Dica de leitura

Sempre teremos Paris

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PARIS É UMA FESTA (Bertrand Brasil)

capa_nova_paris_e_uma_festaAssim como em Meia noite em Paris, longa de Woody Allen que nos transporta para a cidade luz na década de 20, em Paris é uma festa (Bertrand Brasil) também somos convidados a fazer este passeio, mas na companhia ilustre do escritor americano Ernest Hemingway. Refúgio de escritores e artistas de todo o mundo que lotavam as ruas, cafés e restaurantes, a cidade exercia fascínio não apenas sobre celebridades consagradas, mas também naquelas em potencial.  Este era o caso de Hemingway naquela época. Jovem e com pouco dinheiro, o escritor tinha acabado de desistir da carreira como jornalista para se dedicar exclusivamente à literatura.

Em Paris é uma festa, percorremos parte da juventude de Hemingway em uma prosa leve e descompromissada, que fala sobre amizade, amor e produção literária, sem deixar de lado as melancolias e adversidades.  O escritor compartilha minúcias de suas relações interpessoais, estabelecendo uma espécie de cumplicidade com os leitores. Acompanhamos os debates na casa da escritora Gertrude Stein e o estranho distanciamento dos dois, as tardes na livraria e biblioteca “Shakespeare and Company”, de Sylvia Beach, a amizade com o polêmico Ezra Pound e a relação amistosa e por vezes confusa com o escritor F. Scott Fitzgerald, que fez questão de pedir a Hemingway suas impressões sobre O Grande Gatsby.

O livro também nos revela que foi neste período em Paris que o escritor descobriu a literatura russa e leu pela primeira vez Tolstói e Dostoievski. Este, na opinião de Hemingway, escrevia incrivelmente mal, mas ainda assim conseguia transmitir profunda emoção aos leitores.

No retrato saudosista de Hemingway sobre Paris, até mesmo a fome, que o obrigava a enganar a mulher inventando que recebera convites para almoçar fora, tinha as suas vantagens: “A falta de uma refeição sólida nos dá uma fome tremenda. Em contrapartida, nosso sentido de percepção se aguça, e eu descobri que muitos dos meus personagens tinham apetite formidável, uma grande paixão pelas corridas e viviam procurando oportunidade para tomar uma bebida”.

Trecho:

Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos  regressando. Paris vale sempre a pena e retribui tudo aquilo que você lhe dê. Mas, neste, livro, quis retratar a Paris dos meus primeiros tempos, quando éramos muito pobres e muito felizes”

MINHA PARIS, MINHA MEMÓRIA (Bertrand Brasil)

9788528617795.Celebrado no mundo inteiro, o filósofo e sociólogo Edgar Morin recebeu, em junho de 2012, das mãos do prefeito Bertrand Delanoë, a Médaille de Vermeil, que o homenageava como ilustre cidadão parisiense. Enquanto pronunciava seu discurso de agradecimento, relembrando a intensa relação com a cidade, Morin teve pela primeira vez o desejo de escrever uma autobiografia. Assim nasceu Minha Paris, minha memória, obra que, para além de detalhar momentos definitivos da vida do autor, visita boa parte da história da moderna capital francesa. A partir do olhar poético de Morin, surgem então pequenas cenas cotidianas do lugar e grandes cenas da história da Europa.

O autor conhece cada detalhe da história, da geografia e da cultura parisiense. Os principais eventos da vida do filósofo tiveram Paris como palco e, muitas vezes, também como protagonista. Na praça Martin-Nadaud, ao lado do cemitério de Père-Lachaise, ele tomou conhecimento, ainda criança, da morte da mãe. Na pequena colina de Buttes-Chaumont, deu os primeiros beijos. Os cinemas de Ménilmontant, Pigalle e Clichy moldaram seu amor pela sétima arte. No Louvre, descobriu o Renascimento e se apaixonou por uma pequena bailarina de Degas. A escola, as greves, as ruas, os cafés, a literatura, os jornais lhe deram consciência política. “A Paris da minha infância foi absorvida, tragada, eu diria mesmo abolida na Paris de hoje”, afirma o autor no epílogo da obra. “Mas continua viva na minha alma a Paris dos meus passeios, a Paris do meu coração, que bateu nas Buttes-Chaumont e em tantos quartos de amor isolados ou em sótãos – a Paris das minhas amadas mortas e dos meus amigos mortos que continuam e continuarão vivos enquanto me restar um sopro de vida”.

Para além de recuperar momentos pessoais como esses, Minha Paris, minha memória ajuda os leitores a compreender os caminhos da formação intelectual de Morin e os convida a observar de perto a cena cultural parisiense das últimas décadas – da qual o autor participou ativamente, junto com amigos e conhecidos como Marguerite Duras, Raymond Queneau, Albert Camus, Maurice Merleau-Ponty, Jacques Lacan e tantos outros. A obra apresenta também um panorama de vários momentos-chaves da história de Paris, da França e da Europa, como a Ocupação, os movimentos de resistência, o fim da guerra e as passeatas de Maio de 68. Sobre o autor

Edgar Morin é mais do que filósofo e sociólogo. É, acima de tudo, um pensador, com mais de 30 livros publicados, que adora fazer travessias por todos os campos do saber; um eterno estudante e um pesquisador aberto a todas as influências. Minha Paris, minha memória é seu décimo quinto livro publicado pela Bertrand Brasil.

Epílogo:

As grandes cidades cosmopolitas do Mediterrâneo estão mortas: Alexandria, Istambul, Salônica. Grandes cidades cosmopolitas se desenvolveram nas Américas, justapondo e às vezes misturando aos autóctones imigrantes de todas as regiões da Europa, como nos países andinos, e aos afro-americanos descendentes de escravos, como no Brasil e nos Estados Unidos. Paris tornou-se uma cidade neocosmopolita, e não mais apenas com os antigos imigrantes da Rússia, da Polônia, do Levante, da Armênia, nem apenas com a boemia de Montparnasse, a boemia dos Picasso, dos Modigliani, dos Soutine, dos Lênin ou de escritores americanos como Henry Miller, mas já agora como africanos, magrebinos, vietnamitas, chineses, para não falar de ricos italianos, ingleses, russos e outros que nela compraram um pied-a-terre. Mas, ao contrário das cidades americanas cujo passado pré-colombiano foi abolido, Paris continua enraizada num passado bimilenar que comporta Lutécia e a capital de Filipe Augusto apertada em suas muralhas, sem esquecer as raras casas medievais (a maioria foi destruída pela haussmanização), as poucas mansões do século XVI, mas sobretudo os testemunhos do esplendor do Grande Século, como o Louvre e os palacetes aristocráticos do Marais, reformados internamente e reconstituídos em seu exterior. Paris traz em si uma história ardente desde Étienne Marcel, a Fronda, a Revolução de 1789, o Império, as jornadas revolucionárias de 1830 e 1848, a Comuna… até a insurreição de agosto de 1944 e a Comuna estudantil de Maio de 68. Paris mergulha verticalmente num passado gaulês, romano, franco, cristão, mas também numa história patética feita de desastres, salvações, voltas por cima, invasões, como durante a Guerra dos Cem Anos, na qual a cidade foi ocupada pelos ingleses, as derrotas de 1815, em que foi ocupada pelos russos, as ameaças de 1914, o desastre de 1944, em que foi ocupada pelos alemães, sendo a cada vez ressuscitada ou protegida por salvadores: Joana D’Arc, Filipe Augusto em Bouvines, Dumouriez em Valmy, Joffre et Foch em 1914-18, e enfim De Gaulle. Eu, o filho de imigrantes que incorporou essa história de um paíscujo destino sempre é traçado em Paris, sinto-me histórica e contemporaneamente parisiense. Tampouco ignoro que a grande maioria dos parisienses, a partir dos desenvolvimentos urbanos da capital, são provinciais que trouxeram com eles toda a pluriculturalidade francesa: do Languedoc, da região basca, da Savoia, da Borgonha, de Auvergne, da Alsácia, da Bretanha etc. Paris prussianizou toda a diversidade étnico-cultural da França. Não sei se a escola será novamente capaz de permitir que os filos da imigração africana, magrebina, caribenha ou asiática integrem Paris ao se incorporarem à França. Mas a forte cultura parisiense já impregna esses imigrantes. Um dia, num táxi, o motorista africano me disse, falando não me lembro mais de quem: “Pois eu quero mais é que esse sujeito se…!” E eu pensei, encantado: “Aí está, ele já é dos nossos!” O bar do bistrô parisiense continua firme, e esses lugares onde se brinda e se conversa são autênticos microfóruns da cultura parisiense.

É bem verdade que a Paris da diversidade também é uma Paris da segregação. A antiga polarização Oeste/Leste entre as classes abastadas e as classes populares foi substituída ou acrescida de uma nova segregação: o antigo povo operário foi relegado ao subúrbio, e em alguns deles se amontoou um novo proletariado de imigrantes e descendentes de imigrantes. A rejeição de que são vítimas os leva a rejeitar a sociedade que os rejeita. À falta de uma política humana da criança e da adolescência, a delinquência infantil e juvenil aumenta. Paris de fato é, como diz a velha canção que meu pai cantava, “cidade infame e maravilhosa”! Da mesma forma, Paris é ao mesmo tempo Cidade Luz e cidade tentacular. Entretanto, apesar da energia que irradia, Paris não é, como Nova York, Tóquio ou Teerã, uma cidade que nunca dorme, dia e noite em ação. À parte Pigalle e algumas ilhas de sonambulismo, a cidade dorme à noite, o metrô para, as estações ferroviárias são fechadas, assim como os aeroportos. A metrópole adormece para despertar, espreguiçar-se e se expandir poderosamente pela manhã. Tanto rostos diversos de Paris se me apresentam, tantos encantamentos e desencantos habitam minhas lembranças! Tanta poesia e tanta prosa! Eu conheci Paris na alegria, conheci Paris na fé, conheci Paris na emoção, conheci Paris no desespero! Constantemente pedaços de Paris estão morrendo sob os golpes dos demolidores ou por perda de seiva; e constantemente pedaços de Paris nascem, como Bercy, ou renascem com nova vida, como o faubourg Saint-Antoine, a rue Oberkampf… Alguns perderam a vitalidade por turistificação ou museificação, e mesmo por colonização de bairros outrora populares e populosos por parte de uma burguesia caseira. Paname!* Essa designação que dava a Paris uma alma, uma amizade, uma familiaridade, desapareceu do nosso horizonte e da nossa fala. * Nome familiar dado a Paris e seus subúrbios no início do século XX, quando os parisienses adotaram o chapéu-panamá, usado pelos operários que então abriam o canal no país homônimo da América Central. (N. T.)

Da mesma forma, já não se diz muito “Cidade Luz”, embora a capital continue às vezes a deslumbrar. Também desapareceu o “titi”* parisiense, que fazia blagues e comentários insolentes nos ajuntamentos e cujas invenções linguísticas enriqueciam o jargão parisiense. Este foi recoberto por um novo jargão cosmopolita. A Paris da minha infância foi absorvida, tragada, eu diria mesmo abolida na Paris de hoje. Mas continua viva na minha alma a Paris dos meus passeios, a Paris do meu coração, que bateu nas Buttes-Chaumont e em tantos quartos de amor isolados ou em sótãos — a Paris das minhas amadas mortas e dos meus amigos mortos que continuam e continuarão vivos enquanto me restar um sopro de vida. Finalmente, voltando mentalmente ao lugar onde nasceu este livro, no discurso pronunciado no Hôtel de Ville, onde o prefeito Bertrand Delanoë me homenageou como cidadão de Paris, eu vejo de novo aquela praça onde, numa madrugada de agosto de 1944, depois de uma semana de insurreição, encontramos nossos libertadores com o rosto em lágrimas como nós que vínhamos comemorar sua chegada tão esperada. E é a epopeia de Paris, pequena ilha no Sena, que ao longo dos séculos se transformou num ser coletivo ardente e poderoso, nutrindo-se da  vida dos seus como eles se nutrem da vida de sua cidade, é este ser que, nos altos e baixos de sua história bimilenar, foi capaz de mandar para o mundo, em certos momentos extraordinários, a mensagem inconscientemente carregada pelo gênero humano ao longo dos milênios e que, de repente, chega às vezes à sua consciência, aqui e ali, especialmente em Paris, a mensagem de sua aspiração por outra vida. Uma vida de liberdade, de igualdade, de fraternidade!

Paris, novembro de 2012

PARIS NÃO ACABA NUNCA (Best Bolso)

Paris nao acaba FolhetoLançado originalmente em 1979, Paris não acaba nunca foi traduzido para o francês, o inglês e o chinês por oferecer o que nenhum guia turístico oferece: a poesia da cidade. Na Paris de Betty Milan, circulam escritores como Hemingway, Joyce ou Fitzgerald, e, com eles, o leitor anda pelos diferentes quarteirões e pelas margens do Sena. Vê o desabrochar da primavera e as árvores amarelo-ocre do outono, senta-se nas praças e nos bares para tomar um bordeaux ou um beaujolais. Romancista, dramaturga e psicanalista, Betty Milan mostra neste livro, escrito sem maiúscula nem ponto final, que basta se perder na cidade para descobri-la, e, a cada passo, é possível se surpreender.

Autora de romances, ensaios, crônicas e peças de teatro, Betty Milan têm obras publicadas na França, Argentina e China. Colaborou nos principais jornais brasileiros e foi colunista da Folha de São Paulo e da Veja. Trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado em Estrasburgo, na França. Em março de 1998, foi convidada de honra do Salão do Livro de Paris, cujo tema era o Brasil. Antes de se tornar escritora, formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo e especializou-se em psicanálise na França com Jacques Lacan.

Capítulo 8: Uma cidade que consagra os escritores

Paris ama os escritores e perpetua de várias formas a sua memória: consagrando-lhes museus, dando seus nomes às ruas, esculpindo-os, indicando com placas as suas residências e os enterrando no Panthéon

a casa que foi de Balzac de 1840 a 1847 transformou-se no Museu Balzac, onde manuscritos, cartas, quadros em que ele aparece e seus objetos pessoais estão à mostra

o apartamento da Place des Vosges, onde Victor Hugo escreveu “Os miseráveis” e recebia Balzac, entre outros grandes artistas, foi transformado num museu que retraça o percurso do poeta e romancista desde seu nascimento até o Panthéon e exibe 300 dos seus mil desenhos, além de várias das ilustrações existentes para “Notre-Dame de Paris”

 há museus para os escritores consagrados e ruas com seus nomes: Rue Corneille, Rue Racine, Rue Molière, Boulevard Diderot, Quai Voltaire…

na frente da Sorbonne, Montaigne, esculpido em bronze, senta-se de braços e pernas cruzados, um livro fechado na mão e o olhar de quem medita, tão indiferente a quem passa quanto ao batom que, ano após ano, os estudantes do Quartier Latin lhe põem nos lábios

quem olha detidamente para a estátua não pode deixar de ler na sua base a declaração de amor que Montaigne faz a Paris: “Só sou francês por causa desta grande cidade”

no Museu Rodin, Paris reverencia Balzac com uma escultura em que o escritor, pelo olhar e pela postura, parece entregue à reflexão e inteiramente alheio aos circundantes, simbolizando o próprio ato da criação

Victor Hugo, além do museu que lhe é próprio, também tem, no Museu Rodin, uma escultura surpreendente

obras de arte para glorificar os escritores, mas ainda placas indicativas do lugar onde trabalharam e viveram

no número 17 da Rue Visconti, lê-se que Balzac aí estabeleceu a sua gráfica no número 30 da Rue du Dragon, que Victor Hugo aí morou em 1821

uma proporção considerável das placas parisienses diz respeito, aliás, aos literatos, tanto franceses quanto estrangeiros que viveram em Paris, como, por exemplo, Oscar Wilde (Rue des Beaux-Arts)

entre as placas, algumas são tocantes; é o caso da que evoca Robert Desnos, o poeta francês preso pela Gestapo e deportado para o campo de concentração: “Morreu por amar a liberdade, o progresso e a justiça” (Rue Mazarine)

a cidade não cessa de relembrar essas vidas no seu espaço e as relembra ainda no espaço fechado do Panthéon, onde estão enterrados Rousseau, Voltaire, Victor Hugo e Émile Zola

Paris imortaliza os escritores para se imortalizar e, à sua maneira, mostra o quão irrisório é o sucesso produzido pela mídia quando comparado à glória que eterniza o sucesso, cria

condições para este se tornar perenemente atual

o sucesso é uma produção da cultura americana moderna, já a glória é uma produção da cultura francesa aristocrática – aquele tende a ser passageiro, não implica a memória e precisa ser incessantemente conquistado; esta se quer eterna, é sinônimo de rememoração e é alcançada de uma vez por todas, nasce da luta do homem contra o Tempo, é a sua vitória imaginária sobre a morte

o escritor que Paris consagra é tão intocável quanto a cidade, que o patrimônio histórico não deixa modificar Henry Miller escreveu com razão em “Dias tranquilos em Clichy” que o respeito dos franceses pelo escritor é tamanho que ele nunca será considerado um criminoso comum

por isso talvez Oswald de Andrade tenha escrito num de seus poemas que voltava ao Brasil contrabandeando saudade de Paris

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