Entrevistas

“Os piores dias de minha vida foram todos”, de Evandro Affonso Ferreira

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Vencedor do Jabuti 2013 com o romance O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (2012) e do Prêmio APCA 2012 com Minha mãe se matou sem dizer adeus (2011), Evandro Affonso Ferreira tem se destacado como uma das vozes mais inventivas da literatura brasileira contemporânea. É dono de um estilo peculiar, onde a sintaxe e o léxico são tocados por grande vigor criativo.

Em Os piores dias de minha vida foram todos, terceiro lugar no Jabuti de 2015, uma mulher aguarda a morte, na clausura de um quarto fúnebre. Seria uma cama de hospital? Atordoada pela espera, sai de forma desvairada pelas ruas de São Paulo, enquanto passa em revista sua trajetória de solidão e episódios do passado, num monólogo repleto de evocações à literatura, à filosofia e à mitologia. Mas será que está mesmo flanando pela metrópole? Ou apenas tendo um delírio? Neste novo romance, a exuberância da metrópole se mescla à solidão aguda, num terreno onde as incertezas, mais do que os fatos, desenham os rumos da uma história.

A espera da morte, o declínio do corpo, a solidão e a loucura são elementos centrais em seus dois romances anteriores, Minha mãe se matou sem dizer adeus (2011) e O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (2012). E retornam em Os piores dias de minha vida foram todos. Como esses temas têm se infiltrado em seu processo criativo?   

Acho que é o fato de ela a própria morte enviar suas mensagens sorrateiramente: tenho quase setenta [anos], coração escamurrengado, safenas a mancheias e cousa e lousa. Deve ser isso. Difícil falar sobre o motivo pelo qual encaminhamos nossos temas – gosto de falar sobre tudo o que inquieta o ser humano: solidão, morte, loucura, decrepitude, tudo isso me inquieta – e muito.

A protagonista-narradora de seu romance espera a morte numa espécie de quarto fúnebre – uma UTI, talvez. O espaço entre a solidão e a morte é um lugar sedutor para o fazer literário?

Para mim, sim, cada escritor usa o instrumento com o qual lida melhor. Sou espécie de niilista ‘lírico’. Trabalho com a morte poeticamente, se assim posso dizer.

Enquanto divaga sobre a vida e a morte, sua personagem perambula, ou imagina perambular, pela cidade de São Paulo. Acompanha cenas triviais, ouve diálogos. Isso cria um atrito perturbador entre a iminência da morte e a polifonia das ruas. Como vê esse enlace?

São artimanhas literárias, recursos que uso para dar certo encantamento, surpreendência ao texto. Ou, quem sabe, jeito que encontro para o livro não ficar pesado demais. Sempre convoco entre aspas parceiros para meus livros. Neste, peço a ajuda de Sófocles. No anterior, Erasmo de Rotherdam. Não consigo escrever um livro sozinho.

Antígona é evocada em diversos trechos deste romance. “Para ela, morrer não é sofrer”, diz um deles. Em vez disso, seria uma “afirmação da vida”. Concorda com essa ideia?

Ah, sei não, sei não. Morrer deve ser muito chato, esquisito, já fiquei muito perto da morte, numa UTI. Tem graça nenhuma. Tudo o que está na Antígona é de uma beleza literária sem igual. Beleza literária – não precisamos necessariamente concordar com tudo.

Há também em seu livro um contraste inusitado entre sua sintaxe e léxico, tão requintados e singulares, e citações de slogans, anúncios de rua, frases colhidas no espaço urbano. O senhor mantém o hábito da flânerie? Como isso alimenta a escrita?

Tenho andado pelas ruas de São Paulo colhendo coisas, vendo coisas. Gosto de lançar mão dele meu olhar, digamos, periscópico. Costumo dizer que minha literatura se divide em duas partes: antes, me preocupava com a vida da palavra; agora, com a morte do homem.

Que indícios da morte vê, circulando pela cidade?

A pressa, a afoiteza, a procura desenfreada pelo dinheiro, sucesso, tudo isso flerta com a morte.

Referências à filosofia e à mitologia são recorrentes em sua obra. Como é o leitor Evandro Affonso Ferreira?

Leio muito sobre muitas coisas. Filosofia, cristianismo, mitologia, dicionários, muitos. Sou leitor de dicionários sobre os assuntos mais variados possíveis. E releio meus sete, oito autores preferidos: Bruno Schulz, Herberto Helder, Cornelio Penna, Samuel Rawet, Almeida Faria, Hermann Broch, Musil etc.

O projeto de seu dicionário particular está ativo? Continua coletando palavras num inventário próprio?  

Compilei, ao longo de quase 20 anos, 3 mil palavras sonoras.

O que o senhor chama de ‘palavras sonoras’?

Bangalafumenga, zaratempô, catrâmbias, zoropitó, zuruó… Todas são exemplos de palavras sonoras.

Ganhar prêmios influenciou de alguma forma sua produção? 

Absolutamente nada.

O senhor ministra oficinas literárias e, nos anos 90, capitaneou um encontro de escritores que ajudou a incentivar vários talentos. Os autores de hoje estão mais solitários? Falta congraçamento no mundo literário?

Acho que não mudou muito não. Existe, como sempre existiu, autores solidários e autores solitários.

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