Entrevistas

“Uma praça em Antuérpia”, de Luize Valente

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Jornalista e documentarista com mais de 25 anos de experiência, Luize Valente estreou na ficção em 2012, com “O Segredo do Oratório”, chamando atenção no meio literário. O romance histórico, que tem como mote as raízes judaicas do povo brasileiro, já está na terceira edição, ganhou tradução na Holanda e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013.

Em seu novo livro, a autora apresenta outro viés para a temática do Judaísmo, tema ao qual se dedica há décadas. “Uma praça em Antuérpia” viaja por diferentes períodos e países, entre 1916 e 2000, para recuperar a história de Olívia e Clarice, irmãs gêmeas que tiveram seu destino marcado pela guerra. Uma tragédia mantida em segredo por 60 anos é o ponto de partida para que o dia a dia na Europa, nos tempos anteriores e no começo da Segunda Guerra, seja narrado com sensibilidade e enorme apuro histórico, dando vida a uma trama hipnótica, inspirada por relatos e fatos reais.

 

Para escrever “Uma praça em Antuérpia” você fez um extenso trabalho de pesquisa. Viajou por países como Portugal, Bélgica, França e Espanha. Conversou com sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. E, imagino, deve ter se dedicado durante muito tempo à elaboração do romance, que entrecruza diferentes histórias e episódios históricos. Como foi e quanto tempo durou a criação deste novo livro? 

Entre ter a primeira ideia da trama e entregar o livro para a editora, um ano e oito meses, mais ou menos. Foi um processo intenso. É um tempo que considero pouco,face à pesquisa exigida, que incluiu viagens,além da trama de idas e vindas no tempo – de 1916 até 2000. Só consegui fazê-lo porque tirei uma licença de oito meses do meu trabalho na Globonews. Desta forma, pude ter dedicação integral durante o período da escrita.

Toda construção de história tem um ponto de partida. O seu foi a figura lendária de Aristides Souza Mendes, o cônsul de Portugal em Bordeaux que salvou milhares de pessoas durante a guerra?

A figura de Aristides Souza Mendes me fascinou desde o primeiro momento em que tomei conhecimento dele. Eu queria muito escrever um romance em torno da incrível trajetória desta personalidade de tantos adjetivos. Souza Mendes,porém, acabou se tornando personagem de uma trama que teve também outro ponto de partida, muito pessoal. “Uma praça em Antuérpia” nasceu de uma fotografia que encontrei entre álbuns e cartas da minha avó paterna, de origem alemã. Uma única foto que seria dos meioirmãos dela, que ficaram na Alemanha – a outra família do meu bisavô, Theodor Werhmann, figura-tabu, sobre a qual não se falava. Quando me foi contado por um outro familiar que suspeitava-se que Theodor era judeu, minha avó, de quem herdei o nome, já estava com Alzheimer avançado. Nunca pude comprovar esta história. Perdeu-se no passado. Desta impossibilidade de revelar minha própria herança familiar criei uma história que pudesse ser resgatada.

Você já revelou que desde a infância tem grande interesse pela questão judaica. Seu trabalho como documentarista e seu romance de estreia, “O segredo do oratório”, refletem esse interesse. Em “Uma praça em Antuérpia”, porém, há um itinerário muito diferente de seus trabalhos anteriores. Como você traçou esse novo percurso? Como nasceram Clarice e Olívia?

Meu primeiro romance e os documentários que fiz com Elaine Eiger eram focados na questão dos Cristãos Novos, dos judeus convertidos pela Inquisição.  Em “Uma praça em Antuérpia”,minha temática é o nazismo e o Holocausto.  Sempre foi um tema que me acompanhou. Visitei o campo de concentração de Dachau, em 1987, estive em Auschwitz, em 2004, e em outros campos e locais arrasados pela guerra, em outras ocasiões. Também sempre li muito sobre o assunto, desde pequena. Quando me deparei com a história de Aristides Souza Mendes, com o papel de Portugal no conflito, com as descrições das fugas, achei que seria uma forma de relatar esses anos de chumbo, fugindo um pouco de abordagens mais recorrentes nos romances sobre a Segunda Guerra. Enfim, [o livro] mostra o pré-confronto e o início dele. E, como disse na resposta anterior, a descoberta desta foto de família me instigou. Aí pensei…e se existissem gêmeas e uma delas fosse judia e a outra, não? E se elas fossem levadas a trocar de identidade? Daí foram surgindo as irmãs protagonistas da história.

Em sua pesquisa, quais descobertas, relatos ou lugares mais a surpreenderam?

A minha maior surpresa foi refazer o percurso dos personagens durante a fuga do avanço nazista.Antuérpia, depois o norte da Bélgica, entrar na França por Calais, descer até Bordeaux, seguir para a fronteira com a Espanha, atravessara ponte entre Hendaye e Irún,a pé. Em Irún, pegar o Sud-Expresso, cruzar a Espanha e chegar à pequena cidade de Vilar Formoso, porta de entrada em Portugal. Foi muito emocionante sentir aqueles locais. Em Calais, pisar na areia e imaginar a praia 75 anos atrás, tomadapor soldados esperando o resgate para voltar à Grã-Bretanha. Em Bordeaux, subir as escadas do prédio e visitar o apartamento onde um dia funcionou o consulado português. Refazer as caminhadas de Clarice na cidade da Guarda e em Antuérpia e o reencontro das irmãs, também em Bordeaux. Acho que o mais surpreendente foi dar vida às pesquisas que fiz.

Há anônimos reais que a inspiraram a construir os personagens de “Uma praça em Antuérpia”? Quais fragmentos de dramas pessoais verídicos você usou na elaboração da trama?

Fiz uma compilação de depoimentos que encontrei em livros, em sites e, principalmente,em entrevistas que fiz com sobreviventes da época, judeus e não judeus. Também durante a viagem, à medida que refazia a trajetória dos personagens, encontrava pessoas que me relatavam experiências próprias ou de parentes. Tudo isso enriqueceu demais e foi fundamental para a narrativa. Conversas breves e ao acaso com o cuidador de um museu sobre a guerra em Calais, com o recepcionista do Grande Hotel de Bordeaux, com o fotógrafo de Vilar Formoso. Mas tenho que destacar um momento muito emocionante. Em Antuérpia, fiquei hospedada na casa da família de uma amiga belga. A avó dela, certo dia, apareceu com o diário que havia escrito enquanto adolescente, em flamengo, descrevendo a fuga da família durante o bombardeio de Antuérpia e arredores. Um diário que jamais tinha sido mostrado. Eram poucas páginas, que foram traduzidas para o inglês, e, ao lê-las, pude me transportar para aquela época. Uma experiência incrível.

Você já afirmou ter uma preocupação forte com a verossimilhança e a veracidade. Manter o respeito à História numa trama de ficção com tantas pontas foi o maior desafio na construção deste novo livro?

Foi um grande desafio. Eu costumo trabalhar com um imenso quadro onde prego o nome dos personagens, cronologias, datas históricas. Tenho que inserir a trama em um contexto que independe de minha vontade. Por isso são tão importantes os depoimentos pessoais. Eles nos ajudam a esclarecer coisas simples que os livros de História não relatam, como o tempo  —chovia ou fazia sol em tal dia? —, o clima — frio ou calor? —, a comida etc. Enfim, são detalhes fundamentais para dar veracidade à trama. Uma contribuição fundamental foram os jornais, principalmente portugueses, da época. Eu, narradora, sabia o que ia acontecer…mas meus personagens, não! Então, eles eram informados pelas publicações. Justamente por não saber é que os personagens se portam de uma maneira crível. E acho este um grande exercício na escrita do romance histórico. Temos que conter nossoexibicionismo de sabermos os fatos, de conhecermos muito bem o tema, e omitir informações simplesmente porque o personagem as desconhece. Mesmo com o narrador em terceira pessoa, saber cortar os excessos de “sabedoria” é fundamental para manter a verossimilhança e o ritmo da trama.

Há quem diga que a Segunda Guerra Mundial já foi explorada à exaustão pelas diferentes formas de arte. Como encontrar um ponto de vista ainda original para esse pedaço da História?  

Desde pequena leio livros sobre a Segunda Guerra, seja ficção, seja não ficção. Li muito mesmo. Acho que consegui encontrar uma abordagem original para o tema justamente por procurar dar vida ao lado humano dos personagens, suas aflições e angústias, descrever as fugas, o cotidiano dos refugiados. Fugir de carro, de trem, de bicicleta? Comer o quê? Onde dormir? Narrar os bombardeios, como as pessoas se portavam, para onde corriam etc. Os amores, as relações de amizade, os questionamentos do dia a dia. Digamos que tentei explorar uma visão mais micro do que macro da guerra.

A literatura brasileira contemporânea tem sido dominada por personagens próximos ao cotidiano de seus autores, por cenários da atualidade, pela metaficção e pelas “escritas do eu”. Sua literatura, porém, segue em direção contrária: busca o outro em contextos distantes no tempo e no espaço. Além disso, é uma história vigorosa, quase um épico. Onde você se localiza, na genealogia da ficção nacional? Quais as suas ligações e seus afetos na literatura?

Sinceramente, não sei onde me localizar! Minhas ligações e afetos são muito ecléticos, vão de Kafka e Thomas Mann a Eça de Queiroz, Philip Roth e Murakami. Também adoro ler sagas no estilo da Isabel Allende e Ken Follet. E não dispenso os best-sellers de Steve Barry, Sam Bourne e Dan Brown.

Acredita que a ideia de romance histórico poderia ser melhor aproveitada pela literatura brasileira?

A escrita do romance histórico deveria ser altamente incentivada, já que é uma maneira agradável, lúdica, sem academicismo, de aprendermos sobre uma época, qualquer época. É incrível como a leitura de um romance históriconos faz querer conhecer mais a História, o passado mais antigo ou o mais recente. É óbvio que tem de ser bem embasado, e talvez por isso muitos escritores tenham medo de encará-lo! Romance histórico dá, digamos, um trabalho extra… Exige muita pesquisa, muita checagem. Temos que adaptar os personagens à trama e não a trama aos personagens. É bem mais complicado usar um “deusex-machina” para os nóscegos da narrativa.

Outro ponto que a destaca no cenário de autores contemporâneos é que você tem reiterado que não procura fugir da busca por uma “literatura do entretenimento”. Qual sua relação com a palavra “entretenimento”, tão evitada pelos outros escritores?

Leitura para mim é um prazer, uma diversão, às vezes mais leve, às vezes mais tortuosa. Estou sempre com um livro à mão. Acho pretencioso o preconceito que alguns escritores têm com o que classificam de “literatura doentretenimento”. Literatura do entretenimento é a que proporciona momentos agradáveis, que nos transporta no tempo e no espaço, que nos envolve. No entanto, parece quevirou sinônimo de literatura comercial, que vende. E, no Brasil, muitos escritores costumam defender que autor bom não vende, e usam o jargão “meu livro não é comercial” como garantia de qualidade. O que é uma bobagem. Alguém questiona a qualidade da literatura de Haruki Murakami? De Dostoievsky? De Machado de Assis? De Eça de Queiroz? São todos autores que vendem muito, que o leitor devora. E também Thomas Mann, Kafka, Borges. Ou seja, é possível entreter com qualidade. É claro que existem livros que vendem muito e são mal escritos, mas, sinceramente, isto acontece em todas as áreas da diversão.

“O segredo do oratório” foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Como esse reconhecimento teve impacto em sua produção?

Foi muito gratificante. Ser finalista de um prêmio é um reconhecimento público, uma espécie de chancela da qualidade do trabalho. E quando se trata de um dos prêmios mais importantes do país se torna ainda mais gratificante. Uma emoção enorme. Ajuda muito a divulgar o livro, o autor. A mim, pessoalmente, deu muito estímulo para continuar escrevendo. Agora, para o livro ser lido mesmo, nada melhor que o boca a boca.

Você tem uma longa carreira como jornalista. Agora já costuma dizer que é, também, escritora?

Sim, hoje já tenho falado, mas não para ser “metida”. É porque a escrita exige uma disciplina, uma dedicação, que tenho. Escrever é um prazer e um dever. Eu cumpro prazos externos e internos.  A cabeça trabalha vinte e quatro horas. Não se trata de inspiração, se trata de um mergulho, de fazer e refazer, de criar uma rotina.

Tem um próximo livro à vista? Quais os seus projetos atuais? 

Sim, continuo na temática judaica e, no próximo livro, ainda sem título, falarei sobre o massacre dos judeus húngaros na Segunda Guerra Mundial. Em Auschwitz foram mais de 420 mil judeus húngaros assassinados, a maior parte em 1944, quando a guerra estava próxima do fim. Este é o pano de fundo para uma história de amor, que se passa no Campo, o nascimento de um bebê, de mãe judia, que só descobre a verdadeira história sobre seu nascimento já adulto. Falarei do dia a dia no campo, a luta pela sobrevivência, a relação entre judeus e alemães, a luta para salvar a criança, os amores, a barbárie ea solidariedade. Sobre meus projetos atuais, estou trabalhando na adaptação para o cinema de “O Segredo do Oratório”, meu romance de estreia, junto com a roteirista e dramaturga Ana Clara Santiago e um diretor nos EUA. Mas, o mais recente é uma peça de teatro: “O mundo indecifrável”, que já está pronta e pretendemos montá-la ano que vem. Está na fase de fechar elenco, direção, etc. É sobre um tema bem atual, a crise dos refugiados. É um paralelismo entre a crise de refugiados ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial e a que presenciamos atualmente – a maior desde então – , através do encontro de três mulheres: Amena Yammine, uma refugiada síria de 2015, Klara Gabor, judia de origem romena e sobrevivente do campo de extermínio nazista de Auschwitz, e Layal Al-Rayann, irmã de Amena, emigrada há muitos anos num país indeterminado do continente americano, onde tudo acontece. Ela fala sobre pertencimento e identidade.

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