Prata da Casa

O Discworld do nosso mundo

4 Comentários

Por Bruno Alves 

Sir  Terry Pratchett era um escritor de mente afiada e mãos ágeis. Em 47 anos de carreira — trágica e prematuramente encerrada pelo Alzheimer que lhe acometeu nos últimos anos e lhe tirou a vida no começo de 2015 —, o britânico foi responsável por colocar no papel e na mente das pessoas mais de 50 livros, 40 dos quais ambientados em Discworld, um mundo fantástico, plano, que navega pelo espaço nas costas de quatro elefantes, que, por sua vez, se erguem sobre uma tartaruga gigante.

Com tom satírico e esbanjando bom humor — características que já fizeram sua série ser comparada a O Guia do Mochileiro das Galáxias —, Pratchett faz de seu Discworld um espelho em que podemos ver refletidos nossos próprios dilemas e particularidades. Temos magos, trolls e anões, mas sem deixar de lado as burocracias ineficientes, patrícios bonachões e a geniosidade humana que faz de nossa própria realidade algo tão singular.

É se afastando do mundo e fazendo dele algo especial, cômico e diferente, afinal, que Pratchett pinta um retrato honesto daquilo que somos.

Em Pequenos Deuses, publicado pela Bertrand Brasil no primeiro semestre de 2015, somos apresentados a uma teocracia que aponta os dilemas enfrentados pelas grandes religiões institucionalizadas. No livro, o deus Om, divindade principal da grande nação Omnia, descobre, ao tentar encarnar na terra para caminhar entre os mortais, que está privado de seus poderes. Vê-se, então, convertido em uma pequena tartaruga. Acontece que o poder dos deuses em Discworld é proporcional à crença de seus fiéis, e a religião de Omnia cresceu para se tornar de tal forma dogmática e tirânica que os omnianos deixaram de acreditar em Om para acreditar em — ou melhor, temer — coisas bem concretas que a Quisição (a Santa Inquisição de Omnia) poderia fazer com os acusados de heresia…

Cabe a Om encontrar seu último verdadeiro crente, o inofensivo e um tanto tapado Irmão Brutha, para transformá-lo em alguém que poderá trazer as pessoas de volta ao caminho da divindade; não da instituição que se desenvolveu atrás dela. Tudo isso, é claro, ao mesmo tempo em que tenta impedir a Quisição de começar uma guerra santa contra um país vizinho.

Agora, nesse fim de ano, tem mais Discworld vindo por aí. Em Lordes e Damas, acompanhamos o choque de gerações conforme as bruxas sábias (e rabugentas) do longínquo e diminuto reino de Lancre, versadas em suas poções, conhecimentos da terra e das mentes das pessoas, têm de lidar com uma nova leva de aspirantes a feiticeiras com suas invenções mais estapafúrdias. Astrologia? Cristais? Dançar sem roupa ao redor de círculos de pedra? Tudo isso não passa de charlatanismo para Vovó Weatherwax, que acredita em uma bruxaria mais “tradicional”.

Mas como toda nova geração, as jovens bruxas, em particular sua líder, acreditam estar descobrindo um mundo novo — estão determinadas a injetar novidade nas artes mágicas de Lancre. E este comportamento deixa de ser inofensivo quando, acidentalmente, abrem-se as portas desse mundo para uma invasão de elfos… que, ao contrário do imaginário popular do reino, podem sequestrar seus filhos e cortar sua garganta sem pensar duas vezes. E com todo o reino reunido para o casamento de seu novo monarca, esse sonho de uma noite de verão pode rapidamente se transformar em pesadelo.

Pratchett, aqui, deixa os relacionamentos falarem por si mesmos, criando um divertidíssimo retrato humano que, por baixo de seu humor, trata de temas como escolhas de vida, maturidade, mudanças de época e… além de tudo, invasões de elfos.

Lordes e Damas chega em breve às livrarias. Não deixe de conferir a sagacidade ácida e cômica de Terry Pratchett, que até este ano pôde nos brindar com mais uma dose de seu gênio.

Comentários
  • Marcio Corrêa

    A editora pretende lançar os primeiros livros da saga?

    • Lyo de Valois

      Também estou interessado, na verdade quero começar minha coleção dos livros e estou tendo dificuldade de achar, se puderem lançar com as novas versões colecionaveis para fãs seria otimo.

  • Wesley Butakun

    É sério que vocês utilizarão “Vovó Weatherwax” ao invés de “Vovó Cera do Tempo”? Que absurdo! =(

  • mario nagamura

    Muito boa a iniciativa da Bertrand. Só não cometam o mesmo erro da Conrad. tirem Discworld da prateleira infanto juvenil. É uma sátira de mundos de fantasia, foi best-seller no reino unido por anos consecutivos, publico alvo adulto!

    Criancas nao tem a bagagem necessaria pra entender as piadas. Coloquem na prateleira ao lado do George Martin.

    Mantenham na infanto juvenil só as séries explicitamente dedicadas a criancas, como da Tiffany, fabuloso Maurício, etc…

    Sou tão interessado quanto vocês em aumentar as vendas, quero terminar a coleção.

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