Quentinho da gráfica

Samba e amor nesta sexta-feira

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Capa Dicionário da história social do samba DS.aiNo mundo do samba, você sabe o que significa “lençol”? E “boi com abóbora”? Leia abaixo alguns verbetes curiosos pinçados do Dicionário da história social do samba, de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, obra que já nasce como referência e leitura obrigatória para entender a cultura brasileira. E, para provar que São Paulo não é o túmulo do samba, como afirmou o Poetinha Vinicius de Moraes, o último verbete do post é sobre a cidade que nos deu Adoniran, Paulo Vanzolini e Eduardo Gudin, entre outros mestres.

APANHA-O-BAGO. Figuração coreográfica do samba de roda baiano, incorporada pelo samba tradicional carioca. Complementar ao corta-jaca e ao separa-o-visgo, nela o dançarino se abaixa, simulando apanhar o caroço da fruta.

BATE-BAÚ. Antigo estilo da dança do samba de roda, cuja denominação deriva do suposto ruído produzido pelo entrechoque dos ventres, na umbigada (Carneiro, 1981: 201).

BIENAL DO SAMBA. Evento competitivo realizado em São Paulo, entre maio e junho de 1968, produzido e transmitido pela TV Record. Criado como uma espécie de reação à discriminação do samba no âmbito dos festivais da canção, pretendia ser o primeiro de uma série, mas não passou da edição inicial. Na Bienal foram lançadas, todavia, obras importantes como “Coisas do mundo, minha nega”, de Paulinho da Viola; “Lapinha”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro; “Pressentimento”, de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho; e “Tive, sim”, de Cartola.

BOI COM ABÓBORA. No mundo do samba, expressão de gíria que designa a composição musical mal-construída, em letra e melodia.

BOLE-BOLE. Na dança do samba, efeito de bulir reiteradamente os quadris; rebolado, requebrado (Cascudo, 1980: 136).

BOLIMBOLACHO. Vocábulo expressivo (de origem onomatopaica), nascido no ambiente do samba de roda baiano, para designar o movimento em que a dançarina requebra e rebola quase até o chão e depois retorna, com o
mesmo movimento. Ex: “Bolimbolacho/ bole em cima e bole embaixo” (refrão popular). Em A alma encantadora das ruas (1997: 403), João do Rio cita: “Bolimbolacho, bole em cima/ Bolimbolacho por causa do bole embaixo…”

LENÇOL. No ambiente das escolas, designação do samba de enredo muito descritivo e extenso, como, por exemplo, “61 anos de República” (Império Serrano, 1951), com 35 versos; e “História da liberdade no Brasil” (Salgueiro, 1967), com 49. Esses dois sambas exemplares são de extremo didatismo, pela enumeração exaustiva de nomes e datas históricas relacionados aos respectivos enredos. O primeiro menciona nominalmente, em ordem cronológica, os oito primeiros presidentes da República brasileira e, depois, em destaque, Getúlio Vargas.

MACHUCADINHO. Na dança do samba de roda e do samba tradicional carioca, variante sapateada do miudinho.

PAU DE SEBO. Expressão popularizada na década de 1970, no ambiente da indústria fonográfica, para designar o disco, geralmente de samba, com diversos intérpretes candidatos ao estrelato. Trata-se de metáfora evocativa ao mastro alto, untado com substância escorregadia, erguido em certas festas populares. No topo, ele contém prendas, destinadas apenas àqueles que conseguirem alcançá-las com seu próprio esforço ou habilidade.

RAIADOR. Designação aplicada ao cantador de chula-raiada e, outrora, por extensão, ao improvisador na roda do samba de partido-alto. Segundo Alencar (1981: 20), Hilário Jovino e seus companheiros Dudu, João Câncio e Oscar eram “raiadores afamados” no ambiente da Pequena África. Em Andrade (1989: 425) o termo é consignado na acepção de “dançarino do partido-alto”, talvez dentro da ideia de “riscar” o chão. Ver CHULA – Chula-raiada.

SÃO PAULO. Estado brasileiro da região Sudeste. Tendo como capital a cidade de mesmo nome, sua história econômica, na época colonial, liga-se principalmente ao ciclo do ouro e ao movimento das bandeiras, eventos que empregaram numerosa mão de obra escrava. Nos anos próximos à abolição, as cidades paulistas de maior população cativa eram Campinas, Bananal, Jundiaí, Constituição, Limeira, Mogi Mirim, Rio Claro, Pindamonhangaba e Amparo. Após a abolição, a cidade de São Paulo atraiu grandes contingentes de população negra, oriundos do interior da província. Proclamada a República, as oportunidades de trabalho continuaram atraindo negros não só do próprio estado como de regiões vizinhas, em ondas migratórias contínuas. Nesse qua- dro, os três maiores redutos negros na cidade de São Paulo, desde o nascimento da República, foram os bairros da Barra Funda e do Bixiga, e a localidade conhecida como Baixada do Glicério. A Barra Funda e o Bixiga – No início do século XX o bairro da Barra Funda, por constituir uma espécie de entroncamento entre as linhas das estradas de ferro Sorocabana e Paulista, concentrava importante parcela da população negra, em sua maioria deslocada das cidades do interior, em busca de melhores condições de trabalho. Expressivo núcleo de cultura africana, já em 1914 o bairro tinha, no Largo da Banana, onde, à época da produção deste dicionário, situavam-se a estação do metrô e o Memorial da América Latina, um similar da Praça Onze carioca. Já o bairro popularmente conhecido como Bixiga, oficialmente Bela Vista, teve como principal fator de aglutinação a proximidade das ricas mansões da avenida Paulista, onde a mão de obra negra era indispensável. Dessa forma, a região, que já abrigava redutos de população negra desde o século XVIII, tornou-se, após a abolição, um dos territórios negros da capital paulista. Samba – Em 1914, surgiu na Barra Funda o Cordão Camisa Verde, semente da atual Associação Cultural e Social Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco. Em 1930, era fundado no Bixiga o cordão Vai-Vai, hoje escola de samba. Na década de 1949 nascia a Lavapés, na Baixada do Glicério. Sambistas – Nos diversos estilos, modalidades e cenários do samba, ao longo dos tempos destacaram-se, em São Paulo, entre outros, os seguintes criadores: Adoniran Barbosa; Carlinhos Vergueiro; Eduardo Gudin; Geraldo Filme; Germano Mathias; Oswaldinho da Cuíca; Paulo Vanzolini; Talismã; Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde.

Capa Os machoes dancaram V3 DS.inddOs machões dançaram é o livro que encerra a trilogia “Modos de macho e modinhas de fêmea”, na qual Xico Sá investiga as mudanças nas relações amorosas entre homens e mulheres. O subtítulo – Crônicas de amor e sexo em tempos de homens vacilões – entrega que o sexo masculino está na berlinda neste volume. O cronista entrega segredos do imaginário masculino e narra as grandes transformações no comportamento dos homens desde o século XX. Leia a orelha, assinada pelo escritor Reinaldo Moraes:

Leio aqui, logo na primeira página deste mesmo livro aí na sua mão, o Xico Sá falando do Macunaemo, mescla de Macunaíma com emo, esse rocker lânguido, com mechas diagonais grudadas na testa. O Macunaemo é só um dos tipos de macho contemporâneo na deliciosa e pertinente taxonomia da macholância brasílica que Xico elaborou ao longo de anos de reflexão sóciopoética e curtição estilística, de que temos profuso testemunho neste Os machões dançaram.

O engraçado é que, mesmo tendo idade pra ser avô dos mais velhos emos, e não dispondo de muitas mechas capilares pra grudar na testa, ainda sou capaz de me reconhecer no Macunaemo xiquense, “metade preguiçoso” e “metade chorão, cordial e sensível”. A mesma identificação especular me ocorre com o homem de Ossanha, aquele “que diz ‘vou’ / não vai”, nos remetendo ao samba de Vinicius e Baden. Porque só Deus sabe o quanto eu tenho dito por aí que vou e, na hora H, necas.

Levado pela mui hábil lábia do Xico, um dos meus cronistas preferidos de todos os tempos, vejo-me compelido a cerrar fileiras nas hostes de todos os tipos, porque me vejo em todos os machões-que-dançaram. E a culpa é do inimitável estilo xicosapiens, o mesmo que estou, patético, tentando imitar aqui.

O fato é que o livro é uma trama vertiginosa de citações e referências culturais fogosamente literárias, oswaldiano na velocidade metafórica, gracilianiano na concisão das frases, e nelsonrodriguiano na irreverência dos amores e dissabores amorosos deste “vale de bobagens”, como dizia Guimarães Rosa. Mas, calma aí. Não estamos diante de nenhum monumento que nos peça reverência acadêmica. É, antes de tudo, um divertido parangolé do Hélio Oiticica, descabeladamente romântico e libertário, no qual sobressaem as mulheres, grandes parceiras do autor, mais os artistas de todo ramo e época, com destaque para os poetas da pá-virada que nosso autor tanto preza e cita a torto e a direito feito um serial-quoter canavalesco. Evoé, Xico!

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