Entrevistas

“Cowboys do asfalto”, de Gustavo Alonso

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Por Christina Fuscaldo

Será que os fãs do atual sertanejo se recordam de que Zezé Di Camargo & Luciano acusavam os sertanejos universitários de “repetentes” lá por volta de 2008? Muitos atribuem o sucesso da música sertaneja à TV Globo, mas alguém se lembra de que a dupla Chitãozinho & Xororó vendeu 1 milhão de discos em 1982 sem aparecer na emissora? E de que Caetano Veloso produziu e interpretou a trilha sonora de “2 filhos de Francisco”? Alguém por acaso sabe por que Michel Teló só fez o primeiro show no Rio de Janeiro depois do sucesso mundial de “Ai se eu te pego”? Essas são só algumas das questões, histórias e polêmicas abordadas em Cowboys do asfalto – Música sertaneja e modernização brasileira (Civilização Brasileira), livro que Gustavo Alonso lança na próxima segunda-feira, dia 28/09, às 19h30, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC (Rua Dr. Plínio Barreto, 285. Bela Vista, SP). Leia abaixo a entrevista com o autor.

RETRATO DO ESCRITOR GUSTAVO ALONSO NA ORLA DO LAGO GUAÍBA, PORTO ALEGRE, RS, BRASIL (LEO CAOBELLI / DIVULGAÇAO)

O que te instigou a estudar a música sertaneja?

O que me instigou a estudar a música sertaneja foi o sucesso do sertanejo universitário em todo o Brasil lá pelos idos de 2007-8. O fenômeno havia começado por volta de 2005 e, naquela época, fazia muito sucesso o disco “Ao vivo em Uberlândia”, de Victor & Leo. Havia também os sucessos de João Bosco & Vinícius, Jorge & Mateus e Cesar Menotti & Fabiano. Luan Santana explodiu logo depois. Como muitos brasileiros, eu tomei conhecimento do sertanejo universitário através das redes sociais e do Youtube. Na época eu morava na França e alguns amigos oriundos do interior do Brasil que moravam comigo na mesma residência universitária me mostraram aquelas canções que estouravam no país trazendo uma nova geração ao sucesso nacional. Eu, que já havia escrito um livro sobre música brasileira, espantei-me de conhecer pouco aquela realidade. Passei a refletir sobre aquele fenômeno e pensar num possível livro. De lá pra cá, foram oito anos de muito trabalho e dedicação a um tema complexo, incompreendido pelo próprio Brasil.

No que Paris te influenciou?

Paris foi fundamental na minha formação como doutor em História. Não apenas pela educação formal que lá tive, mas, sobretudo, porque pude desenvolver um olhar estrangeiro para minha própria terra e perceber questões ricas e complexas, como a música sertaneja, um tema tão interessante que foi sistematicamente ignorado pela academia, pelos jornalistas, por nossos escritores em geral.

Como você via a música sertaneja antes de mergulhar a fundo na história do estilo e como passou a ver depois de seus estudos?

Inicialmente, eu pensei em pesquisar a música sertaneja porque via questões semelhantes com o debate que a Jovem Guarda enfrentou nos anos 1960. A Jovem Guarda foi um gênero que modernizou a música nacional e trouxe vários nomes importantes para a música brasileira. Os críticos diziam que Roberto Carlos e companhia estavam deturpando a música nacional. A MPB da época realizou até uma passeata contra a guitarra elétrica em 1967, da qual participaram Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Juca Chaves, dentre outros. A radical MPB acusava a Jovem Guarda de ser “alienada” perante a ditadura. Dizia-se, na época, que o gênero morreria no ano seguinte. Obviamente não foi o que aconteceu. Os críticos nunca conseguiram entender de fato o fenômeno Jovem Guarda e acredito que até hoje perdure certa ignorância sobre o seu real significado. O sertanejo padecia do mesmo mal. Nos anos 1990, dizia-se que o sertanejo era “falsificador” das raízes rurais brasileiras. Grande parte dos artistas da MPB e do rock dos anos 1980 o chamava de “breganejo” e “sertanojo”. E ainda havia a acusação de que supostamente os sertanejos eram conservadores e que teriam apoiado a eleição e o mandato de Fernando Collor de Mello. Eu quis averiguar se essas acusações se sustentavam. Claro que descobri um mundo enorme do qual eu mesmo tinha pouca noção, muito mais rico e paradoxal do que supunham os críticos.

Quais você acha que serão as grandes descobertas para o leitor que não conhece a fundo a música caipira e a sertaneja?

Acho que qualquer leitor ganhará em perspectiva musical. Meu livro não é apenas sobre música sertaneja. É sobre a música brasileira. Claro que a ênfase e o eixo explicativo é a música sertaneja. Mas em Cowboys do asfalto falo muito sobre tropicalismo, muito sobre samba, muito sobre MPB, muito sobre o rock dos anos 1980, muito sobre Jovem Guarda, enfim… Trata-se de uma obra que visa não apenas aprofundar nosso conhecimento sobre a música sertaneja, mas sobre a música brasileira como um todo.

Queria que você fizesse um breve resumo da relação dos artistas sertanejos com a política no Brasil, que está no livro e traz muitos elementos desconhecidos para quem não conhece a história em detalhes. Gostaria também que fizesse um resumo sobre a relação dos sertanejos com estilos de música estrangeiros, falando como isso os afastou dos defensores da música caipira.

Dos anos 1950 até os anos 1990 havia uma oposição radical entre caipiras e sertanejos. Sertanejos eram aqueles artistas, produtores, empresários, radialistas, músicos etc que desejavam a modernização da música do interior através da importação de ritmos e gêneros estrangeiros. Os sertanejos se contrapunham aos caipiras, que rejeitavam qualquer mudança na estética da música rural. Os caipiras renegavam os novos instrumentos trazidos pelos sertanejos e sua poética melodramática. Criticavam os sertanejos por estes terem “esquecido” suas próprias raízes e abandonado instrumentos tradicionais, como a viola caipira. Estes dois campos estéticos foram se distanciando cada vez mais ao longo dos anos, especialmente a partir da radicalidade modernizadora dos sertanejos que, depois de incorporar o bolero, a guarânia e o chamamé nos anos 1950, incorporou também o rock nas décadas seguintes.

Uma parte da esquerda se associou aos caipiras e atacou os sertanejos, pois viam estes como adeptos do “imperialismo” cultural, um tema muito comum nos discursos das esquerdas nacionalistas do século passado. De forma que, por questões estéticas mais do que políticas, os sertanejos foram acusados de “reacionários”, “conservadores”, “de direita”. Assim, como defensores das “raízes nacionais”, os caipiras foram incorporados pelas esquerdas. Expressão dessa polarização foi o programa “Som Brasil”, apresentado pelo Rolando Boldrin na TV Globo nas manhãs de domingo nos anos 80. Louvado pela crítica de esquerda, Boldrin rejeitava qualquer artista sertanejo e proibia expressamente a guitarra em seu programa. Afinado ao folclorismo de esquerda, Boldrin dizia que “é preciso tirar o Brasil da gaveta”.  É claro que este debate binário era muito simplista e mostro isso com todas as letras em Cowboys do asfalto.  Os sertanejos também cantaram protestos, que podem ser lidos, à esquerda. E houve o caso de caipiras, como Tonico & Tinoco, que cantaram temas de apoio a ditadura militar. Então, a questão não é simples. Mas, devido ao simplismo do debate, ficou parecendo que os sertanejos eram “alienados” e que não refletiam sua época. Esse veredicto, óbvio, por seu próprio simplismo, está incorreto e “Cowboys do asfalto” coloca os pingos nos is.

Fale sobre a relação dos sertanejos com outros artistas brasileiros (os bregas, os tropicalistas, os da MPB, os roqueiros).

O livro trata de vários outros gêneros musicais importantes da música brasileira. Mostro como Os Mutantes tocaram com Tonico & Tinoco sob a batuta do maestro tropicalista Rogério Duprat, em 1970. Na época, o tropicalista Duprat achava que era possível avançar o tropicalismo a partir da incorporação da música sertaneja, dando prosseguimento às investidas de Caetano e Gil em relação à música popular. Outro ganho do livro é que ele mostra como Geraldo Vandré incorporou a viola caipira em sua obra. Mostro também como artistas da MPB como Sá, Rodrix & Guarabira criaram o que ficou conhecido como rock rural nos anos 1970, cuja canção mais famosa era “Casa no campo”, também gravada por Elis Regina. Além disso, o livro mostra como os bregas dos anos 1980, especialmente Gilliard, Joanna e especialmente Amado Batista, foram importantes para as carreiras dos sertanejos, que copiaram o estilo e poética destes artistas, sobretudo Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo. Outra contribuição de peso do livro é explicar o flerte de artistas da MPB com a música sertaneja ainda nos anos 80, antes portanto de esta se nacionalizar. Neste momento destacaram-se Jair Rodrigues e Fafá de Belém, que gravaram com Chitãozinho & Xororó, Roberta Miranda e Zezé Di Camargo. Fafá aliás foi importantíssima para que Zezé gravasse seu primeiro disco. Mostro também que artistas do rock Brasil se opuseram frontalmente à música sertaneja na virada dos anos 1980 para os 1990 porque perderam mercado para os artistas do sertão. Esse são os ganhos de um livro que não restringe seu estudo a uma lupa fechada, mas procura relacionar todo o campo musical nacional. Afinal todos estes gêneros conviveram no mesmo país, conflitando e se aproximando segundo o contexto de cada época.

Como a mídia viu e vê a música sertaneja no Brasil?

A relação da mídia mudou muito ao longo do tempo, especialmente se pensarmos a grande mídia do Sudeste. Até o fim dos anos 80, a grande mídia praticamente ignorou a música sertaneja. Quando aconteceu a nacionalização do gênero, grande parte da mídia se esmerou em qualificar o gênero de “breganejo”, acusando os artistas de pobreza estética. Praticamente ninguém na grande mídia buscou compreender o fenômeno sertanejo naquele momento e preferiu-se cair na crítica acusatória que seus leitores de classe média urbana faziam. Isso se deve ao fato de que a grande mídia era feita sobretudo nas capitais, por pessoas de classe média que nada tinham a ver com aquela realidade do sertanejos. Todos artistas sertanejos eram, como seu público, migrantes, de origem proletária. Na virada dos anos 90, o sertanejo repetiu o fenômeno que o samba havia vivido no início do século XX: sendo produto das classes baixas, conseguiu ser incorporado por parte das classes médias e altas. Com o passar dos anos e a longevidade do sucesso dos sertanejos, uma parte da crítica gradualmente foi se acomodando, suavizando as críticas. Mas a cada sucesso mais expressivo, como foi o caso de “Ai se eu te pego” em 2012, este tom crítico volta a tona com toda a força. A hegemonia cultural sertaneja no Brasil gerou entre os críticos aceitação apenas parcial, e por isso a batalha continua. Meu livro busca não apenas mapear este debate através de um olhar cuidadoso para este fenômeno complexo, mas também mostrar que a música sertaneja não aceita nem simplismos ufanistas nem críticas banais.

Qual é a relação da música sertaneja com a modernização brasileira?

A música sertaneja cantou a urbanização do Brasil. Cantou as mudanças no campo. Por exemplo: um dos clássicos da música sertaneja é “Saudade da minha terra”, gravada por Belmonte & Amaraí em 1967, justo quando o milagre da ditadura mudava o campo e a cidade no Brasil, trazendo os problemas da urbanização acelerada, da migração campo-cidade, do inchaço das metrópoles. Os sertanejos, então, cantaram, desiludidos: “De que me adianta, viver na cidade/ Se a felicidade não me acompanhar/ Adeus paulistinha, do meu coração/ lá pro meu sertão eu quero voltar”. Outras canções sertanejas cantaram a vida dura do proletariado urbano, do camponês sofrido do interior. Ao mesmo tempo que cantavam amores melodramáticos, os sertanejos também cantaram as questões do país, a vida dos explorados, a dificuldade cotidiana. Entusiasmaram-se com os direitos sociais obtidos durante a ditadura. Se empolgaram com a redemocratização e com as Diretas Já. Cantaram a realidade da criança abandonada, dos camponeses sem terra, do proletário sem habitação, e a vida sofrida das prostitutas. Todas estas canções sociais são abordadas no livro.

Como se deu a influência da música sertaneja no mercado cultural brasileiro e como é a relação hoje em dia?

É importante que se quebre um mito que existe sobre a indústria cultural brasileira. A música sertaneja não foi mera invenção da indústria fonográfica dos anos 90, como se dizia na época. Desde os anos 1950 os sertanejos estavam dialogando com outros gêneros, ampliando o público, aumentando sua gama instrumental, ganhando mais público. De gênero regional, oriundo das regiões de colonização histórica paulista, o sertanejo tornou-se nacional por efeito de muitas batalhas e não apenas por vontade da “indústria cultural”. Aliás, mostro no livro como a grande indústria fonográfica evitou se envolver no mercado sertanejo. Quando finalmente o fez, cometeu deslizes, pois não tinha experiência no gênero. Dito isto, é importante apontar também que a longevidade do sucesso sertanejo foi fundamental para o reerguimento da indústria fonográfica brasileira nos anos 90, que veio da década anterior bastante solapada. E foi fundamental para a mudança da plataforma LP para o CD. Mas não se pode, repito, resumir a música sertaneja a uma vontade da indústria fonográfica. A música sertaneja conseguiu criar uma identidade que está para além da indústria, por mais que seja difícil hoje ver um distante do outro. Mas não é preciso ir muito longe. Basta lembrar que o hoje famoso sertanejo universitário se tornou nacionalmente conhecido a partir de 2005 não por causa da indústria fonográfica, mas devido a internet. Todos os primeiros artistas do gênero, de Victor & Leo a Cesar Menotti & Fabiano, de João Bosco & Vinícius e Jorge & Mateus a Luan Santana, devem seu sucesso a divulgação capilar de gravações independentes que se disseminaram digitalmente por todo o país inicialmente sem o auxílio das grandes gravadoras.

Quais nomes o leitor encontrará em Cowboys do asfalto? Qual foi seu critério para a inclusão desses nomes no livro?

Todos os sertanejos e caipiras que tiveram algum registro fonográfico ou que tiveram alguma relevância documentada foram abordados em meu livro. De várias gerações. O livro faz um painel desde meados do século XX até os anos 2000. Analiso o desenvolvimento da música sertaneja desde 1953, quando foi gravado o primeiro sucesso sertanejo – a canção “Índia” – , até 2012, quando foi aconteceu a repercussão mundial de “Ai se eu te pego”. De Tonico & Tinoco a Michel Teló, de Inezita Barroso a Milionário & José Rico, de Sérgio Reis a Almir Sater, de Luan Santana a Chitãozinho & Xororó, de Rolando Boldrin a Paula Fernandes. Ninguém ficou de fora. Em paralelo, há as histórias de artistas da MPB, do rock dos anos 80, da bossa nova e da tropicália que flertaram com a música sertaneja. O livro denuncia uma lacuna vergonhosa de nossos escritores, que nunca se debruçaram verdadeiramente sobre o tema. É um livro para se repensar a música, a industrialização, a modernização e urbanização brasileira dos últimos 60 anos de forma profunda.

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