Entrevistas

“A fofa do terceiro andar”, de Cléo Busatto

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Há 61 anos a Feira do Livro de Porto Alegre promove diversas atividades gratuitas para difundir a cultura. Desde o dia 30 de outubro até o dia 15 de novembro, a capital gaúcha será palco de encontros entre autores, mesas de debates e sessões de autógrafos. Hoje, a autora Cléo Busatto autografa o seu livro: A fofa do terceiro andar (Galera Júnior). Cléo Busatto é mestre em teoria literária, pela Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora transdisciplinar, formada pelo Centro de Educação Transdisciplinar. Possui mais de 20 obras publicadas. Nesta entrevista a autora fala sobre suas inspirações e sua carreira na literatura infanto juvenil.

Por Cláudia Lamego

 

Você tem uma carreira consolidada na literatura infanto-juvenil. O que a levou a escrever o primeiro juvenil?

Não existe um motivo. Eu não parei e disse, vou escrever um texto juvenil. A ideia se apresentou e eu dei forma. Também não deixei de escrever para crianças. Entre a primeira versão, que é de 2006, até agora, escrevi outros livros, inclusive infantis. Apenas escrevo. Vou e volto.

Num determinado momento eu convoquei a minha adolescente e a gente criou A fofa do terceiro andar. Daqui a pouco posso chamar minha criança e criamos outro infantil. Num outro instante pode vir à tona a adulta e a gente faz um livro pra gente grande. Apenas escrevo e me deixo levar pelo exercício da criação. O que vier será bem-vindo.

Ana é uma adolescente como muitas outras, cheia de questões. Ela sofre na escola porque é gorda, mas poderia sofrer por ser magra demais, ou ter cabelos crespos, pernas finas. A fofa do terceiro andar penetra profundamente a alma da menina e tem um estilo ideal tanto para um leitor da faixa etária da personagem quanto para uma pessoa adulta que já tenha passado por essa fase da vida. De onde veio a inspiração para escrever esse diário da personagem? Da sua própria experiência? Do contato com outros jovens?

É curioso, porque não lembro o que me levou a escrevê-lo. Posso descrever a historinha de vida de todos meus livros, mas não da Fofa. Dela, lembro apenas quando surgiu o título, a imagem do título,  A fofa do terceiro andar. Foi aí que tudo começou.

Porém, durante a escritura passei a rever a minha adolescente e entendi melhor esta fase, onde a coragem, a ousadia e as dúvidas estão sempre presentes. Trouxe minha adolescente à tona e resolvi coisas relacionadas à este tempo.

Eu fui um pouco de Ana, ainda que fisicamente fosse pequena e magra. Me chamavam de periquita e eu odiava. Fui transgressora e audaciosa. Pintava o cabelo de vermelho, quando todas as meninas eram loiras. Raspei a cabeça, quando todas usavam cabelões. Fui rejeitada por um menino que eu convidei para ser meu par no baile de debutantes. Um horror!

Eu me aproprio, sim, das minhas experiências para construir os personagens. Ofereço a eles as vivências mais significativas, as descobertas mais importantes, as situações que foram determinantes para eu ser o que sou.  Emprestei para  Ana,  o meu hábito de escrever  em cadernos de 200 páginas. Tenho 37 deles,  lotados de impressões, sonhos, afetos materializados em palavras. Eles foram e são o suporte para a minha construção. Neles escrevo a minha história, assim como Ana.

Por outro lado, Ana é única. Ana não sou eu. Acho que o livro é uma espécie de escrita de iniciação, uma conversa íntima, e através dela a personagem vai se vendo e lendo o mundo a sua volta, descortinando-se da ignorância e dos preconceitos. Ana foi tomando corpo à medida que a escrita avançava e eu a deixei ser aquilo que ela é, deixei-a com seus medos, dúvidas, alegrias, descobertas. É isso. A fofa do terceiro andar surgiu sem um projeto e foi se construindo à medida que era escrito.

Você cita algumas meninas com quem conversou durante a escrita do livro. Pediu dicas? Alguma delas leu algum trecho antes?

Bem no comecinho da escritura, eu me reuni com algumas garotas pra ver o que elas andavam fazendo, pensando, falando e concluí que não importa o ano em que estamos, a moda do momento, os valores ou os hábitos culturais. A adolescência tem seu próprio tempo e este não muda. A essência permanece a mesma.

Esta foi a resposta que recebi naquele dia e a partir dai resolvi olhar pra dentro e não pra fora. Me voltei pra minha adolescente e escrevi o livro.

Em janeiro de 2014, tive a oportunidade de ler algumas páginas para outras meninas e foi muito bom. Eu não buscava respostas, apenas queria sentir a recepção. O texto repercutiu numa garota de uma forma surpreendente. Ela reagiu com raiva ao ver como Ana era tratada na escola. Suspirou e disse, até que enfim, quando Ana e Francisco se encontraram.

Acho o exercício de ler para o outro muito saudável, por que ele me dá retorno daquilo que criei. Eu consigo perceber se a voz que dei ao personagem é verdadeira, forte, significativa.

A mim interessa escrever histórias com alma, narrar a complexidade do ser humano. Por isto a leitura para o outro é importante.  A partir dela eu consigo ver se o texto provocou esta ressonância, se o outro foi tocado por estas vozes.

Algumas vezes, quando leio ou narro histórias, peço às pessoas que fechem os olhos. Se elas conseguem criar um filminho daquilo que li, saio satisfeita, sinal que criei imagens memoráveis, e isto é bom.

A escola é o primeiro ambiente em que as crianças e, mais tarde, os adolescentes e jovens frequentam sem a presença e também a proteção dos pais. É um lugar de afirmação da independência, de uma certa autonomia, mas também do desafio de lidar com o outro. O bullying, como sofre Ana, faz parte desse ambiente. Acha que seu livro deveria ser adotado e lido nas escolas, tanto para quem já passou por esses desafios, como para os outros que não têm tantos problemas, mas podem passar a enxergar os colegas de forma diferente? É um livro também para os professores?

Eu vejo a literatura como um espelho generoso que nos indica possibilidades. De história em história vamos nos construindo através deste espelhamento. A literatura tem este poder de mostrar caminhos que favorecem reflexão e, acredito, A fofa do terceiro andar tem este mérito.

A literatura é um palco para discussão de ideias e a questão do bullying está aí. Se a escola souber olhar para o livro e ver que ele se oferece como material reflexivo, como um objeto de sensibilização, vai ser ótimo.

Eu penso que os livros podem trazer em seu corpo diferentes qualidades, como ser formativo, entreter, apresentar-se como um exercício da linguagem e ser um bom produto cultural.  Acho importante que os jovens leiam textos que os incitem a ir além do que são, que ampliem seu repertório, provoquem reflexões sobre si próprio, sobre suas ações e atos, suas formas de ver as coisas.

E a escola tem esta função de lançar um olhar apurado, crítico e livre de preconceitos, sobre o que oferece aos alunos. Tem a obrigação de ampliar a consciência dos sujeitos que estão lá, por meio de práticas que integrem as diferentes dimensões do ser humano. É importante que o projeto educacional contemporâneo preveja a inclusão do mítico-simbólico e do sagrado no seu currículo. E para isto existem as histórias, a boa literatura.  Ela faz a ponte com estes níveis de realidade que transcendem as dimensões mais usuais, como o corporal e o lógico.

Quando a A fofa do terceiro andar aponta para outros modos de ver o mundo, desprovidos da intolerância e do preconceito, ela é formativa e útil à escola, professores, pais e alunos.

É na escola também que surgem os primeiros amores. No caso de Ana, o namorado trouxe junto a experiência concreta da morte. Qual a diferença no tratamento desse tema com o público infanto-juvenil e o jovem?

É difícil e necessário falar da morte. Recebi várias críticas por colocar este tema no livro, mas nunca pensei em alterar o caminho. O tema já apareceu em outro livro, um infantil, Pedro e o Cruzeiro do Sul. As crianças ouvem a história e ficam em silêncio, reflexivas. Isto é bom. Neste mundo de barulho que a gente vive, qualquer 30 segundos de silêncio é um ganho e tanto para o nosso crescimento pessoal.

Acho importante reconhecer a morte como uma condição da vida. E isto a literatura pode fazer com muita maestria, por que fala através de uma linguagem simbólica. Estabelece um pacto com o leitor e ele, que se sente protegido pela ficção, pode visitar a morte, seja em si ou no outro, e voltar mudado desta experiência, sem morrer de fato.  É o tal do espelhamento. Aprender com o outro, neste caso com a literatura.

Acho que a diferença que se estabelece entre o público infantil e o jovem, ao tratar do tema, se dá no exercício da linguagem. Para as crianças eu falei da morte através da fábula, para o jovem inclui o conceito da morte no budismo.

Com o jovem dá pra verticalizar a experiência, questionar, sentir os efeitos provocados pelos afetos da morte. Com a criança a gente deixa que o simbólico se encarregue de lançar imagens que a confortem.

Chama a atenção no livro o fato de que Ana não se tornou uma menina magra. A dieta dela tinha limite, e esse limite era a saúde e o sentir-se bem com suas medidas, maiores mesmo. Você acha que o livro pode encorajar as leitoras, na medida em que vão se identificar com a Ana, a também mudar nas pequenas atitudes? Essa pode ser uma das mensagens da obra?

Eu vou achar ótimo se o livro provocar mudanças, ainda que pequenas. Terá valido a pena escrever e publicar A fofa.

Este é um aspecto que sempre ficou bem claro para mim, durante a escritura. O livro não é apenas a história de uma menina gorda que resolve emagrecer e se livrar dos adjetivos indesejados.

Ana descobre que o mais importante é eliminar todos os excessos: físicos, emocionais, espirituais. Ana descobre que ela pode ser livre.

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