.

Daí porque encontremos, em meio aos nove, autores tão diferentes entre si quanto brilhantes e originais, algumas das vozes mais criativas da ficção produzida hoje no mundo: Ana Miranda, Alberto Mussa, Cristovão Tezza, Evandro Affonso Ferreira e – o mais jovem entre eles – Carlos Henrique Schroeder, que, embora longe de ser um novato, chega a esta semifinal com seu primeiro (e belo) romance, As fantasias eletivas, e isso num momento muito especial, pois lançamos agora seu segundo, História da chuva, obra destinada a estar, por excelência, na mesma posição em 2016.

Preciso também falar de dois livros excepcionais, cuja presença nesta semifinal deveria servir de pretexto a que fossem lidos – ou mais lidos; e resenhados, criticados, divulgados. Falo de Viagem à Calábria, de Sérgio Capparelli, delicada narrativa que explora o tema da viagem, do regresso, do reencontro; e de O trovador, de Rodrigo Garcia Lopes, em que a costura do tom enigmático e da base erudita resulta num romance em que o manejo das palavras (e dos temperos) é a grande chave para um mistério.

Estou muito feliz – e é em nome da Record que falo. É bom ver os frutos de nosso empenho. De nossa vocação.

Parabéns a nossos autores. Que muitos avancem à final. E que um deles seja o grande vencedor.

Parabéns também a nossos editores, assistentes e estagiários, alguns dos quais nos deixaram há pouco – um timaço: Lucas Bandeira, Duda Costa, Luiza Miranda, Bruna Cezário, Thais Lima, Igor Soares, Laiane Flores e Raisa Santos.

Vamos com tudo!


Confira as sinopses dos indicados:

A primeira historia do mundoA PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO, de Alberto Mussa (Record)

A primeira história do mundo baseia-se em parte da documentação de um caso real: o primeiro registro formal de um assassinato no Rio de Janeiro, de 1567, crime passional, história de adultério, que enredou, entre acusados e testemunhas, espantosos 15% da população da cidade (que não passava de 400). Uma deliciosa trama policial, em que os mitos fundadores do Brasil, sobretudo os indígenas, associados à própria tradição do gênero literário policial, serão fundamentais para a solução do caso. A obra de Mussa, publicada em 14 países e traduzida em 10 idiomas, vem sendo estudada em universidades da Europa, dos Estados Unidos e do mundo árabe.

 

O professor
O PROFESSOR
, de Cristóvão Tezza (Record)

O professor é o primeiro romance de Cristovão Tezza após um hiato de 4 anos. Com domínio total da técnica narrativa, Tezza nos apresenta o professou Heliseu, que, aos 70 anos, se prepara para receber uma homenagem da universidade à qual dedicou a maior parte de sua vida. A homenagem desperta uma sucessão incontrolável de memórias, e Heliseu revisita momentos, nem sempre felizes, que marcaram sua vida: a convivência com o pai rígido; o tempo no seminário; o casamento com Monica; o relacionamento conturbado com o filho; a paixão pela misteriosa Therèze. As memórias se cruzam com a história recente do Brasil, do regime militar aos governos mais recentes, e o acerto de contas de Heliseu com seu passado transforma-se no acerto de contas de um país com sua história.

 

Musa Praguejadora OK
A MUSA PRAGUEJADORA
, de Ana Miranda (Record)

Vinte e cinco anos após o best seller Boca do inferno (Prêmio Jabuti de revelação), Ana Miranda volta a Gregório de Matos, o enigmático poeta barroco, desta vez em uma biografia baseada em ampla pesquisa histórica. Se em Boca do inferno a autora concentrou a narrativa em um evento da vida de Gregório – sua participação na luta política da Bahia do final do século 17 –, aqui a trajetória do poeta é contada por completo, desde a origem de sua família em Portugal, seus primeiros interesses pela literatura, passando pela deportação para Angola, até a morte, narrada com maestria. Embora Ana Miranda realize um amplo panorama da vida – da qual pouco se tem certeza – de Gregório, seu retrato do poeta é pessoal, marcado pela convivência de uma grande escritora com uma obra que conhece de perto.

 

Os piores dias da minha vida foram todos
OS PIORES DIAS DA MINHA VIDA FORAM TODOS
, de Evandro Alves Ferreira (Record)

Do autor vencedor do Prêmio Jabuti 2013, em Os piores dias de minha vida foram todos, o leitor se vê diante de um diálogo imaginário da narradora – uma mulher em um leito de hospital – ao caminhar nua pelas ruas da metrópole. Em seus devaneios, observa a vaidade humana enquanto relembra suas perdas e a relação com o amigo escritor falecido. Assemelha seus dramas aos da figura mitológica Antígona. Evandro Affonso Ferreira exerce um ritmo acertado para a personagem que já não vê mais esperança na vida. Com este livro Evandro atinge o ápice de suas histórias começadas em Minha mãe se matou sem dizer adeus (Prêmio APCA de melhor romance de 2010, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2011 e do Jabuti 2011). Trata-se do notável arremate da trilogia composta também por O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (Prêmio Jabuti 2013).

 

As fantasias eletivas
AS FANTASIAS ELETIVAS
, Carlos Henrique Schroeder (Record)

Neste romance de Carlos Henrique Schroeder, o recepcionista noturno Renê narra a história a partir de um balcão de hotel. O personagem, que vive limpando as superfícies de onde trabalha, é também o sujeito incompetente para entender o próprio passado, os incidentes da adolescência, os amores furados, o filho com quem é impedido de falar, a tentativa de um suicídio. Talvez para evitar pensar em tudo isso, Renê aceita o turno da noite. Na recepção noturna de uma cidade turística, ele dilui sua frustração. Em sua função, Renê conhece Copi, escritor e fotógrafo que vem da Argentina. Renê lerá o que Copi escreve e verá o que o amigo vê a partir de fotos surpreendentes. É quando um livro se abre dentro do livro, e tudo se torna um grande ensaio da alma humana no qual descobrimos “que para os outros somos um conjunto de imagens, de memória, fotográfica ou não”.

O Trovador

O TROVADOR, de Rodrigo Garcia Lopes (Record)

Romance de estreia de Rodrigo Garcia Lopes, O Trovador é uma mistura de Babel, Eldorado e faroeste. Na Londrina dos anos 30, uma população que se divide em aventureiros, estrangeiros de passado obscuro, trabalhadores sujos de serragem, proprietários engravatados e empresárias da noite, enfrenta uma série de assassinatos. A principal pista: a poesia. De início apenas um aparente homicídio decorrente de triângulo amoroso entre funcionários da companhia, a investigação avança até desvelar a identidade do impiedoso assassino denominado O Trovador. Quem seria, e por que uma pessoa com talento para a linguagem apelaria ao assassinato como uma das belas-artes? Os versos assinados pelo Trovador envolverão o leitor em um habilidoso enigma, e as palavras revelarão segredos escondidos por trás de um complexo jogo de poder.

Parafilias
PARAFILIAS
, de Alexandre Rodrigues (Record)

Nos contos vencedores do Prêmio Sesc 2014, Alexandre Marques Rodrigues narra histórias de um escritor em crise, uma mulher que bebe café, um jovem que limpa um motel, uma menina que desenha o irmão. Personagens variados que têm um ponto em comum: a busca pelo sexo como forma de esquecer a solidão e abafar o vazio da existência em um mundo mecanizado. Essas perversões e vícios são descritos de forma fina, em textos breves e repletos de referências artísticas. A atmosfera densa que une os encontros casuais revela pessoas que procuram curar suas insatisfações e vivem apenas o choque entre corpos.

 

 

 

 

Viagem a Calabria VIAGEM À CALÁBRIA, de Sergio Capparelli (Record)

Recheado de lembranças, Viagem à Calábria encanta com um narrador-personagem em busca de suas origens. A viagem para a Itália em busca do irmão representa muito mais que a volta a suas origens, representa mais que visitar o lugar que seu pai tanto queria voltar, representa uma tentativa de entender por que o irmão teria revelado à polícia, logo após o golpe de 64, o local onde o pai, procurado, e ele se escondiam. O livro nos fala das mudanças que vieram com a construção da nova capital e os novos rumos do cerrado. Mas fala também das mudanças emocionais desse protagonista, da raiva transformada em arrependimento, capaz de restabelecer sua relação com o irmão Zuddio, fundamental para o desenrolar surpreendente da história.

 

A camisa do marido OK
A CAMISA DO MARIDO
, de Nélida Piñon (Record)

Autora de mais de 20 livros em cinco décadas dedicadas à literatura, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, onde ocupa hoje a cadeira de número 30, e vencedora de uma série de láureas nacionais e internacionais, Nélida Piñon volta aos contos em uma coletânea inédita que aborda a complexidade das relações e dos sentimentos em torno do núcleo familiar.

Os nove contos de A camisa do marido apresentam a autora no auge de seu domínio da forma narrativa e da escrita elegante e alusiva. Nélida descreve de maneira fascinante as sombras e os meandros de relações familiares, enfrentamentos brutais, secretos ou abertos que espreitam em cada lar. O rapaz atraído pela nova mulher do pai, o filho desprezado, o velho poeta desiludido e a jovem simples que nada entende do cavaleiro delirante nos assaltam e seduzem. A camisa do marido é uma pequena pérola de uma de nossas mais brilhantes escritoras.

 

 

 

 

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