Dica de leitura

“À procura de Audrey” e “A fofa do terceiro andar”

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Sophie Kinsella (c) John SwannellPor Thaís Britto e Cláudia Lamego

Famosa por suas comédias românticas para adultos, Sophie Kinsella faz sua primeira incursão pelo universo jovem em À procura de Audrey, da Galera Record. A trama acompanha a jornada recuperação de Audrey, uma menina de 14 anos que, depois de sofrer com o bullying na escola, atravessa um período difícil com transtorno de ansiedade e depressão. A protagonista não consegue sair de casa, não tira os óculos escuros e não convive com mais ninguém além do pai, da mãe e dos irmãos Frank e Felix. A rotina começa a mudar quando ela conhece Linus, amigo de Frank.

A autora trata o assunto sério e complicado com a doçura e a sensibilidade necessárias, despertando emoção sem, no entanto, ser piegas. Ao mesmo tempo, não abandona seu já característico humor sutil e irônico – ela não nega a origem britânica. Audrey sofre, mas tem a esperteza quase arrogante dos adolescentes, e sua família é uma fonte inesgotável de piadas. A mãe, apavorada com a possibilidade de o filho mais velho estar viciado em videogames; o pai meio bobão que segue a corrente para não se aborrecer; o irmãozinho de 4 anos e sua visão inocente de toda aquela bagunça… Além disso, sua relação com Linus não deixa de ser mais uma clássica descrição da descoberta do primeiro amor, mas ganha um sopro de novidade com os elementos usados pela autora.

Sophie Kinsella é uma grande escritora, e quem tem preconceito com os chick lits deveria olhar com mais atenção. Seu texto preciso, sua crônica de costumes inteligente, a sensibilidade e o humor certeiro fazem de À procura de Audrey uma bela estreia no mundo dos young adults. Leia alguns trechos do livro:

“Então você já sabe.
Bom, não acho que saiba – mas supõe. Para acabar com o tormento, eis o diagnóstico completo. Transtorno de ansiedade social, transtorno de ansiedade generalizada e episódios depressivos.
Episódios. Como se a depressão fosse um seriado de comédia, sempre com uma tirada hilária. Ou uma série de TV cheia de suspense e finais abertos. O único suspense em minha vida é: “será que um dia vou conseguir me livrar dessa merda?”, e, pode acreditar, fica bem monótono.”

“Contato visual é uma grande questão. A maior. Apenas a ideia me deixa enjoada. Até o fundo da alma.
Sei racionalmente que olhos não são assustadores. São pequenos globos gelatinosos inofensivos. São tipo uma fração minúscula de toda a superfície do nosso corpo. Todos nós os temos. Então por que deveriam me incomodar? Mas tive muito tempo para pensar nisso e, se quer saber, a maioria das pessoas subestima os olhos. Para começo de conversa, são poderosos. Têm grande alcance. Você os foca em alguém a 30 metros de distância, em meio a um mar de gente, e a pessoa sabe que está sendo observada. Que outra parte da anatomia humana é capaz de fazer isso? É praticamente o mesmo que ser um médium, é isso.”

“Os pais têm esse dom de fazer perguntas realmente idiotas e óbvias.
Vai sair com essa saia?
Não, meu plano é tirá-la assim que tiver saído pela porta.
Acha isso uma boa ideia?
Não, acho que é uma ideia horrível, por isso vou seguir em frente com ela.
Está me escutando?
Sua voz atingiu a marca dos 100 decibéis, não há como evitar.”

“Polishop é o canal mais apaziguador que conheço. Há três pessoas em um estúdio, e todos acham que o hidratante é ótimo. Ninguém discute, tampouco levanta a voz. Ninguém descobre que está grávida nem é assassinado. E não há risos do auditório – que, pode acreditar, podem soar como uma furadeira em minha cabeça.”

cleo busatto

Já Cléo Busatto é um nome conhecido na literatura infantojuvenil. E em A fofa do terceiro andar, da Galera Júnior, decidiu se embrenhar pelo mundo adolescente. Em uma narrativa que se assemelha a uma conversa íntima, nos apresenta o diário de Ana, uma jovem perdida em meio a relacionamentos, problemas de autoestima e bullying. Nas mãos da autora, a personagem redescobre o mundo à sua volta, livrando-se de excessos e preconceitos – e faz o leitor se identificar com as dúvidas, a coragem e os desafios tão marcantes desta fase da vida.

Na história, Ana foi uma criança alegre e brincalhona, mas passou a sofrer na adolescência quando se descobriu gorda e desajeitada com os esportes. Depois de enfrentar o bullying dos colegas, começa a escrever um diário, numa jornada de autoconhecimento e reconhecimento do mundo. Quando conhece o menino Francisco, sua vida muda. Em meio à descoberta do amor, do enfrentamento da morte e dos desafios de fazer dieta, estudar e se aceitar como é, Ana cresce e amadurece. Leia trechos:

“Primeira sexta-feira de agosto, três horas da tarde. Ano 14. Esta Ana que agora lhe escreve se despede dela própria. Quem irá acordar amanhã será outra pessoa, não sei quem, mas com certeza não será essa que agora se vai.”

“À medida que escrevo, sinto outra vez aquela raiva que senti durante o tombo. Ela rasgou meu peito, que, de tanto doer, se partiu. Eu, a fofa do terceiro andar, largada no piso da cantina, com todos os olhares voltados para mim. Eu via tudo em câmera lenta: os risos, cochichos. Como num filme de horror.” 

“O que senti e vivi naqueles anos cinza, dos 11 aos 14 anos, causou uma forte impressão no meu ser. Dessas experiências, guardei a parte boa que fez com que eu me tornasse uma pessoa mais consciente. Descobri, dentro de mim, uma maneira de viver bem e feliz sendo como sou, e isso me agrada bastante.”

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