Entrevistas

“Angela Maria, a eterna cantora do Brasil”, de Rodrigo Faour

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Por Pedro Paulo Malta

RodrigoFaour-divulgaçãofotógrafoThiagoAntunes (15)A partir do início da década de 1950, não houve cantora mais popular do que ela no Brasil. Gravou e vendeu discos como ninguém. Colecionou fãs em todos os cantos do país (e em Portugal, Angola…). Cantou para presidentes os mais diversos – tendo recebido de um deles, Getúlio Vargas, o apelido de Sapoti. Emplacou mais de 50 músicas em paradas de sucesso. Estampou seu rosto em cerca de 250 capas de revistas. E venceu todas as enquetes que volta e meia insistiam em perguntar: “Qual é a sua cantora favorita?”.

A popularidade longeva e incontestável de Angela Maria já seria um motivo e tanto para se ler o livraço de Rodrigo Faour, que chega este mês às prateleiras pela editora Record. Porém, a maior recompensa para quem resolve se embrenhar nas quase 900 páginas de Angela Maria: a eterna cantora do Brasil (840 de texto + 48 de fotos) é justamente entender o que está por trás de tamanho sucesso – e por que seu nome quase sempre passa batido (ou é apenas mencionado) nos livros que se propõem a contar a história da música popular brasileira.

Nesta entrevista ao blog da Record, Faour conta como Angela já fazia parte de seu repertório mesmo enquanto ele biografava outros ícones da música brasileira, como Cauby Peixoto e Dolores Duran. Não se cala sobre o preconceito de críticos contra Angela Maria e diz que conhecer a sua trajetória é também compreender a cultura brasileira.É o Brasil do cabaré. O Brasil exagerado, que se rasga. O Brasil das idiossincrasias. Com o nosso humor e ao mesmo tempo melancólico. Um Brasil que não é zona sul, minimalista, discreto. Não! Mas que é o Brasil do povão. O povão que, depois da Angela, vai gostar de Roberto Carlos. O Brasil que hoje tem os neo-bregas, os neo-sertanejos”, enumera o autor. Sobre o sucesso da cantora, afirma que ele era maior com o povão, mas estava presente em todas as classes: “Apesar de meia dúzia de críticos descontentes, ela foi a grande cantora do Brasil na década de 50.”

 

 Embora Angela Maria só agora tenha sido biografada por você, há tempos ela já frequentava sua obra…

O primeiro livro que eu queria escrever era sobre Angela Maria e Cauby Peixoto. Mas como a Angela estava em São Paulo e o Cauby, no Rio, resolvi começar por ele, que estava mais acessível. Separei os dois, o que foi a melhor coisa que eu fiz – ou o livro ia ter três mil páginas! Mas a Angela continuou presente nos meus trabalhos seguintes à biografia do Cauby: nos livros sobre a Revista do Rádio e sobre a Claudette Soares e também na “História sexual da MPB”, que tem algumas músicas machistas lançadas pela Angela.

Como foi que você sacou que estava na hora de escrever sobre Angela?

Eu vi que se eu não fizesse esse livro, alguém ia fazer… E mal feito, modéstia à parte. Precisa de muito cuidado quando se fala de Angela e Cauby, porque eles são muito espontâneos. E são bregas-chiques. Se você for metido a besta, por eles serem muito populares, periga ridicularizá-los. Só vai tratar com seriedade nomes como Pixinguinha, Villa-Lobos, Tom Jobim, o pessoal da bossa nova, o Caetano… Mas precisa contar a história também com os outros artistas, porque eles são fundamentais inclusive na formação da geração mais cult que veio em seguida. Gal, Bethânia, Elis, João Bosco, Djavan, Milton… Todo mundo bebeu na fonte da Angela.

Entre os metidos a besta está uma parte da crítica que aparece em seu livro torcendo o nariz para a popularidade da Angela. Dá-se um embate que está longe de ser um detalhe na obra.

A Angela Maria é uma das vozes mais lindas que eu já ouvi. E uma voz que encanta até hoje. Foi com essa voz que ela transformou muita música mais ou menos em obra-prima. E outras tantas pepitas semipreciosas que viraram ouro: Vida de bailarina, Abandono, Escuta, Não tenho você… Aliás, é curioso como só tem graça ouvir essas músicas na voz da Angela Maria. Só que na década de 60 ela começa a entrar num esquema comercial que é de matar. Privilegiando a quantidade, não a qualidade. Ou seja, os críticos tinham razão… Ela já tinha um certo nome. Não precisava ter gravado tanta porcaria…

Tipo o quê?

Tipo “Angela em tempo jovem”, disco que ela gravou com 12 rock-baladas em arranjos horrorosos e letras cretinas. Um horror! Impossível ouvir hoje em dia, de tão descartável. Dou razão aos críticos. Não posso é concordar com os que não entram no barato da Angela. Que não querem entrar no mundo dela. São os preconceituosos. Porque você não pode querer colocá-la numa fôrma de Elis Regina. Ela nunca seria uma Maria Bethânia, com aquele perfil de repertório moderno. A grandeza da Angela passa pelos exageros, pelo kitsch… Um universo que é sincero e muito bonito, quando são belas melodias cantadas naquela voz fulgurante. Mas precisa quebrar a vidraça do preconceito para curtir.

E pra entender um pouco mais de Brasil, né?

É o Brasil do cabaré. O Brasil exagerado, que se rasga. O Brasil das idiossincrasias. Com o nosso humor e ao mesmo tempo melancólico. Um Brasil que não é zona sul, minimalista, discreto. Não! Mas que é o Brasil do povão. O povão que, depois da Angela, vai gostar de Roberto Carlos. O Brasil que hoje tem os neo-bregas, os neo-sertanejos… Mas é um embate que perdura até hoje: entre uma certa “alta cultura” e uma cultura mais popular. O que vejo de diferente é que dentro dessa cultura popular existia uma qualidade que não existe hoje. Uma espontaneidade que morreu com essa engrenagem de hoje. Faço uma exceção para o funk, que nunca precisou da TV para ir longe.

Mas música comercial não é uma invenção recente…

Só que a música comercial de hoje é completamente diferente do que era nos anos 50. Tinha muita coisa ruim, sim. Mas tinha artistas exuberantes com estilos próprios, vozes personalíssimas… E a geração do rádio, apesar da pecha de queridinha das “macacas de auditório”, cantava para todo mundo. Para o povão e para a classe A, que compravam as revistas, mas escondiam: “É pra minha empregada…” Um sucesso que, embora fosse maior com o povão, estava presente em todas as classes, no Brasil inteiro. Ou seja: apesar de meia dúzia de críticos descontentes, ela foi a grande cantora do Brasil na década de 50.

Mesma década em que brilhou a personagem de seu livro anterior: Dolores Duran.

Curioso que uma é o oposto da outra. A Angela é uma mulher dos anos 50 – até hoje – enquanto a Dolores era uma mulher de hoje que nasceu naquela época, sempre transgredindo. Em termos de repertório também: a Dolores só gravou o “crème de la crème”, tudo com um bom gosto incrível… E a Angela grava coisas boas e porcarias datadas. Angela era muito atacada por parte da crítica musical, que adorava Dolores. Uma morreu cedo, a outra está aí, longeva, com todos esses anos de carreira.

Além desse embate entre a chamada “alta cultura” e a cultura do povão, outro ponto alto do livro é a extensão da sua pesquisa. Em certos momentos, parece que você teve acesso aos diários dela…

Como ela estourou no início da carreira e esse início coincide com o momento em que a indústria cultural está se consolidando no Brasil, ela está em tudo quanto é coluna especializada de jornal, capa de revista, matéria maior, notinha… Qualquer tosse que ela desse saía naquele monte de jornais e revistas especializadas que, diferentemente de hoje, circulavam naquela época. Devo ter lido praticamente 5 mil matérias e notas que citavam o nome dela… No acervo digitalizado da Biblioteca Nacional e nos acervos de três fãs maravilhosos a que tive acesso: dois de São Paulo, um de São Gonçalo. Comecei a organizar um cronograma que, a partir de um certo ponto, virou uma espécie de diário de Angela Maria. Tinha matéria todo dia, às vezes mais de uma por dia.

Chama também a atenção a longevidade desse sucesso…

Ela permanece no topo de 1951 a 77. Na época da bossa nova, lá está Angela Maria fazendo sucesso. No período da Jovem Guarda, também. Depois, vem o desbunde e ela continua nas paradas. Aí, o samba volta a ganhar força na década de 70 e ela põe quatro sucessos nas paradas. Em 1978, o Ibope faz uma pesquisa perguntando qual a cantora mais popular do Brasil e ela ainda é a cantora mais popular do Brasil. Quem vai conseguir isso hoje em dia?! Ninguém!!! É tudo muito efêmero.

Capaz de continuar nas cabeças, se o Ibope perguntar de novo, hoje em dia…

Uma grande voz é sempre uma grande voz. Como diz Bibi Ferreira, “o público não resiste a um agudo”. E Angela sempre privilegiou esses agudos na carreira dela – os finais de música da Angela, sempre apoteóticos, influenciaram até Cauby. E tem a marca de ser a voz da dor-de-cotovelo nacional. As pessoas têm essa coisa de se identificar com a dor-de-amor. É atávico. As pessoas gostam de sofrer por amor, do melodrama. É coisa nossa.

E as entrevistas com ela, como foram?

Infelizmente, Angela não falou muito, porque ela não gosta de falar do passado. Nos depoimentos que ela dá, quase sempre fala do início no Dancing Avenida e depois pula para hoje. O filé mignon ela não fala…. Então, foi na imprensa que encontrei essas informações. As falas dela deixei mais para o fim do livro, especialmente depois que ela conhece o Daniel, com quem está casada desde a década de 70. As falas dela, por exemplo, sobre os casamentos anteriores (quatro ex-maridos que a exploraram, a roubaram, a traíram…) tive que buscar na imprensa da época.

Felizmente, consegui ótimos depoimentos de personagens como Victor Berbara e Maurício Shermann, sobre a TV nos anos 50. Já um produtor da gravadora Copacabana, Cesare Benvenuti, me explicou o porquê de tantos compactos lançados por ela. E o Sebastião Ferreira da Silva, ótimo personagem: ele foi um dos criadores da “parada de sucessos”. Conversei também com Cid Moreira, que trabalhou com ela na Rádio Mayrink Veiga.

E como aquele povo gostava de realeza, hein? Haja coroa!

Ah… Era rainha do rádio, rainha do comércio, rainha da festa de sei-lá-o-quê, rainha das forças armadas… Você tem que ver que a mulher, naquele tempo, era vista como um objeto a ser admirado, um bibelô que estava ali para ser visto, avaliado, e que não precisava pensar muito. Esses concursos de rainha, assim como os de miss, são um retrato dessa época, desse pensamento. Tanto que concurso de miss é uma coisa anacrônica nos tempos de hoje. As mulheres estão em outra – ou, pelo menos, deveriam estar.

E a discussão sobre a lei das biografias, a censura e o “Procure Saber”? Te pegou no meio de toda essa trabalheira…

Foi um sofrimento. Primeiro, porque Angela ficou muito desconfiada. Ficavam dizendo para ela que eu estava querendo saber coisas da vida dela… E estava mesmo. Jamais para sacaneá-la. Mas para saber. Você precisa conhecer a pessoa sobre a qual você está escrevendo. Porque o biógrafo é quase como um investigador de polícia. Como um advogado de defesa: precisa saber a merda que seu cliente fez para poder defendê-lo. Assim, o processo ficou muito difícil, porque eu tive pouquíssimas pessoas à volta dela que eu pude entrevistar. Sem contar que a Angela é muito fechada… E não vou escrever biografia chapa-branca, porque isso é contra a minha religião.

Além disso, enquanto eu escrevia o livro, pegava o jornal e lia coisas tipo o Djavan dizendo que os biógrafos se enchem de dinheiro com os livros – o que é um completo absurdo. A gente ganha muito pouco pra fazer livro. Faz porque gosta. E sofre muito… Além da trabalheira de pesquisar em tudo quanto é canto, de entrevistar e de escrever, é muita responsabilidade. Você não pode errar. Tanto que, quando termino o livro, leio pelo menos duas vezes: uma como pesquisador e outra com olhar de advogado. Só assim considero o trabalho pronto.

(Foto: Thiago Antunes)

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