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Escritora norte-americana Sapphire participa da Flica e lança segundo romance no Brasil

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Por Mariana Moreno

 

Quando pequena, lia horas a fio trancada no quarto, mas era interrompida pela mãe, que a chamava para ajudar nos afazeres domésticos. Na escola, em uma das aulas de produção escrita, uma professora duvidou de que um texto fosse de sua autoria. Apesar de experiências como estas, a escritora norte-americana Sapphire permaneceu fascinada pela literatura e mostrava seus rascunhos para os amigos, que a encorajavam: “Don’t give up. You’ve got something”.

Os amigos estavam certos. Sapphire, nascida Ramona Lofton, tornou-se mundialmente conhecida com a publicação, em 1996, de seu primeiro romance, Preciosa (Push, na versão original em inglês).  O livro já era considerado um best-seller (com cerca de 300 mil cópias vendidas pelo mundo) quando então foi adaptado para o cinema em 2009 e se tornou um fenômeno editorial. Em apenas algumas semanas, mais de um milhão de exemplares foram vendidos após o lançamento do longa, produzido por Oprah Winfrey. No ano seguinte, o filme ganhou dois Oscar: melhor roteiro adaptado e melhor atriz coadjuvante.

Quase vinte anos depois de apresentar a história de Claireece ‘Precious’ Jones, protagonista de Preciosa, Sapphire veio ao Brasil para lançar pela editora Record seu segundo romance,  O garoto, durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), na Bahia, que terminou no último domingo, 18. Apesar de o livro ser centrado no filho de Preciosa, Abdul, a autora prefere falar que a obra não é uma continuação: “Não gosto da ideia de continuidade porque o protagonista não é o mesmo, mas é sim uma sequência no sentido de retratar a pobreza, o racismo, o abuso sexual e a epidemia de HIV”.

No início da década de 80, a AIDS já havia feito muitas vítimas nos Estados Unidos, e os primeiros casos foram identificados no Brasil. Quando Preciosa foi lançado na segunda metade da década de 90, a epidemia já havia se proliferado. Sapphire conta que inicialmente houve resistência para traduzir a obra para o francês, por causa da expansão da doença no Haiti. A escritora lamentou que o número de infectados com o vírus ainda esteja em crescimento até hoje:

“Quando eu escrevi esse livro, imaginei que hoje estaríamos falando de uma história, de um passado. Mas hoje, quase vinte anos depois, ainda é uma realidade. Vejo a literatura como uma forma de ativismo. Eu precisava colocar esse assunto na mesa naquela época”, declarou.

A temática do abuso sexual, que aparece no primeiro romance, é retomada em O garoto. O protagonista é abusado por um padre, reproduz o comportamento e começa a refletir sobre sua sexualidade. No primeiro livro, o abuso é cometido pelo próprio pai, que acaba engravidando “Precious”. Apesar da dureza dos temas, a escritora fala que seu principal objetivo com seus personagens é dar voz a pessoas marginalizadas e silenciadas pela sociedade, mas não como vítimas, e sim como transformadores de seus próprios destinos:

“Eu queria que as pessoas olhassem para a Precious, e agora, para Abdul, não com pena, mas que pensassem: ‘ Se eles podem fazer isso. Eu também posso’, ” afirmou.

Racismo, feminismo e linguagem

Durante a Flica, Sapphire dividiu a mesa “Em trânsito” com a poetisa baiana Lívia Natália e com o jornalista Mauro Mendes, que mediou o encontro. As duas defenderam a importância de se pensar uma literatura genuinamente negra. “As mulheres brancas e negras têm artes muito diferentes. Nós tivemos outras experiências. Fomos propriedade, éramos escravas. É preciso ter essa voz sociológica da alma”, falou a escritora norte-americana.

A poetisa baiana explicou que não se trata de dar rótulos, mas sim de conseguir abarcar os diferentes efeitos físicos e psicológicos das vivências de mulheres brancas e negras. “As demandas que são trazidas no nível supraracial não atendem à mulher negra. A gente precisa pensar nessas diferenças. É por isso que a literatura tem que ter nome e sobrenome”, completou.

O papel da raça na abordagem do feminismo também foi lembrado por Sapphire, que em referência à candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, afirmou que não adianta colocar uma mulher no poder para resolver os problemas, uma vez que o feminismo deve falar a voz de todas, e isso exige, portanto, um olhar específico para a questão racial.

A autora americana destacou ainda as escritoras africanas e norte-americanas que a influenciaram. “Zora Neale Hurston, Alice Walker e Toni Morrison abriram espaço para mim. O livro “Their eyes were watching god”, de Hurston, inspirou “Color purple”, de Walker, que me motivou a escrever “Push”. Sapphire citou também a escritora mineira Carolina Maria de Jesus, autora do livro “Quarto de Despejo”, como uma importante voz da literatura negra baseada em relatos pessoais e diários.

Foi com este tipo de expressão, fundamentada em depoimentos sobre a vida cotidiana, que Sapphire criou, capítulo a capítulo, a voz de Precious, que vai passando de um “rugido”, como definido pela própria autora, para uma linguagem plena. Sua protagonista, inspirada nos alunos que conheceu no subúrbio americano do Harlem, se aproxima mais da autora, que na infância devorava os contos dos irmãos Grimm, mas não conseguia se identificar com as princesas de cabelos loiros e olhos azuis. Sapphire se dedica agora à produção do romance que vai contar a história do filho de Abdul.

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