Palavra de editora

“Outro dia”, “Trono de vidro”e o feminismo na literatura jovem

3 Comentários

Por Rafaella Machado

Nessa última semana o feminismo ganhou destaque na mídia e nas redes sociais. Revoltadas com comentários pedófilos no Twitter a respeito da participante do Masterchef, muitas mulheres corajosas começaram uma campanha online, compartilhando histórias de assédio. Além disso, teve o tema da redação do ENEM, focado na violência contra a mulher, que também gerou polêmica e trouxe o assunto à tona.

outro diaEnquanto isso, eu estava revisando o livro Outro dia, de David Levithan. O livro é voltado para o público jovem, e conta a história de amor entre Rhiannon e A, uma pessoa que troca de corpo todos os dias. A trama é narrada pela perspectiva da Rhiannon, que, aos 16 anos, encontra-se em uma relação abusiva com o namorado, Justin.

Justin está eternamente de mau humor e costuma ser verbalmente agressivo com ela. A garota anda pisando em ovos. Se isolou cada vez mais dos amigos. Se convenceu de que Justin, coitado, tem muitos problemas e é por isso que não consegue evitar ser agressivo com ela. Ele não é uma má pessoa, apenas alguém com dificuldade de controlar a raiva. E faz ela sofrer e pagar caro por estar ao seu lado.

Todos nós conhecemos um Justin. Algumas de nós já estivemos em relações assim. No entanto, um grande diferencial da narrativa de Outro dia é que nossa protagonista, ao conhecer A, percebe que ele é uma pessoa melhor, alguém que gosta dela de verdade e sabe trata-la bem.  Rhiannon escolhe A. Fim.

Parece tão simples, parece a escolha certa desde o princípio, e TODOS os livros para jovens deveriam passar essa mensagem. Entretanto, na qualidade de editora de YA, posso dizer que a grande maioria dos livros apresenta uma mensagem oposta:

  1. Protagonista conhece Fulano
  2. Fulano é um babaca e maltrata protagonista
  3. Descobrimos que fulano é babaca por um “bom” motivo
  4. O amor muda Fulano e ele vira um Príncipe
  5. Protagonista e Fulano são felizes para sempre

Não estou exagerando. Pense na Bela e a Fera. 50 tons de Cinza. Crepúsculo. São muitas as histórias que perpetuam essa visão perversa sobre o amor e as relações. E nós, editores, temos que nos responsabilizar pelo que publicamos, principalmente nos selos jovens. Depois a gente se pergunta por que muitas mulheres crescem acreditando que vão mudar seus parceiros. Depois muita gente julga que “só apanha quem quer” e que “mulher que não se valoriza é sujeita a esse tipo de coisa”.

Mas enquanto os homens crescem inspirados no heroísmo do Super Homem e do Homem Aranha, a gente aprende que o final de toda história é o casamento: Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida. Culturalmente, as mulheres são ensinadas a competir entre si. A Cinderela tem que vencer a madrasta e as filhas dela. A Branca de Neve precisa escapar da bruxa má. A Bela Adormecida, coitada, está lá paralisada por outra bruxa invejosa, esperando desencalhar. A passividade é ensinada desde cedo e o machismo está mesmo nas pequenas coisas. Nos filmes da Disney que habitam nossa infância, nos livros que lemos enquanto jovens.

9788501401403.Mas aos poucos as coisas estão mudando. E nosso papel é participar ativamente dessa mudança, escolhendo títulos, estimulando o diálogo. Em 2013 lançamos a série Trono de vidro, da Sarah J. Maas. Um livro de fantasia épica com uma protagonista forte que tem roubado corações, tanto dentro quanto fora da editora.

Eu nunca li nada como Trono de vidro e nunca conheci um personagem como a Celaena. Ela é uma assassina, tem seu próprio código de ética. Ela luta de igual para igual com homens e mulheres. Ela é frágil, claro, como todos somos em algum momento. Mas a saga de Celaena não acaba com ela se apaixonando pelo homem ideal.

Não. Celaena se apaixona diversas vezes, mas isso nada tem a ver com sua luta. Celaena não precisa da proteção do homem amado, pelo contrário, ela é quem o protege com unhas e dentes e lâminas afiadas. Afinal, se envolver com uma assassina desse tipo é extremamente perigoso para qualquer homem.

Quando, no meio da trama, aparece uma bela princesa estrangeira no reino, Celaena não a vê como rival. As duas forjam uma amizade sincera e lutam juntas contra inimigos comuns.

Parece algo muito trivial, né? Mas a jornada épica de Celaena, que já virou best-seller em mais de 40 países, quebra com a ideia da mulher frágil que compete com a outra pelo amor e a proteção de algum príncipe aleatório. E essa quebra é muito necessária.

Para erradicar a violência doméstica, o assédio sexual e o silêncio acerca disso, precisamos de mais histórias assim e mais heroínas como Celaena e Rhiannon.  Mulheres que falem: eu não aceito isso, vou atrás da minha felicidade, vou lutar por quem me valorize. Alguém que sofre, mas sabe se reinventar, se proteger. Uma mulher com a qual todas podem se identificar.

Rhiannon mostra que ao desistir do “amor” destrutivo, é possível encontrar um abraço que não vire golpe. E Celaena sintetiza toda a coragem, força e magnetismo que antes só era protagonizado por heróis masculinos.

Deve ser por isso que minha melhor amiga vai vestida de Celaena esse Halloween. Deve ser por isso que todas, desde minha sobrinha de 15 anos até a Dona Maria, copeira aqui da Record, amam essa série e não falam de outra coisa. #somostodasCelaena

Comentários
  • Bruna Vasconcelos (Bruh)

    Parabéns pelo texto Rafaella… Trono de Vidro ganhou meu coração! #somostodasCelaena

  • Sarah Vieira

    Parabéns pelo texto Rafaela, você conseguiu definir muito bem o universo de Trono de Vidro, tenho apenas 12 anos e tomei a liberdade de gastar mais uma vez minhas economias comprando livros e desta vez eu comprei muito mais que um simples livro aleatório, eu não sabia no momento mas estava adquirindo um novo universo mágico onde me refugiar em qualquer momento! #somostodasCelaena

  • Não li alguns dos livros indicados, mas estou comentando pela coincidência… Adorei saber que outra Rafaella Machado também é da área de Literatura e fala sobre feminismo.
    Sou professora de Literatura para ensino Médio, trabalho com a temática de feminismos e faço parte de um projeto de empoderamento de meninas, o Marias vão com as outras.
    Onde posso encontrar outros textos teus sobre feminismo e literatura?
    Desde já obrigada. :)

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