Entrevistas

“Desesterro”, de Sheyla Smanioto

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Por Henrique Rodrigues

 

sheylaNas cidades fictícias de Vila Marta e Vilaboinha, o cenário de pobreza deixa na pele de Maria de Fátima, personagem principal, as marcas das gerações que se sucederam em um universo duro e de fome. Romance de estreia de Sheyla Smanioto, Desesterro é vencedor do Prêmio SESC de Literatura na categoria romance. O livro será lançado amanhã na ABL, a partir das 17:30.

Desesterro é um romance de imensa força dramática, como se colocasse um megafone para que pessoas que muitas vezes não têm voz gritem para a sociedade. O que te motivou a escolher essa temática?

Eu não conseguiria dedicar tanto tempo a algo que não me comovesse fisicamente. É uma espécie de herança, uma memória ancestral, familiar. Sobrou em mim o instinto, o medo. Eu brigaria na rua por qualquer um desses temas. Fico puta. Exaltada mesmo. Escrevo exaltada. Minha musa é, no mínimo, barraqueira. Sou apaixonada pelos gêneros tragédia e terror, sentia que eles tinham algo em comum, algo que poderia me ajudar a trazer ao romance não apenas os temas, mas a paixão, o susto, a raiva (o instinto). Desde o começo, queria fazer um romance para se ler com o corpo inteiro. Como efeito do texto. Urgente, capaz de surpreender o leitor. Não à toa estudei a relação entre possessão e escrita no mestrado, é algo que me toca. Desesterro é um experimento, de certa forma.

O romance foi descoberto pelo Prêmio Sesc de Literatura, o mais importante concurso para autores inéditos no país. Como foi receber a notícia? Já havia lido outros vencedores?

FOI DEMAIS! Eu acompanhava o Prêmio Sesc desde 2008, quando entrei na faculdade e comecei a ter um contato maior com a literatura contemporânea. Li vários dos vencedores, e por conta disso ganhar teve um gostinho todo especial. Mandei uma versão preliminar do romance na edição anterior do Prêmio, passou pela pré-seleção e isso me deu o maior gás. Foi aí que resolvi fazer a oficina do Marcelino Freire, decisiva em vários sentidos. De alguma forma, eu sempre me senti atraída pelo Prêmio por conta do que ele proporciona ao livro de autor iniciante, anônimo e, no meu caso, que não conhecia os meandros do mercado editorial. Já recomendava antes de ganhar, imagina agora?!

Você construiu personagens femininas fortes. E exatamente nesses dias vemos manifestações em torno do direitos das mulheres. De que forma a literatura seria um canal para dar voz a essas demandas sociais tão urgentes, especialmente na sociedade brasileira?

A gente usa a língua para se safar. Veja: o tema da redação do Enem foi a violência contra a mulher. Maravilha, comemoramos. Surgem memes, claro, e alguns deles são sobre os machistas terem a prova anulada. Daí um médico residente posta assim: “Acha que eu não mentiria para virar médico e ter sua vida hipócrita na minha mão?”. Por conta da pressão ele se “desculpa” dizendo que as palavras dele “ocasionaram” uma interpretação, “desculpa por qualquer interpretação”, ele diz. O caso é emblemático, claro, mas e no dia a dia, quantas vezes nos safamos dizendo que “não foi a intenção”? É um mecanismo da língua, está disponível, nós usamos. Há outros, claro, milhares (não usamos a expressão “personagens masculinas fortes”, por exemplo). A gente diz o que quer dizer e depois diz que o problema foi a interpretação de quem leu, diz que foi uma brincadeira ou que “não teve a intenção de ofender”. Aliás, é por isso que meus personagens gritam (devia ter respondido isso na primeira pergunta). Na internet temos um movimento forte na direção de evidenciar alguns desses mecanismos, questionando termos e expressões usadas no dia a dia e o que elas implicam. Mas, gente, estamos falando de desautomatizar a língua!
Cavar a língua, buscar o que ela diz dentro do que achamos que está dizendo, pensá-la em camadas, encontrar a “história de vida” de cada palavra, de cada estrutura, para mim não tem nada mais literário do que isso. Nossos preconceitos estão lá, no estômago da linguagem. Nossos instintos, nosso desespero. Está tudo lá, mas só sai com vontade e ânsia. Para mim, literatura é trazer isso tudo para a vida. E precisa ser urgente!

Embora seja bem nova, você já tem experiência com poesia, teatro e vídeo. Como a sua literatura dialoga com essas manifestações? Agora com o lançamento do romance você vai se dedicar mais especificamente à literatura ou pretende manter o aspecto multi e transmídia das suas produções?

A literatura é o meu projeto de vida. Ela já me salvou algumas vezes, talvez me salve todos os dias. Tanto que meus trabalhos com vídeo sempre têm algo a ver com literatura. A relação com o teatro tem algo especial, o teatro me ensinou a viver no presente e eu precisava muito disso. O Desesterro tem coro, foi trabalhado a partir de cenas centrais, tem “reconhecimento”, “peripécia”, etc. No final do dia, tudo é ensaio e o palco mesmo, onde eu dou sangue se for preciso, é escrevendo. Apesar de ter escolhido uma metáfora bastante dramática para dizer isso.

Comentários
  • Cadu

    Acabo de sair da leitura de « Desesterro » Um misto de medo revolta indignação e catarse. Um grande livro.

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