Entrevistas

“Dicionário da história social do samba”, de Nei Lopes e Luiz Antônio Simas

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Por Cláudia Lamego

Com uma vasta obra sobre o samba, o negro e a história da África, entre outros temas, o autor e compositor Nei Lopes convidou o historiador Luiz Antonio Simas para, juntos, sistematizarem o conhecimento de ambos sobre esse que é um dos maiores fenômenos culturais do Brasil. Assim surgiu este “Dicionário da história social do samba”, que traz verbetes sobre os diversos gêneros, períodos históricos, temas relacionados como cinema, carnaval, política, preconceito, violência, indústria fonográfica, além de termos, expressões e lugares seminais de origem e tradição, como Oswaldo Cruz, onde nasceu a Portela, e o Estácio, bairro de bambas como Ismael Silva, Bide e Nilton Bastos, criadores da primeira escola de samba.

O livro tem apresentação do escritor Alberto Mussa e orelha da pesquisadora Raquel Valença.

Como foi o processo de trabalho de vocês: escreveram os verbetes a quatro mãos, separaram os verbetes entre os dois ou optaram por um terceiro caminho? Por que, aliás, a opção pelo formato de dicionário para abordar os diversos aspectos do samba?

Simas: Acho que a questão do dicionário como forma de abordar os aspectos do samba deve ser respondida pelo Nei, que já vem trabalhando com essa forma de organização e sistematização do conhecimento há tempos, com ótimos resultados. O Nei já tinha muitos verbetes preparados, fruto da maturação e sistematização de uma vivência longa no samba e na produção de conhecimento sobre o assunto. Fiz outros verbetes e nós fomos, a rigor, trocando ideias, acrescentando algumas coisas, cortando outras, fazendo uma tabelinha facilitada pela internet e a  troca constante de e-mails. A afinidade de percepções sobre o significado do samba facilitou muito esse bate-bola. Vale ressaltar sempre, todavia, que os fundamentos do dicionário passam pela longa vivência, maturação, capacidade de reflexão e sistematização de Nei Lopes como uma figura exponencial do samba e do pensamento brasileiro. Nei conhece o samba de dentro e, ao mesmo tempo, conseguiu ao longo de sua trajetória refletir sobre essa vivência com raro dinamismo. Ao unir prática e reflexão, Nei é o que eu chamo de um pensador em ação. O reconhecimento dessa trajetória potente de Nei Lopes é fundamental e é meu papel destacá-la sempre.

Nei Lopes: Quando  resolvi convidar  o Simas, o trabalho já estava adiantado, havendo já um corpus. Ele trouxe sua vivencia, propondo algumas alterações e principalmente escrevendo muita coisa sobre os desfiles das escolas, os sambas enredos etc. Mantivemos o caminho, mas as  “mãos” que ele deu foram fundamentais.

Apanha-o-bago, bolimbolacho, lençol, palheta, raiador, samba de almocreve… Como foi que definiram esses verbetes menos óbvios e qual a importância deles na história do samba que é contada no livro de vocês?

Nei: São expressões recolhidas por outros autores principalmente no universo do samba rural, como o  praticado na Bahia. A importância deles é que mostram uma realidade muitas vezes esquecida ou diminuída em sua importância: que  o samba tem origem remota no ambiente agrário, de um Brasil monárquico. E que até mesmo a música dita “sertaneja” de hoje se nutre de seus conteúdos.

Simas:Acho que não apenas estes, mas todos os verbetes, partiram de uma constatação: o samba, mais do que um estilo musical/ coreográfico, é um fato social completo, dotado de potência e de um universo simbólico extraordinário, dotado de códigos próprios (que se manifestam nestes verbetes citados) e em constante relação com as circunstãncias sociais, políticas e econômicas da formação brasileira. . A chave para essa percepção e montagem dos verbetes está, quero crer, na nossa maneira de encarar o campo da cultura. Não pensamos a cultura como evento, mas como um conjunto de práticas de invenção da vida: formas de cantar, dançar, comer, vestir, elaborar símbolos, lidar com as circunstâncias, etc. O complexo cultural do samba é vastíssimo.

Através de verbetes como “Bossa nova”, “Festivais da canção” (o samba “claramente excluído”), “Pagode” e “Fusões” (que menciona a “criação de híbridos”), percebe-se o caráter dinâmico do samba em sua história social, o que, desde já, resulta na necessidade de uma segunda edição, não? Vocês já têm novos verbetes em mente?

Nei: A dinâmica do samba faz, sim, com que a gente pense em atualizações. A todo momento o samba está nos surpreendendo. Agora, mesmo, na área do “pop romântico”  tenho observado a permanência do surdo, do cavaquinho e do pandeiro por trás dos teclados eletrônicos e dos naipes de metais, formando verdadeiras orquestras. Isso configura, já, a existência de uma nova vertente, bastante bem elaborada. E daqui a pouco, se consolidada, vai merecere, sim, um estudo mais detalhado.

Simas: O samba se caracterizou ao longo de sua história por um surpreendente dinamismo. Ainda que eu perceba hoje que muitos dos fundamentos simbólicos do samba estejam solapados (e o dicionário vem apontando isso) – as escolas de samba são exemplos dessa diluição e perda de potência – sou daqueles que enxergam na história do samba a maior aventura civilizatória da própria História do Brasil. Como fato cultural completo, o samba sempre enseja novas leituras, perspectivas e análises que certamente podem sugerir novos verbetes e atualizações. O Dicionário da História Social do Samba é uma obra viva.

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