Palavra de editora

“Memória da água” e a relação entre ficção e realidade

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A crise hídrica que vem sendo enfrentada pelo Brasil desde o ano passado deixou cidades sem água e incentivou a população a adquirir novos hábitos de consumo. Com a aproximação da estação mais quente, o assunto volta à tona no país, seja em notícias de que aplicativos estão sendo criados para mapear a falta d’água ou nas críticas que surgiram  na internet ao prêmio de gestão hídrica que será entregue ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. É neste contexto que se destaca o livro “Memória da água”, um dos grandes lançamentos da Galera Record em 2015. A editora Ana Lima conta um pouco mais sobre a obra da finlandesa  Emmi Itaranta neste texto, e diz: foi um  dos melhores livros que passou pela sua  mesa em quase dez anos de edição.

 

“A tênue linha que separa ficção da realidade impressiona em Memória da água. Um mundo sem água potável, que então ganha novos contornos políticos até uma nova ordem ser estabelecida. A China tem água e domina a Europa, mais especificamente a Escandinávia, onde acompanhamos a história da jovem Noria. Hordas de soldados chineses controlam o consumo hídrico da população, e têm a missão de procurar e reportar qualquer indício de água potável que ainda não esteja sob o controle das autoridades.

A narrativa flui como a água, nos envolve e faz pensar o quão distante aquela realidade está. Não muito, hoje… Logo descobrimos que Noria terá de assumir as funções do pai, o mestre do chá do vilarejo onde moram, e uma espécie de conselheiro local. Mas não é tudo; o pai guarda um segredo que seguirá com a jovem: há gerações a família é responsável por uma nascente e cabe a Noria agora se responsabilizar por ela.

Em se tratando de futuro apocalíptico, tudo parece dar errado até quando poderia dar certo. O segredo da família não seguirá sendo herança quando Noria percebe que lhe foi concedido um poder: salvar vidas, amenizar a dor, ser solidária. É quando este intenso romance se transforma. Não apenas ficção cientifica. Ou distopia. Mas uma espécie de reflexão sobre a esperança. Sobre quem somos e quem podemos ser. Até onde vai o nosso compromisso com o outro. Nossa empatia com quem está sofrendo e precisa de ajuda. E o que acontece quando podemos de fato ajudar? Viramos as costas? Nos voltamos para os nossos próprios problemas? Não aqui. Não Noria. E isso tem um preço.

Celebrado pelo Guardian como melhor livro de ficção científica de 2014, Memória da água, da finlandesa Emmi Itaranta, teve inúmeras resenhas elogiosas na imprensa nórdica, norte-americana e britânica e esteve entre os finalistas do Philip K. Dick Award. Não à toa, seus direitos de publicação foram vendidos para 18 países. Certamente foi um dos melhores livros que passou pela minha mesa em quase dez anos de edição. Daqueles que você não vai esquecer. Que fazem pensar. Não só num futuro que pode ser muito difícil, mas no presente e na responsabilidade que temos com o ecossistema e com os nossos semelhantes.

Espero que gostem!

Ana Lima”

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