Entrevistas

“Rebentar”, de Rafael Gallo

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Por Manoela Sawitzki

Rafael GalloO escritor paulistano Rafael Gallo foi revelado em 2012 pelo prêmio Sesc, com o livro de contos Réveillon e outros dias. Agora, em seu primeiro romance, Rebentar, ele investe em tempos mais longos, como é longa a espera da protagonista desta história dolorosa e comovente.

Ângela é uma mãe que espera pelo filho desaparecido há três décadas e precisa se lançar em outro desafio. Com uma escrita poética e segura, Gallo fala do universo real, o combate incessante de muitas mães, e da cartografia emocional de suas buscas.

   

 O romance me deu essa oportunidade de explorar mais o tempo, e também os detalhes, de me deter sobre certos elementos que no conto não caberiam todos, em termos de dimensões.

Seu primeiro livro, a reunião de contos Réveillon e outros dias, venceu o prêmio Sesc de Literatura 2011/12. Rebentar foi realmente a primeira narrativa longa que escreveu? Algo ficou pra trás, na gaveta?

Foi a primeira narrativa longa em que comecei a trabalhar de fato, pouco depois de ter lançado o Réveillon. Eu tinha a ideia de um outro romance inicialmente, o qual estou escrevendo agora, mas o Rebentar, quando a história ficou mais clara em minha cabeça, tornou-se mais urgente.

Você pode falar sobre seu trânsito entre conto e romance? Há aquela frase célebre do Cortázar, “O romance vence por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute”…

Eu demorei um pouco para me acostumar à escrita de um romance. É como se você estivesse acostumado a desenhar em uma folha de papel, e de repente tivesse que pintar um painel com vários metros de largura e altura. Você fica com aquela sensação de que não sabe exatamente que tamanho tem de ter cada gesto, até onde cada ação sua deve ir. As trajetórias dos personagens começam a se estender até se perder de vista, foi estranho no começo. Mas o que vale mesmo é o que a história pede, isso é o que manda, para mim. No caso de Rebentar, que inclusive pensei como um conto a princípio, logo ficou claro que ele deveria ser um romance, por conta do longo processo de desapego da mãe, do luto e de tantos elementos que precisavam ser abordados com calma, não dava para apressá-los. O tempo ali é muito importante, é preciso senti-lo, é preciso pesá-lo. O romance me deu essa oportunidade de explorar mais o tempo, e também os detalhes, de me deter sobre certos elementos que no conto não caberiam todos, em termos de dimensões. Lembro-me exatamente do dia em que senti pela primeira vez um conforto maior por escrever o romance. Foi quando estava escrevendo a cena em que Ângela para diante dos porta-retratos da sala e repara em cada um deles. Pensei: “Puxa, é bom poder me deter nesse pequeno detalhe da casa, que é tão significativo. Bom saber que não preciso escolher entre esse ou outro elemento, que depois posso falar bastante também do quarto do filho, do portão adaptado, da fachada restaurada e tudo mais”. Se fosse um conto, eu provavelmente teria de escolher apenas um elemento, o mais significativo, e focar nele. O que também pode ser a melhor abordagem em certas histórias.

Que lugares a escrita e a leitura ocuparam em sua vida antes de ser “lançado” oficialmente como escritor pelo prêmio e a primeira publicação por uma grande editora?

Desde pequeno, eu sempre fui muito ligado em atividades criativas. Meu foco foi mudando, mas de uma forma ou de outra, sempre escrevi e sempre gostei de histórias. Quando era criança, adorava desenhar, criava minhas próprias histórias em quadrinhos, meus personagens, e consumia muito dessas revistinhas, de brinquedos dessa linha ou jogos de videogame. Era muito ligado em histórias e personagens. Quando cheguei na adolescência, acabei enveredando pela música e também compunha minhas coisas, escrevia minhas letras, tentando fazer algo especial, como os letristas que eu admirava. E tinha também, claro, os poeminhas de adolescente que eu escrevia, aquela coisa de “todo mundo é tão medíocre, eu sou o único que tem sentimentos verdadeiros”, sabe? (risos). Conforme fui crescendo, me aproximei mais da literatura e comecei a ler muito. Como sempre gostei de criar e sempre fui metido a fazer o que gostava, terminei por escrever alguns contos, a me dedicar também à literatura mais séria. Depois de me exercitar nessa lida, escrevi os contos de Réveillon e outros dias, que felizmente venceu o Prêmio Sesc de Literatura e foi publicado pela Record. Foi exatamente nesse momento em que comecei a pensar em mim mesmo como escritor.

Pensar em si como escritor mudou muito o seu processo? Se sim, de que formas?

Mudou completamente. Sempre que a gente assume um papel de maneira profunda, assume uma identidade, acaba entrando em uma postura muito diferente. É como a diferença entre um cara que só quer jogar um futebolzinho para se divertir e entra em campo com esse sentimento, e um que entra em campo para a final da Copa do mundo, sentindo que aquilo é a coisa mais importante para ele. Muda toda a sua calibragem. Com Rebentar, isso foi muito profundo, foi uma experiência completamente diferente de escrita. Poder me assumir escritor, ter esse “background” do Prêmio Sesc, da Record e de tudo o que vivi, me colocou em outro patamar de relação com a escrita. Eu não teria conseguido me entregar tanto à escrita de uma história, como aconteceu com esse romance, em uma situação diferente.

Rebentar trata de um tema bastante difícil, a espera de uma mãe pelo filho desaparecido. No caso de Ângela, a protagonista do romance, uma espera dolorosa e paralisante de três décadas.  Lançar-se na escrita de um romance costuma ser um processo demorado, por vezes penoso. O que te levou a trabalhar esse tema, algo que não faz parte da experiência pessoal, logo na estreia como romancista?

Eu sempre acabo buscando histórias que acho muito significativas. Como você falou, um romance leva muito tempo para ser escrito, é um processo penoso e leva muito tempo inclusive para ser lido. Eu acho que, no mínimo, a história contada tem de valer por todo esse esforço, meu e do leitor. Um romance, para mim, tem que ser algo como: “Vem cá, precisamos falar sobre isso, é algo importante”. Acho que simplesmente escrever sobre o que é confortável para mim, o que já está no meu umbigo, é algo que não vale a pena. Acho que precisamos de histórias mais significativas.

O romance faz um mapeamento afetivo bastante sensível e detalhado dessa mãe que espera, procura (e decide desistir, abrir mão da espera). É um aspecto importante da sua escrita, o detalhamento da paisagem emocional da personagem. Como foi seu processo de investigação para chegar a ela – assim tão profundamente em Ângela?

Você tem razão, essa paisagem emocional (adorei o termo) sempre foi um dos elementos mais importantes da minha escrita, acho. Os personagens são meu ponto de partida e são sempre meu norte. Minha cabeça funciona assim, em cada situação do livro eu primeiro me pergunto: como isso a afeta? E escrevo a partir daí. Com Ângela, por exemplo, eu comecei a imaginá-la nas situações mais difíceis primeiro, para “sentir” como seriam suas reações a esses momentos. Isso ajuda muito, cozinhar a personagem na pressão (risos). Os principais desafios, mais do que ter uma protagonista mulher, de idade mais avançada e mãe, foram relativos ao fato de ela ter um filho desaparecido, universo que eu desconhecia quase por completo. Nesse sentido, foram muito importantes as pesquisas, com minha leitura de textos relativos a pais e mães de filhos desaparecidos e as entrevistas que fiz com mães que passaram por isso, bem como com as profissionais que trabalham com essas famílias. Conhecer essa realidade mais de perto foi fundamental, foi algo que me fez ter um respeito muito maior por cada detalhe da vida de pessoas cujos filhos desapareceram.

Há menções a três grupos de mães que se organizam para buscar filhos desaparecidos nos agradecimentos do livro. Qual foi sua relação com eles, como se deu o contato com mães que os compõem?

Na verdade, são duas ONGs para famílias que buscam seus desaparecidos, a Mães em Luta e Mães da Sé, ambas lideradas por mães cujos filhos desapareceram e que decidiram organizar uma associação para tentar novas medidas de busca, novas leis e outras iniciativas que possam ajudar as famílias que se cadastram nelas. Eles produzem materiais, como alguns dos citados no livro, fazem manifestações, divulgam as fotos dos desaparecidos, etc. O Projeto Caminho de Volta é um pouco diferente, é um projeto da USP, que trabalha com banco de DNA para comparação, oferece auxílio psicológico e produz materiais na área de ensino e pesquisa sobre o tema. Em todo caso, são associações envolvidas com famílias que tiveram pessoas desaparecidas, especialmente crianças e adolescentes. Eu não conhecia diretamente o trabalho de nenhum desses grupos, mas os encontrei pela internet e entrei em contato para conversar com algumas das mães cujos filhos desapareceram ou com psicólogas que trabalhavam nessas instituições. Eu queria conhecer mais de perto o universo dessas mães e foi uma experiência que mexeu muito comigo.

Você fala de grupos liderados por mães. Um aspecto chama atenção no livro: o protagonismo absoluto de Ângela. Mesmo que o pai tenha um papel importante no enredo, a mãe parece ser o centro da espera, o lugar onde a dor e a ausência mais se concentram. Penso também nas Madres de Plaza de Mayo, na Argentina, nas Mães de Maio no Brasil, mães que lutaram e lutam por justiça aos filhos desaparecidos ou exterminados por diferentes formas de violência (de Estado ou não). São quase sempre elas que mais tomam a frente nessas lutas?

Exatamente. E quando eu fui às associações para pessoas desaparecidas que pesquisei, vi o mesmo: as líderes e fundadoras são mulheres, as pessoas que trabalham ali são mulheres, as psicólogas são mulheres. Os próprios nomes de todas essas associações, inclusive as que você citou, referem-se somente às mães. Eu não quero entrar em “achismos”, e não sou especialista para dizer isso, mas creio que há uma parcela da questão que é fisiológica (pela gestação, parto, amamentação, variação de hormônios, etc.) e uma parcela que vem de como a cultura se organiza. A educação das mulheres, em geral, reforça muito que elas cresçam não somente mais apegadas à família, especialmente aos filhos, mas também tenham uma conexão muito mais profunda e complexa com os relacionamentos em geral, os elos afetivos, e os esforços que eles demandam. Eu acho que parte disso é fisiológico, mas grande parte também é cultural. Não é uma ideia com a qual deveríamos nos acostumar por completo, porque cria muitas desigualdades entre os gêneros e faz com que homens fiquem em uma situação mais cômoda, o que, em geral, significa também uma situação mais pobre afetivamente. Eu quis trazer um pouco dessas questões para o livro, de como as mulheres, muitas vezes, acabam sendo as que têm mais demandas, mais prejuízos emocionais, e, ao mesmo tempo, acabam por ser as que mais lutam, as que mais sentem o quanto aquilo importa. Além de Ângela, a protagonista, todas as outras personagens mais ativas do livro são mulheres: Isa, Suzana, Dora, etc. É um livro muito centrado nelas, em suas questões e em sua força. É uma história bastante ligada ao feminino.

É possível apontar para uma relação entre a duração da espera de Ângela e o esgarçamento dos tempos da narrativa?

Sim, o tempo é um dos temas centrais do livro. Por isso, ele é mencionado diretamente muitas vezes e os capítulos foram divididos e nomeados conforme cada mês. Eu gosto demais da frase que usei na epígrafe, em que o Jorge Luís Borges diz: “O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo”. Eu acho que essa frase retrata muito do que busquei com o livro, dessa relação de Ângela com o tempo, como ela o sente. O tempo é urgente quando Felipe desaparece, o tempo faz com que o filho, três décadas depois, tenha se perdido de forma irrecuperável, o tempo a destroça e também serve à sua recuperação. Por isso também procurei trabalhar com o tempo de formas distintas no decorrer da história: deixar o ritmo mais lento no começo, enquanto a mulher está mais presa ao passado, ao filho e os detalhes relativos a ele. Depois o ritmo se acelera um pouco, conforme ela reorganiza seu mundo, faz de sua vida algo mais dinâmico. Aliás, fevereiro, que é o mês mais curto cronologicamente, é o capítulo mais extenso do livro, quando acontecem mais eventos. Isso tudo foi uma forma de se lidar com essa elasticidade do tempo, com sua percepção relativa.

Nas suas pesquisas, você se deparou com situações casos semelhantes ao de Ângela, com mães que desistiram de esperar?

Pelo que ouvi falar, não é nada comum isso. Mesmo as que perderam seus filhos há muitos anos costumam continuar buscando, esperando, desejando ao menos saber o que aconteceu. Para algumas, é quase como se o tempo não fizesse diferença, como se ele não passasse. Mas teve uma das mães com quem tive uma longa conversa, e como me senti mais à vontade, perguntei se ela sabia de algum caso em que a mãe decidira dar fim às buscas. Ela me contou que sim, havia uma mulher, conhecida sua, que depois de muitos anos decidira fazer isso. Eu pensei, por um momento, em procura-la, mas aconteceu algo curioso: pensei logo na minha personagem, Ângela, e que com sua decisão ela preferia não mais fazer parte desse universo, não ser mais contatada pela associação. Imaginei que alguém como essa mulher ou minha personagem, provavelmente, preferiria que não a procurassem para retomar o assunto, e respeitei isso, não a procurei. Acho que muito da força da literatura, ou das histórias em geral, está nisso: a gente aprender um pouco mais a compreender e respeitar o espaço de quem é diferente da gente, de quem vive algo que só podemos imaginar. Isso serve para o leitor, mas também, nesse caso, serviu para o escritor.

 

 

 

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