Entrevistas

“Como conversar com um fascista”, de Marcia Tiburi

4 Comentários

Por Mariana Moreno

O crescimento de posturas autoritárias observadas no Brasil nos últimos tempos não deixam dúvidas de que a empatia- a capacidade de se colocar no lugar do outro- ainda permanece como um dos grandes desafios da humanidade. Convicta de que a mais básica abertura para uma conversa é impossibilitada quando os interlocutores estão fechados em seus pequenos universos, Marcia Tiburi evoca a filosofia e as ciências humanas para propor o diálogo como prática de não-violência no livro “Como conversar com um fascista”.

Seu livro chega às livrarias em um momento oportuno, em que observamos debates acalorados e os mais variados tipos de radicalismos de comportamento. Como e quando surgiu a ideia de escrevê-lo?

A mentalidade autoritária que está na origem dos fascismos históricos sempre fez parte dos meus estudos, das minhas aulas de filosofia, dos trabalhos acadêmicos em geral. Há bastante tempo que venho observando o afeto básico do autoritarismo, a saber, o ódio, como fenômeno social em nível cotidiano. Aquilo que os pensadores frankfurtianos chamavam de “personalidade autoritária”, o “fascista em potencial”, erguia-se sobre o ódio. A questão do autoritarismo perturba a todos aqueles que tem um senso de respeito ao outro e de responsabilidade com a sociedade democrática e os direitos fundamentais. O fascismo é o ódio ao outro – nas variadas formas de negação, repressão, recalque, esquecimento, preconceito, agressão, violência simbólica e física – transformado em norma política. Na verdade, essa norma deforma a política e gera uma espécie de fenômeno paradoxal, a antipolítica. As pessoas vivem a política hoje em dia num clima antipolítico que é justamente gerado pelo ódio. Mas o ódio não é um afeto natural. Ele é produzido e fomentado. Ele é incentivado sobretudo pelos meios de comunicação que poderiam incentivar outros afetos, como, por exemplo, o amor. Não o fazem por que o “amor”, como afeto produtor de relações positivas e criativas, neste momento, não seria tão útil para os fins do jogo de interesses econômico e político em vigência, ao qual damos o nome de capitalismo. Estamos perplexos com o avanço dos gestos e atitudes de negação do outro nos últimos tempos, justamente quando a crença geral era de que o Brasil vivia uma espécie de renovação na sua cultura política.

A ideia para escrever o livro vem dessa necessidade de refletir sobre essas questões em um momento em que o pensamento reflexivo e cuidadoso está em baixa. Nesse momento em que o diálogo parece impossível.

Podemos afirmar que todo fascista é um conservador, mas que um conservador não é necessariamente um fascista?  Você acredita que ocorre uma espécie de ligação arbitrária entre os conceitos?

No contexto atual, a carência de pensamento analítico e crítico é evidente. Estamos em um momento de notória inanição reflexiva. O empobrecimento do debate e o excesso de discursos sinalizam para um cancelamento do diálogo. É como se as pessoas não conseguissem conversar porque estão afogadas em ideias prontas que transitam na linguagem do dia a dia, sobretudo tendo em vista o atravessamento dos meios de comunicação de massa, da televisão à internet. Estamos submersos em discursos de propaganda, como se a reflexão tivesse sido devorada por uma espécie de lógica publicitária em que cada um fala para vender um peixe sem que se perceba que ele mesmo está podre. Em outras palavras, não há responsabilidade com o que se ouve e o que se diz. A política, neste cenário, foi rebaixada à propaganda, o conhecimento à informação, ela mesma transformada em mercadoria. O fundamentalismo religioso se mistura a política e se espalha pelo campo do senso comum, da mentalidade.

Vivemos um rebaixamento geral da linguagem. As pessoas não conversam entre si, elas xingam umas às outras como se uma autorização geral à guerra de todos contra todos pelos xingamento fosse algo natural e até desejável. Como nos autorizamos a essa guerra? No entanto, até mesmo a guerra verbal que poderia até ser rica, está transformada em mera gritaria. A intenção de vencer um debate sem precisar ter razão destrói a chance do diálogo. A gritaria avança no cenário em que se fala demais sem ter nada a dizer. O prazer atual está no poder de agredir transformado em padrão de comportamento: não pensar, falar bobagens como se fossem verdades incontestes, agir em nome dessas “verdades” impensadas, não analisadas, mas muito pretensiosamente expostas, eis nosso modo de ser atual. É como se vivêssemos o império da ignorância, mas ela se torna burrice quando assume um lugar de poder. Sair desse cenário implica um retorno ao diálogo, algo que não está sendo fácil, porque as pessoas estão excessivamente fechadas para a experiência com o outro.

As mulheres foram às ruas semana passada no Rio contra à aprovação na câmara do projeto de lei (PL) 5069/13, que modifica o atendimento às vitimas de violência sexual.  De que forma a Partida [projeto de partido criado pela autora feito por e para mulheres] pode contribuir para esta e outras causas das mulheres? Em que pé está a iniciativa?

Pensamos inicialmente em um partido feminista (não só de mulheres em sentido estrito, mas de feministas). No entanto, no debate que tem se desenvolvido entre feministas do Brasil todo, resolvemos nos manter como um “movimento” que funciona como partido. Ou seja, não sabemos se seremos um partido formal no futuro, mas sabemos que nosso ativismo visa “ocupar” o governo, empoderar e protagonizar feministas para os poderes, sobretudo o poder relacionado à governalidade. Incentivar filiações e apoiar candidaturas de feministas é a nossa meta. Nesse momento, chamamos o nosso movimento de #partidA e pretendemos com ele promover mudanças em nossa cultura política. A entrada das mulheres feministas nesse processo é já um ato revolucionário no melhor sentido desse termo. Mas nossa intenção é promover a ressignificação da política a partir da experiência cotidiana, promovendo uma espécie de democracia feminista que é a democracia com a mais próxima, uma democracia radical, capaz de colocar em cena a experiência política também para aquelas pessoas que nunca se ocuparam dela, ou foram dela excluídas num sistema de preconceito histórico que é o sistema da dominação masculina.

O feminismo também foi tema da redação do ENEM deste ano, o que gerou uma onda de debates nas redes sociais. A maior parte dos posts e comentários dos candidatos que não gostaram da escolha do tema revelaram posições preconceituosas e machistas. Como podemos então praticar o diálogo que você propõe no livro no ambiente da internet, no qual as pessoas parecem se sentir “protegidas” e se comportam de maneira cada vez mais descompensada?

O livro propõe o diálogo como um experimentum crucis. O diálogo é o cerne da filosofia. Não há filosofia sem diálogo. Se morre o diálogo, morre a filosofia, como pensamento que busca o conhecimento, busca que só acontece com o outro enquanto posição de diferença. Ao mesmo tempo, a tarefa história da filosofia é, a meu ver, colocar o diálogo dentro da sociedade. A filosofia se torna mais importante do que nunca como uma forma de ativismo. E o pensamento qualificado se torna urgente no clima de ódio ao outro. Mas o pensamento precisa do outro, sobrevive em contato com o outro. Sem o pensamento não temos política, temos apenas a antipolítica, que é a forma fascista, que estamos experimentando. O que precisamos perceber é que vivemos um momento de intenso sofrimento político. Podemos até falar em depressão política. Escapar disso só será possível se resistirmos, e, neste momento em que a experiência da linguagem tem empobrecido a experiência política, dialogar é a única saída para quem não quiser sucumbir subjetivamente ao fascismo. Além disso, é pelo diálogo que aprendemos a nos movimentar, a fazer política. O diálogo é o cerne de toda criação política verdadeiramente democrática.  A proposta do livro é colocar as pessoas no clima do diálogo, devolvê-las ao pensamento, devolvê-las a si mesmas no melhor sentido de resgate da alienação geral pelos discursos prontos.

Comentários
  • Lixo!
    Fracasso de venda bancado pela quadrilha do PT.
    .

  • morte ao PT

    Texto nao avança além do mero proselitismo maniqueista dos discursos de esquerda!Fraquíssimo.

  • marciosandy

    Osvaldo Aires Baden = fascist detected

  • Mauro Julio Vieira

    O título da obra já desqualifica-a . Fosse “como conversar com as pessoas” seria aceitável. Contudo a autora do delito, quero dizer , do livro, o comete pelo preconceito

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