Palavra de editora

Entre a ideia e a página

3 Comentários

Por Andreia Amaral

Livros sempre me encantaram. Quando criança, eu passava horas na biblioteca da escola viajando naquele universo. Lembro até hoje do cheiro do lugar, que me remete a algumas décadas já distantes… Mas eu não tinha a menor ideia – nunca me vi pensando sobre o assunto – de como aqueles livros iam parar ali. Hoje me dou conta de que o meu interesse pelas histórias me levaram a escolher autores preferidos, personagens do coração, mas nunca me despertaram para o ciclo de vida dos livros, para o que acontecia antes de eles pousarem na minha biblioteca. E a verdade é que poucas pessoas conhecem, de fato, o percurso entre a ideia, a produção e, enfim, o nascimento do livro.

Prestes a fazer o vestibular, eu tinha convicção de que trabalharia com comunicação. Incerta entre jornalismo ou publicidade, preferi aguardar os períodos da faculdade nos quais, naquela época, todos os cursos da área tinham matérias em comum. Escolhíamos a habilitação apenas a partir do 5º período. Mesmo já estando na universidade, o curso de Produção Editorial ainda era um desconhecido para mim, muitas vezes desdenhado pelos colegas… mas a curiosidade pelo ofício já começava a despertar.

Turmas pequenas, professores motivados e um futuro completamente duvidoso. Entre os desafios de encarar a profissão, me deparava frequentemente com testas enrugadas toda vez que precisava explicar o que fazia um produtor editorial. E não era raro ter de ouvir: “parabéns, vai ser jornalista!”.

Desde então, construí minha vida cercada por autores, cheiro de livro novo saindo da gráfica, noites mal dormidas pensando na melhor capa, feiras literárias e lançamentos ilustres. Mas,  quase 20 anos depois, ainda percebo que poucas são as pessoas que, fora do mercado editorial,  conhecem a rotina dos “fazedores de livros”.  E que, apesar da literatura entrar na nossa vida desde muito cedo, raras são as vezes em que nos damos conta dos profissionais que fazem o mercado funcionar (sim, gente, entre o autor e o livreiro há uma legião de apaixonados que se dedicam a fazer essa indústria operar, na maioria das vezes pessoas que vivem no anonimato, mas que são responsáveis por um trabalho fantástico, carregado de cuidado, especificidades, curiosidades e afeto, muito afeto por cada detalhe).

É um trabalho glamouroso para quem está de longe. Há aqueles que acreditam que conseguimos passar os dias concentrados, só lendo e tendo boas ideias. Sim, essa é também uma parte do trabalho. Mas precisamos nos dividir entre a leitura e a calculadora, preocupados em fazer as contas fecharem; driblamos o tempo para que o livro esteja pronto no momento certo, seja a realização do autor e tenha a qualidade que desejamos; carregamos a responsabilidade de apostar altos valores de adiantamento em títulos que não sabemos se irão vingar; somos afetados pela alta do dólar que encarece o papel, assombrados pelo erro que se esconde e salta aos olhos depois do livro impresso, pelos tropeços no caminho entre a editora e a livraria, que atrasam a chegada dos exemplares para a noite de autógrafos… e ainda o revisor que retardou a entrega do texto na data combinada e não atende ao telefone, o tradutor que saltou um capítulo inteiro justo na  aposta para o trimestre, a burocracia que impede a distribuição do tão planejado lançamento… e ainda as dúvidas entre pantones, break even, plotter, decalque, releitura, cotejo, OCR, soft touch… ai, ai…  são necessárias paciência e habilidade para lidar com tantos egos, escolhas, incertezas, desejos, ansiedade…

Fundamental é ter em mente que somos um instrumento, a ferramenta entre uma ponta e outra, aqueles que possibilitam que ideias tomem forma e ganhem vida. Depois de pronto, o livro se impõe, habita lares, bibliotecas, salas de aula, prateleiras de escritório e lugares inimagináveis. Deixa de ser o sonho do autor e o desejo do editor para disputar atenção, muitas vezes entre DVDs, lapiseiras e parafernálias eletrônicas. Por isso, é essencial sairmos da nossa zona de conforto, sermos provocados, nos colocarmos no lugar do escritor, do leitor, nos anteciparmos às exigências do mercado ainda em expansão, num país de ainda tão poucas oportunidades. Não é raro esbarrarmos em um assunto desconhecido ou tema obscuro, e o desafio é ultrapassar a nossa própria ignorância, vencer preconceitos. Percebo diariamente que as minhas certezas são confrontadas e nem sempre sobrevivem. Sorte a minha! Nada como viver na certeza de que não se tem certeza de nada.

Somos parte dos livros que se espalham mundo afora e que carregam consigo centenas de emoções divididas durante um processo que pode levar meses, às vezes anos, e que despertarão, enfim, o interesse de alguém. Você não faz ideia, leitor, de que carrega na sacola, entre a livraria e a sua casa, uma legião de sonhadores, profissionais dedicados e orgulhosos por deixarem em cada página um pouquinho da sua própria história.

Comentários
  • Priscila Klopper

    Ah, que texto lindo, Andreia! <3
    Realmente, muita gente não se dá conta de todo o processo.
    E com tradução eu também percebo essa falta de informação… A pessoa não faz ideia do trabalho árduo haha.
    Que lindo ❤️

  • Shana Baltazar

    Que lindo!! Faz abrirmos nossas mentes e viajarmos em todo esse processo de construção. É, realmente não deve ser nada fácil. Obrigada por compartilhar isso conosco!

  • Natali Alvim

    Texto maravilhoso! Nunca tinha parado pra pensar em quantas mãos aquele livro recém comprado passou! Parabéns a esses profissionais tão dedicados!

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