Entrevistas

“Os machões dançaram”, de Xico Sá

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Por Simone Magno

Em Os machões dançaram – Crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões, novo lançamento da editora Record, o escritor e jornalista Xico Sá faz uma reflexão sobre como eles andam encarando os relacionamentos em tempos de internet, em que até um perdido fica mais difícil porque não há como se esconder. Mas é uma reflexão com o humor peculiar que os leitores reconhecem também da telinha, em programas como Amor & sexo e Papo de segunda. “Há sempre uma crônica pronta em qualquer esquina, basta ir lá e pegar o tema”, diz ele. Ouvindo histórias nos bares e nas ruas, Xico Sá decreta que as feministas não querem que os homens sejam cavalheiros, que uma canção triste na madrugada é sempre uma biografia não autorizada e que o fim do amor dá mais trabalho do que fazer o mundo em sete dias.

O livro, que encerra a trilogia Modos de macho & modinhas de fêmea, é dividido em quatro partes: Os tipinhos de homens; Os quereres e os malquereres das mulheres; Quando um homem ama uma mulher; e Estou num relacionamento “fala sério”. Assim como se encanta com uma calcinha molhada pendurada no chuveiro, Xico Sá é capaz de explicar as particularidades da jurubeba (a bebida) nos mesmos moldes que um enochato esmiúça a qualidade de um vinho. As crônicas fazem um retrato divertido e irreverente do momento em que vivemos. “O machão mais à moda antiga está perdido no mato sem cachorro e sem GPS, não acerta sequer o caminho de casa – aliás, se conseguir voltar para o lar será surpreendido com um outro homem, de certa forma mais moderno e sensível, que o substituiu”, afirma ele.

É verdade que você recicla suas crônicas?

Reescrevo, reinvento a crônica inteira a partir de uma frase, faço versões revistas e ampliadas e algumas são transformadas em um simples haicai ou filosofia de parachoque de caminhão. É um exercício diário, parece uma brincadeira, mas dá muito trabalho tentar melhorar a escrita. Aprendi reciclagem na escola Nelson Rodrigues. Este gênio era capaz de usar uma mesma frase numa crônica esportiva e em uma tragédia do teatro ao mesmo tempo. As frases viram mantras circulam por vários textos ao mesmo tempo. O que poderia ser apenas uma repetição preguiçosa passa a ser um luxo da criação. O Balzac também era craque nisso.

Como você escolhe o tema do que vai escrever? Há mesmo textos vindos de histórias de leitores, como você conta?

Além da coluna no El País, tem a crônica televisiva do GNT e outras de encomenda de vários veículos e editoras. Escrevo em média umas duas por dia. Haja assunto. Além de ser alimentado pelos leitores (essencialmente leitoras!), colho muitas histórias em bares – os garçons são ótimas fontes de narrativas – e nas minhas andanças pela cidade. Há sempre uma crônica pronta em qualquer esquina, basta ir lá e pegar o tema.

Essa onda de politicamente correto e o conservadorismo que estamos vendo neste momento atrapalham ou ajudam?

A patrulha sempre atrapalha. Essa onda conservadora nos costumes é um horror. Agora o Estado quer até definir o que é uma família pra gente. Vínhamos avançando tanto nesse aspecto, mas agora a lei é voltar aos tempos medievais. Como a história é feita por ciclos, espero que esse passe voando. Enquanto não passa, transformamos as aberrações em crônicas de humor e sátiras.

E a TV? O que mudou como escritor com o fato de você ter ficado muito conhecido na telinha? 

Sou o homem mais tímido da TV brasileira, mas estou vencendo essa timidez (rs). No começo me chateava um pouco, depois de muitos anos como cronista, depois de ter escrito vários livros, ser reconhecido em um bar como “aquele cara engraçado da TV” (rs). Com o tempo, isso mudou. Tenho uma legião de leitores que se interessaram pelos meus livros a partir do papo na televisão. Isso é ótimo. Que continue assim.

Você usa muitas referências, Nelson Rodrigues, Leonard Cohen, Antonio Maria (seu padrinho sentimental)… Qual foi a importância deles para sua formação?

Somos nossos livros e discos, de certa maneira. A minha crônica reflete isso. Não posso falar de dor de amor, por exemplo, sem citar um Odair José, um Waldick Soriano, um Chico Buarque, um Leonard Cohen – eles são os mestres nessa arte. Sou o rei da citação, curto fazer essa escrita sampleada, cheia de vozes e de mantras. Aí vale do erudito ao popular, não faço distinção entre esses segmentos. O que vale é a sabedoria que tem em cada verso, cada frase.

Seu livro fala dessa mudança de costumes que veio com a internet, os sites de relacionamento, as conversas por mensagem… É um mundo novo para os relacionamentos? Para o escritor, é matéria literária. Como homem, você se adaptou bem?

É uma época muito rica nesse sentido. O amor e o sexo continuam os mesmos do homem da caverna, mas com uma riqueza de facilidades para o encontro, a comunicação, a aproximação entre os amantes ou simplesmente os tarados de plantão. Do primeiro livro dessa trilogia da editora Record (Modos de Macho & modinhas de fêmea, 2003) para cá mudou muito. Nesse volume inicial, temos apenas a inocente sacanagem das salas de bate papo etc. Em “Os machões dançaram” há toda essa oferta dos aplicativos, o Tinder, a coisa objetivíssima no mercado do sexo. Vejo toda essa fartura como uma bênção para um cronista de costumes. Tento aproveitar o máximo de todas essas novidades como tema. O máximo que posso me coloco também como personagem que usufrui dessa modernidade toda. É prazeroso, embora sempre me pegue nostálgico, em outras palavras, muito romântico.

Por outro lado, os tipos de homem, a forma de sofrer, isso não muda nunca?

Sim, a dor de amor, a traição, o sofrimento continuam os mesmos dos tempos dos nossos pais. Desde Shakespeare, o Nelson Rodrigues dos gringos, até hoje.

Expressões como relacionamento “fala sério”, rolinho primavera e Carençolândia são criações suas ou coisas que você vem ouvindo por aí?

São brincadeiras minhas, amo tirar essa onda, inventar termos, como macho-jurubeba (homem à moda antiga) ou macho-buquê – os arrogantes adoradores de vinho, aqueles caras que cheiram a rolha etc. Mas também recolho muitas expressões que escuto, sou um colecionador dessas pérolas. Sempre que posso, dou crédito às fontes murmurantes e originais.

Afinal, os machões dançaram?

Dançaram bonitinho. O machão mais à moda antiga está perdido no mato sem cachorro e sem GPS, não acerta sequer o caminho de casa – aliás, se conseguir voltar para o lar será surpreendido com um outro homem, de certa forma mais moderno e sensível, que o substituiu. O título do livro é uma brincadeira com Os machões não dançam, romance do Norman Mailer, um escritor-jornalista de quem gosto muito.

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