Palavra de editora

Na casa de Ariano

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Por Elisa Rosa

Trabalhar como editora da lendária José Olympio é um compromisso tão nobre quanto prazeroso. Não apenas por lidar com textos essenciais da literatura brasileira e estrangeira, de ontem e de hoje, mas por ter a chance de presenciar momentos de extrema beleza. Explico. No começo de setembro, fui visitar a família de Ariano Suassuna, em Recife, onde tive de conter as emoções ao pisar o terreno repleto de arte — pelo chão, paredes, quintal e sala —, uma casa encantadora, verdadeira performance do próprio Brasil, da nossa cultura e do Reino criado pelo mestre Ariano.

A visita seguiu conforme a praxe da relação editor-herdeiro. No entanto, para mim, aquilo se sobrepunha ao cotidiano do meu trabalho. Não eram a viagem, o encontro, os assuntos abordados. Era a minha relação com aquele ambiente, tão bem construído pela mente criativa e estética de Ariano e de sua família. Fui tomada pelas obras de Brennand, a quem também já era praticamente devota, e pela conscientização do meu próprio destino, por estar ali. Poucas vezes vivemos algo e percebemos, no mesmo instante, a importância do que estamos fazendo. Ainda bem, esse dia escapou à regra.

Comentando com a família de Rachel de Queiroz sobre essa viagem, Flávio de Queiroz Salek — sobrinho de Rachel, a quem carinhosamente chamava de avó — me mostrou um texto dele, emocionante, que traduz de maneira sincera o encontro com a cultura sertaneja, também tão presente na obra de Rachel, e o encantamento do Nordeste sobre nós. Seria pecado não compartilhar as ideias de Flávio com vocês:

“Ariano

Quando eu era menino, viajava nas férias de julho para a fazenda de meus avós, a escritora Rachel de Queiroz e seu marido, meu querido avô Oyama de Macedo. Era a Fazenda Não Me Deixes, no sertão do Ceará, perto da cidade de Quixadá. Essas viagens incutiram em mim lembranças de sertanejo, que carrego até hoje.

Em uma dessas idas, lembro que fomos de Electra, o turbo hélice da Lockheed, que faria fama como longevo titular da ponte aérea Rio-São Paulo, mantido na rota até 1991. O voo escalava em Recife, onde os passageiros desciam por meia-hora. Não havia fingers e ao chegarmos à porta do avião vi que ao pé da escada nos esperava um homem cuja roupa me chamou a atenção. Não era pobre mas vestia roupa de sertanejo, camisa de corte reto de algodão, calças largas do mesmo corte e sandália de rabicho. Era a roupa que caboclos sertanejos vestiam em dia de festa e que eu via pela primeira vez em um homem da elite. Era Ariano Suassuna, que vinha aproveitar a escala para beijar a mão da madrinha.

Minha avó depois me contou que adorava o mentiroso de uma de suas estórias, um tal de Chicó, que tanto se parecia com os caboclos contadores de casos que víamos passar na Fazenda. Toda noite, após o jantar, ficávamos na rede do alpendre ouvindo casos de onça e de assombração contados pelos moradores que vinham à noite tomar café com bolo na casa da Fazenda.

O sertanejo tem um pendor pela mentira bem contada. Arrisco que em parte é fruto de suas andanças solitárias a cavalo pela caatinga atrás de gado. Em parte, vem de suas caminhadas na noite escura pelas matas, na volta à casa. Caminhar pelo mato escuro dá asas à imaginação.

As onças, hoje desaparecidas, eram a ameaça real ao caminhante noturno. A alma penada, o Mapinguari, o Saci, eram no que a imaginação e o passado de índio transformavam um barulho de um bicho noturno qualquer se arrastando pelo mato.

Muitos anos depois, cruzei com Ariano. Estava em Salvador, viajando pelo nordeste de mochila e vi um cartaz convidando para um show em um teatro do Campo Grande. Fui assistir, era o Quinteto Armorial. Na entrada, distribuíram um folheto com um texto dele, explicando o movimento armorial. A música do quinteto me impressionou, nunca tinha visto aquilo, a toada corrida, os instrumentos diferentes, marimbau, rabeca e a viola sertaneja, que eu já conhecia, mas que vi tocada de forma sublime pelo compositor do grupo, Antônio José Madureira, que hoje continua o movimento no Quarteto Romançal. Um dos integrantes do quinteto, o rabequista Antônio Nobrega, um artista com muitos talentos, foi acompanhante de Ariano em suas espetaculares aulas. Estão no YouTube para todo mundo ver. Salve o sertanejo, seu mundo se esvai na pasteurização cultural. Essa história, é para Ariano contar:

“A onda de divulgação e de mau gosto que atualmente ameaça o Brasil é tão poderosa quanto no resto do mundo. Se ela não conseguir sufocar e esmagar a criação, ora marginalizada, dos verdadeiros artistas, o Quarteto Romançal e a obra de Antônio Madureira entrarão para o concerto universal da música de todos os países – fraternalmente una em sua rica variedade – com a nota mais marcadamente brasileira e pessoal que possuímos atualmente. Então, um russo, um francês e um romeno poderão ouvi-la com a mesma encantação, com a mesma alegria com que nós, brasileiros, ouvimos Stravinsky, Erik Satie ou Bela Bartok. Porque, na minha opinião, a música de Antônio Madureira tem, para o Brasil, a mesma importância que a gravura de Gilvan Samico, o romance de Guimarães Rosa e a poesia de João Cabral de Melo Neto”.

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