Entrevistas

“O aprendiz”, de Taran Matharu

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Taran Matharu - Cred- Sally FeltonPor Thaís Britto

A infância não foi das mais fáceis para Taran Matharu. Filho de mãe brasileira e pai indiano, o rapaz sempre soube o que era ser a criança diferente de todas as outras enquanto crescia, na Inglaterra. Uma das saídas que encontrou para lidar com os sentimentos que ficaram foi a literatura. Em O aprendiz, seu livro de estreia e que abre a trilogia Conjurador, o jovem escritor usa uma trama fantástica, cheia de elementos inspirados em clássicos como Harry Potter e O Senhor dos Anéis, para falar sobre preconceito e desigualdade.

Taran começou a publicar as aventuras de Fletcher e seu demônio, Ignácio, capítulo a capítulo no Wattpad, uma rede social de leitores. Logo viu o número de interessados na história crescer exponencialmente: no fim das contas, O aprendiz foi lido por 6 milhões de pessoas e chamou a atenção das editoras. Os direitos de publicação da série já foram vendidos para 14 países.

Aos 25 anos, o autor virá ao Brasil em novembro para participar do Encontro Mundial da Invenção Literária, em São Paulo.

O que levou você a escrever uma história fantástica? Você é fã do gênero? O que costumava ler quando era adolescente?

Fantasia sempre foi meu gênero favorito. O mundo fantástico pode ser verdadeiramente épico, algo que outros gêneros nem sempre fazem bem, embora sci-fi e ficção histórica também tenham essa característica. Também adoro o fato de poder explorar uma diversidade de temas e questões por meio de metáforas. É muito legal! Criaturas, armas antigas, mágica, novas culturas, como não amar?

Há quatro elementos chave que adoro sobre fantasia:

1) A falta de regras. Na ficção, o escritor fica limitado pela realidade do mundo em que vivemos. Na ficção histórica, os personagens devem viajar com base na história. A ficção científica é restrita pela tecnologia, seja imaginada ou real. Não é assim com a fantasia, ela é ilimitada. Você pode criar qualquer coisa, em qualquer época e lugar, ir onde a sua imaginação te levar. Não é necessário seguir regrar sociais, culturais, nem mesmo leis da física. Quando escreve fantasia, o autor é realmente livre.

2) As medidas. Fantasia pode ser tão grande ou pequena quando você queira. Pode levar você a um novo mundo ou até a diversos mundos. Uma quantidade inumerável de culturas, lugares e realidades estão aí para serem descobertos. Muito das tramas de fantasia tem a ver com exploração e nenhum outro gênero faz isso melhor. E a fantasia pode ser baseada na realidade, com um pequeno toque de sobrenatural. É o tempero que faz uma história ser mais do que boa, ser gloriosa.

3) Verdade. Embora fantasia seja em sua essência um exercício de imaginação, para mim, há um nível de verdade no gênero que os outros não conseguem alcançar. O próprio ato de se livrar do que é real nos deixa apenas com o básico da condição humana. Até em outro mundo, as questões que exploramos correspondem às nossas, e o contraste entre cenário e culturas só serve para ressaltar o que há de semelhante.

4) Mitos, lendas e folclore. Para mim, a herança cultural do mundo é um reflexo de nossa consciência coletiva. Folclore e mitologia constantemente retornam às mesmas histórias, mesmas construções do imaginário, apesar das diferenças de tempo, local e cultura. Veja, por exemplo, Cinderela. Esta história começou como um conto de Rhodopis em 7 A.C e reverberou através do tempo e do mundo até tornar-se nossa Cinderela moderna. É até parte da nossa linguagem hoje: usamos a expressão “uma história de Cinderela” pra descrever uma trajetória de riqueza repentina e merecida. A fantasia faz a mitologia de si mesma. Homenageia todas essas histórias antigas que resistiram ao tempo. Histórias que estão no nosso DNA e que nossos subconscientes vão reconhecer. A fantasia as perpetua e as celebra, e acho isso muito bonito.

Algumas das minhas séries favoritas são Discworld, de Terry Pratchett; Harry Potter, de J.K. Rowling; A saga de Darren Shan, de Darren Shan; The Redwall series, de Brian Jacques; e Crônicas do abismo, de Chris Riddell e Paul Stewart.

Por que começou a postar suas histórias no Wattpad? Quando percebeu que as pessoas estavam realmente gostando?

Só queria que as pessoas lessem o meu trabalho. Escrever é uma experiência tão solitária, e eu queria transformá-la em algo social. Eu também estava participando do National Novel Writing Month, no qual você é desafiado a escrever 50 mil palavras por mês. Sabia que seria difícil, mas sabia também que, se eu compartilhasse na internet enquanto escrevia, eu teria um feedback e isso me encorajaria. Depois do primeiro mês, tinha 100 mil leitores e muitos comentários e votos. Foi aí que percebi que seria um sucesso!

Você já disse em entrevistas que enfrentar o racismo e o preconceito na infância acabaram ajudando-o a tornar-se escritor. Quando você começou a escrever? E como isso te ajudou?

Eu realmente lutei contra o racismo e o bullying na escola. Ler e escrever me ajudaram a escapar disso – a forma com que os protagonistas dos livros superavam seus problemas me ensinava a não me sentir uma vítima e enfrentar tudo de cabeça erguida. Eu me apeguei especialmente a jovens personagens masculinos com os quais eu podia me identificar, especialmente os que enfrentavam os problemas sozinhos.

Escrevi meu primeiro livro aos nove anos. Era sobre uma batalha contra uma bruxa má chamada Widower, que queria controlar o território. Os heróis eram uma família chamada Wizswords, liderada pelo mago Nilrem e seus netos Narat e Revilo. A parte mais interessante do livro eram os aliados de Nilrem, o povo-formiga.  Eles tinham pouco mais de 2cm de altura, tinham toda uma civilização organizada, usavam abelhas, gafanhotos e besouros como meio de transporte e construíam suas estradas e casas no gramado de Nilrem. Ainda acho que tem alguma coisa aí, adoro essa ideia.

É engraçado, minha mãe ainda adora esse livro e acha que ele é publicável! De vez em quando ela me perturba para colocá-lo online ou mostrá-lo a alguém. Ela sempre vai ser minha maior fã.

Há uma discussão sobre racismo e intolerância em O aprendiz. Quão importante é falar sobre esses assuntos com os leitores jovens?

É muito importante. Racismo é um triste fato da vida e não vai acabar se o ignorarmos. Quando você lê um bom livro, você tem sente e experimenta o mesmo que os personagens. Acho que é útil ajudar os jovens leitores a entender o racismo e a intolerância, e como é sentir-se sujeito a esse tipo de injustiça.

Pode me falar um pouco sobre o processo de criação do Fletcher? Ele é um menino que tem muitos problemas com os quais precisa lidar, mas o leitor vê quando o mundo dele se amplia, e ele percebe que outras pessoas têm problemas ainda maiores. Você se inspirou em algo ou alguém para criá-lo?

Fletcher é um personagem muito forte, mas ele se permite ser emotivo e cometer erros. Ele talvez seja inspirado numa versão mais jovem de mim mesmo em algumas maneiras. Ele definitivamente tem muita empatia pelas outras pessoas e é incrivelmente leal aos amigos. O problema é que ele espera a mesma lealmente de volta, e fica muito irritado quando sente que está sendo traído.

O que você pode me contar sobre o segundo livro da trilogia? 

Chama-se The inquisition [O livro ainda não tem título em português]! Fletcher e seus amigos estarão atrás das linhas inimigas, no meio das selvas controladas pelos orcs. Os leitores descobrirão quem são os pais do Fletcher e ele terá mais um demônio! Mal posso esperar para compartilhar a capa, é incrível!

Você é bastante presente nas redes sociais e está sempre em contato com seus fãs. Como é essa experiência e como ela afeta seu tempo?  Você ficou de alguma forma surpreso com a resposta em relação ao livro?

Interagir com os fãs é minha parte favorita de ser um autor. Quando vejo uma resenha em vídeo do meu livro, eu ganho o dia. Eu tento responder a todas as perguntas e comentários que eu recebo, e leio todas as mensagens. Consome muito tempo mas vale a pena.

Sua mãe é brasileira. Qual é sua relação com o país? Costuma vir aqui frequentemente? Você se identifica com algum aspecto específico da cultura brasileira?

Costumava ir ao Brasil todos os anos e tenho muitos amigos e família aí. Quando entrei na faculdade ficou muito caro e eu não tinha mais muito tempo, então tem alguns anos que eu não vou. Meu português era fluente, mas agora está meio enferrujado, eu preciso praticar. Por sorte, muitos fãs brasileiros têm me mandado mensagens, então estou melhorando. Sinto falta do clima tranquilo, da música e, claro, da comida. Minha mãe ainda cozinha comida brasileira, mas é difícil achar picanha, coração de galinha e guaraná aqui em Londres. Comer numa churrascaria está no topo da minha lista de coisas a fazer quando chegar ao Brasil! E vai ser em breve: estarei aí de 12 a 15 de novembro, em São Paulo, para o Encontro Mundial da Invenção Literária.

Comentários
  • Sibelle Lobo

    Amei a entrevista <3 Taran Matharu melhor autor!

  • Erica

    Com atraso, mas amei a entrevista, pena que na época eu não conhecia o trabalho.
    Acabei de ler “O Aprendiz” e fiquei apaixonada.
    >3

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