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Leia trechos de “O Brasil colonial” e “Francisco Julião: uma biografia”, que estão entre os vencedores do Jabuti deste ano

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Vencedores do Prêmio Jabuti deste ano, os volumes da coleção O Brasil colonial e o livro Francisco Julião: uma biografia examinam momentos importantes da história do país. Os primeiros, organizados pelos professores João Fragoso e Maria de Fátima Gouvêa, reúnem artigos de diferentes autores sobre o longo período que se estendeu do século 15 ao início do século 19, das primeiras descobertas portuguesas até o estabelecimento da família real no Rio de Janeiro. O segundo, escrito pelo pesquisador Cláudio Aguiar, narra a trajetória do líder político Francisco Julião, um dos personagens mais emblemáticos da luta do campesinato no nordeste, e, a partir daí, avança sobre o contexto social e político do Brasil na segunda metade do século 20.

O Brasil colonial ficou em primeiro lugar na categoria “Ciências humanas” do Prêmio Jabuti deste ano. Francisco Julião: uma biografia conquistou o terceiro lugar da categoria “Biografia”. Os títulos foram publicados pela editora Civilização Brasileira. Leia abaixo pequenos trechos das obras.

TRECHO DA APRESENTAÇÃO DE JOÃO FRAGOSO PARA O BRASIL COLONIAL

O Brasil Colonial foi pensado e organizado principalmente por Maria de Fátima Gouvêa, brilhante e vivaz historiadora que cedo se foi. Os volumes da coleção, grosso modo, estão divididos em três grandes módulos, a exemplo de outras coleções de síntese: população, economia e sociedade, cultura e política.

O primeiro volume trata da Europa Moderna, das sociedades africanas pré-coloniais e do seu envolvimento com o tráfico de escravos, das sociedades indígenas no Quinhentos e do início da conquista europeia. Esses estudos foram precedidos pelo ensaio historiográfico escrito por Hebe Castro sobre a escravidão na América lusa antes do século XIX. Um dos eixos desse volume foi a ideia de que a Europa, para conquistar o Novo Mundo, antes teve de se conquistar (expansão entre os séculos XI e XIII), e que o entendimento da sociedade do Antigo Regime na Península Ibérica é uma das chaves para a formação da América lusa.

O segundo volume estende-se de cerca de 1580 a 1720. Entre os temas tratados, temos a percepção da América em meio à dinâmica do Império ultramarino luso. Da mesma forma, estudou-se a presença de uma sociedade estamental de Antigo Regime, baseada na escravidão moderna. Compreendendo que tal sociedade tinha no catolicismo ibérico, no serviço à monarquia e na ideia de autogoverno dos municípios alguns dos seus princípios de organização social e política.

O terceiro e último volume (ca. 1720 a 1821) trata do longo e denso século XVIII. Nele temos a multiplicação dos povoados e dos mercados regionais desencadeados pela descoberta do ouro. Ao mesmo tempo, a sociedade estamental americana percebe a sedimentação da escravidão africana e a mestiçagem. Ainda naquele longo século, as alforrias de escravos, a transformação de pretos da guiné em senhores de cativos, e, mais, a entrada de negociantes nos cargos honrosos da república davam um novo colorido e uma dinâmica à estratificação estamental desses trópicos. Nesse último volume, também se assiste à definitiva conversão da centralidade da periferia na monarquia lusa, ou seja, algumas artérias que davam vida ao Império ultramarino passavam para mãos de negociantes de grosso trato, situados no Rio de Janeiro.

 

TRECHO DO PRÓLOGO DE FRANCISCO JULIÃO: UMA BIOGRAFIA

Um homem franzino e magro, com 1,66m de altura, frágil de saúde (padecia de crônica enxaqueca), vasta cabeleira escura em constante desalinho a cobrir-lhe a cabeça grande e desproporcional para o resto do corpo mirrado, testa proeminente, nariz avultado e lábios carnosos, caminhava sob sol inclemente. Ia sozinho e despreocupado, por uma das margens do Capibaribe, rio cantado nos versos de Manuel Bandeira, o mais ilustre poeta do Recife. Com o olhar penetrante e animado por um alegre sorriso – gestos que pareciam proporcionar-lhe nova dimensão física –, dirigia-se ao Palácio Joaquim Nabuco, sede da Assembleia Legislativa de Pernambuco, onde exercia o mandato de deputado estadual.

Possuía traços indígenas, não propriamente negroides. Lembravam as típicas características dos caboclos, assim denominados os nascidos de brancos com índios. Começava a aparecer-lhe na cabeça mecha de cabelos brancos por entre os tufos pretos desalinhados. Às vezes falava tão baixo que adquirira o hábito de chamar para junto de si o interlocutor com gesto de confidência, ao levar aos lábios o dedo indicador da mão direita.

Esse homem, de aparência tão frágil, quando falava, quer nos parlamentos, quer nos auditórios de centros culturais ou políticos, quer na praça pública, quer em simples conversas amistosas, sabia encantar e cativar seus interlocutores com voz mansa e movimentos solenes. Nessas ocasiões, tomava-o misteriosa metamorfose, fenômeno só vivido pelos famosos oradores: agigantava-se de tal sorte que conseguia transmitir suas ideias à mente e ao coração dos ouvintes com extrema facilidade.

Impulsionado por tão extraordinário poder de convencimento, havia anos, com perseverante austeridade de caráter e rigidez moral, alimentado por vocação de místico, ele conseguira levar aos camponeses de sua região as boas novas sobre uma libertação aparentemente impossível: o camponês ter acesso à terra para trabalhar, criar a família e construir a riqueza do Brasil.

Naquela tarde, como anunciara a imprensa do dia anterior, ele pronunciaria um discurso com graves denúncias sobre as atrocidades cometidas por policiais a mando de latifundiários que não aceitavam a associação de camponeses às ligas. Àquela hora, ele não sabia que, a pouca distância, lentamente, vinha aproximando-se dele um automóvel em cujo banco traseiro estava um homem decidido a assassiná-lo naquela calçada, às margens do poético rio Capibaribe.

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