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“Memória afetiva do botequim carioca”, de Paulo Thiago de Mello e Zé Octávio Sebadelhe

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Com apresentação do jornalista Sérgio Cabral e do cantor e compositor Aldir Blanc, notórios boêmios, Memória afetiva do botequim carioca  traz textos sobre as origens e os aspectos dos botequins, incluindo seu mobiliário e arquitetura, bem como um panorama da história da bebida alcoólica no Brasil. São muitas também as histórias e anedotas sobre os seus personagens, famosos e anônimos, que retratam o espírito e a alma do carioca.

A boemia de Ipanema, a fossa de Copacabana, o rock da Tijuca, o samba e a bossa nova do Centro: foram muitos os encontros musicais, literários e políticos que se deram nos botequins. Do Café Nice, frequentado por Noel Rosa, Pixinguinha, Francisco Alves e Aracy de Almeida, ao Zicartola, que viu surgir Paulinho da Viola; do “Suvaco” de cobra, reduto do choro na região da Leopoldina e onde Joel Nascimento iniciou sua carreira, ao Antonio’s, point de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, passando pelo Divino, onde Roberto e Erasmo Carlos se tornaram amigos de fé e irmãos camaradas.

Com traços portugueses, espanhóis e parisienses, os botequins cariocas incorporaram tradições estrangeiras e sofreram influência das ondas políticas. Alguns, como o Bar Luiz, de donos alemães, precisaram mudar de nome depois da Segunda Guerra Mundial. Outros se tornaram referência para discussões políticas, após o fim da ditadura no Brasil, como o Barbas, que promovia debates entre candidatos ao governo do Rio na década de 80 e até um disputado ciclo sobre psicanálise.

Escrito por Paulo Thiago de Mello e Zé Octávio Sebadelhe, o livro é produzido por Leo Feijó, fundador de 10 bares e casas de show no Rio de Janeiro e diretor do Sindicato de Bares e Restaurantes da cidade; com pesquisa de Flávio Silveira, especialista em memória urbana e integrante da equipe do “Rio Botequim”; e com gestão de Aline Brufato, sócia do Bar Semente. Memória afetiva do botequim carioca faz parte da biblioteca RIO 450 de livros selecionados pela prefeitura para a comemoração do aniversário da cidade. Editada pela José Olympio, a obra chega às livrarias em dezembro.

 

 

PREFÁCIO

Por Sérgio Cabral

O título desta obra poderia, perfeitamente, ser O nosso segundo lar. Afinal, o que representaram para mim botecos como o Bar Luiz, o Antonio’s, senão uma extensão do meu quarto e da minha cozinha? Na verdade, não sei se eu seria este cara que escreve estas coisas se não carregasse uma história vivida nas mesas de bar. Quem eu seria se não estivesse envolvido profundamente — sem exagero, profundamente — na história de ícones da boemia carioca, como o Zicartola e o próprio Antonio’s, agora citado porque me lembrei que foi para ele que corri quando saí depois de dois meses na prisão. É isso mesmo que confesso: antes de ir para casa, me ofereci ao Antonio’s, onde, honra seja feita, fui recebido com imensa alegria não só pelos clientes, como, especialmente, pelos proprietários do estabelecimento, que me ofereceram uma bebida raramente servida lá: champanhe.

Longe de mim comparar a alegria reinante nos bares com o saudável ambiente, por exemplo, de uma leiteria. Não comparo porque tenho horror a covardias, até porque sigo aquela orientação do nosso papa Vinicius de Moraes de que amigos a gente faz nos botecos e não nas leiterias. Reafirmo que não quero polêmica por causa de preferências individuais. Continuo amando os botequins. Quanto aos que não os amam tanto, estão perdoados. Deus tenha piedade deles.

Por Aldir Blanc

É importante para mim escrever sobre os bares selecionados em livro tão bacana. Porque bebi em quase todos e alguns fazem parte da minha vida. Então vou preferir, em vez de uma abordagem formal, contar “causos” vividos, como se estivesse num buteco com amigos — no caso, os leitores.

Bom, vou pela ordem: No Bar Luiz, haja fígado, tomei muito chope preto e, o que não faz muito meu gênero, comia de deixar pasmos os biriteiros da mesa. Adoro tira-gostos e o Bar Luiz é campeão. Uma vez, já altos, Zeca Mello Menezes e eu convidamos para a nossa mesa um rapaz negro que vagava pelo bar. Ele disse que era conhecido como Jota da Abolição. Vocês sabem como essas coisas funcionam em bar: o cara virou em cinco minutos Jotinha, 1888, Zé do Patrocínio e até Princesa Isabel… Quando o Bar Luiz fechou, fizemos a ronda de outros bares e gafieiras. Na companhia de moças levadinhas, fomos para um hotel naquela subida no final do Leblon e PERDEMOS o Jotinha!!! Espero que ele não tenha caído no mar.

O Capela foi meu por uma década e meia. Sou amigo do garçom Cícero, um craque várias vezes laureado com o galardão de Melhor Garçom do Rio, o que não é fácil. Lá, participei de um concurso de conhaque e venci. Quando, eufórico (minha suburbana danada da vida…), saí, faltou gravidade, e pairei por um instante em pleno ar! Não dei de cara no chão porque aquele senhor de cabeça branca da porta do Capela (uma parada duríssima quando mais jovem, em

Copacabana) me pegou em pleno voo e me enfiou feito um torpedo

num táxi…

No Lamas, outra década e meia de gorós, quando o histórico produtor musical Pelão morou no Rio, conheci os garçons Maia, com suas histórias da Era de Ouro do rádio; estive na festa de despedida do Paulinho; e lamentei perder outra farra quando o Vieira “Passarinho”, o garçom mais meu amigo, pendurou a bandeja. Na efeméride em homenagem ao Paulinho, um conhecido publicitário fez um discurso, perdeu, de porre, o rumo e, virando-se para uma senhora de cabelos brancos, detonou a seguinte pérola:

— Tenho o maior tesão nessa sua… nessa sua… O suspense era tremendo. A conclusão: — … nessa sua cara de velha!

Sobre as noitadas no Beco da Fome com o pianista Chiquinho Botelho, iih, é melhor calar…

Luna e Veloso: birinaites para profissional, em companhia de Sueli Costa, Maurício Tapajós, João Bosco, Miúcha, Paulo Roberto Pires…

Saindo da adolescência, paguei, no primeiro Castelinho, rodadas com os ganhos iniciais como baterista e compositor, o primo Dininho aprontando todas e chamando o chope de “morangos com creme”.

Uma rápida troca na (des)ordem final. Na Taberna da Glória, eu caía, não de bêbado, mas de rir com o incrível Hermínio Bello de Carvalho. Toda a glória da Taberna vivi no Pardellas: uma tarde-noite a convite do Tom Jobim. Tom pediu uma garrafa empoeirada de Old Smuggler, e ficava me alertando:

— Música não é o que as pessoas pensam. Não se deixe matar!

Um sábio. O grande momento da noite fulgurou quando um velho compositor de carnaval, metido até a cintura nas mumunhas de direito autoral, adentrou o recinto. Tom levantava o copo, um largo sorriso no rosto, e dizia baixinho:

— Um brinde, seu ladrão escroto, pilantra sem-vergonha.

E o cara láááá na outra mesa:

— Obrigado, Tom, meu querido!

Não é preciso dizer que em todos esses bares encontrei o Jaguar…

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