Entrevistas

“H Stern, a história do homem e da empresa”, de Consuelo Dieguez

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Por Mariana Moreno

Com passagens pela Veja e pela Exame e desde 2006 na Revista Piauí, a jornalista Consuelo Dieguez é conhecida por escrever perfis reveladores. Em H Stern, a história do homem e da empresa, que chegou às livrarias neste mês de dezembro pela Editora Record,  ela costura a trajetória de Hans Stern, fundador da joalheria carioca H Stern, com momentos históricos do Brasil e do mundo.  A autora investiga com detalhes as escolhas do alemão naturalizado brasileiro que construiu um grande negócio, conquistando sucesso internacional com joias e gemas preciosas produzidas no país.

 Como surgiu o interesse pela história de Hans Stern e de sua empresa?

Primeiro porque gosto das histórias de pessoas que se reconstroem. Esse é o caso dos Stern. Uma família judia alemã, rica e assimilada que, de uma hora para outra, é obrigada a deixar a Alemanha por causa da perseguição nazista, com uma mão na frente e outra atrás, e se reinventar em um país novo, estranho e completamente diferente de tudo que eles conheciam.  É, acima de tudo, uma história de coragem, de resistência e de fé na vida. Um jovem imigrante e sua família que deixam a Alemanha com 10 marcos no bolso e constroem uma das mais sofisticadas e importantes joalherias do mundo. Segundo, porque envolve um período na história que me fascina: a Segunda Guerra Mundial  e seus reflexos no Brasil. Terceiro, porque, nesses 70 anos,  a trajetória da empresa se mescla com a história do Brasil. Assim, foi possível  situar essa saga familiar e empresarial  no contexto histórico. É um livro não apenas sobre uma empresa e de uma família, mas sobre uma época, até chegarmos aos dias de hoje.  Por último, a história deles é profundamente humana.  Uma história de força e coragem.  De altos e baixos. De perdas e ganhos.  De medo, de dor e de alegria.  De fracassos e sucessos. E, sobretudo, de fé na vida.

Você é conhecida por criar perfis de importantes figuras da história recente do país. O que mais te surpreendeu em relação à vida do fundador da H Stern?

Uma das coisas que me causaram surpresa quando comecei a pesquisar a vida de Hans Stern foi a escrita dele.  Ao chegar ao Brasil, aos 16 anos, ele começa a escrever para os amigos espalhados pelo mundo que, como ele, tiveram que fugir da Alemanha. Essas cartas são crônicas de uma época. Foram escritas com enorme bom humor e perspicácia, narrando a vida no Brasil. É fascinante ver o Rio de janeiro da década de 40 através dos olhos de Hans Stern. Outra coisa fascinante foi acompanhar as grandes sacadas de marketing dele para fazer a empresa crescer. Inacreditável como ele pensava em estratégias geniais para atrair os compradores, principalmente os turistas estrangeiros, que eram o foco da joalheria nos seus primeiros anos.  Isso porque, ao contrário dos brasileiros, os estrangeiros amavam as nossas pedras de cor. Ficavam fascinados com aquilo. É impressionante a criatividade da H Stern para capturar esse público e fazer o negócio crescer.

O livro recria com detalhes episódios da vida de Hans que são costurados por momentos decisivos da história do país e do mundo. Como foi seu trabalho de pesquisa para além do material que você teve acesso por meio da H Stern?

Eu sempre fui fascinada pelas histórias da Primeira e Segunda guerras. Muito por causa do meu pai, que era um apaixonado pelo o assunto. Por ser europeu, ele tinha interesse especial no assunto e despertou em mim essa curiosidade. A Segunda Guerra, particularmente, é um momento chocante na história da humanidade.  Não só porque muda os rumos do mundo e da História, mas por ser também um momento onde os melhores e piores sentimentos humanos se confrontam. Algo como o bem contra o mal ou vice versa.  Nesses anos de guerra, se revela o que há de pior e de melhor na humanidade: a crueldade sem limites, a barbárie, a violência,  mas também a coragem, a solidariedade, o heroísmo,  amor ao próximo. Como em meio aquele horror as pessoas conseguiram continuar humanas e a ter esperanças. Isso é muito claro no caso dos Stern. Eles fogem da Alemanha após o suicídio do patriarca da família e da perda dos negócios em consequência da perseguição nazista. Deixam tudo para trás e chegam aqui com uma coragem, uma esperança e uma determinação para recomeçar comoventes, sem qualquer vestígio de amargura. Do nada, criam uma das maiores e mais sofisticada joalherias do mundo. Mas para que os leitores entendessem esse movimento, era preciso que eles se colocassem no lugar daquelas pessoas, na época em que elas viveram. Como era recomeçar no Brasil dos anos 40? Que país era esse? O que os esperava? Para que o leitor se sentisse dentro da história e olhasse o mundo com os olhos de Hans Stern e, mais tarde, dos seus herdeiros, era preciso relatar as condições do mundo ao redor. Desde a perseguição nazista na Alemanha, até a situação política e econômica do Brasil: a resistência de Getúlio Vargas de apoiar os aliados, a chegada da guerra ao Brasil, os efeitos da vitória aliada sobre o país. Já o crescimento da empresa é influenciado pelo afluxo de turistas estrangeiros endinheirados  ao Brasil, que, após a guerra,  buscam destinos mais “exóticas”.  Assim, o Brasil se torna bastante atraente.  E Hans compreende e captura esse momento a seu favor.  Mas a saga familiar e empresarial perpassa os grandes e pequenos  acontecimentos de um Brasil em movimento e de como a empresa atravessou os vários momentos da nossa história. Desde a esperança de modernidade trazida com JK, passando pelo obscurantismo do regime militar, a volta da democracia, a profunda crise  instalada durante o governo Collor e seus efeitos sobre a joalheria, a recuperação econômica e os novos e atuais momentos de tensão. Eu saí em busca de grandes e pequenas histórias cotidianas para narrar não só a saga da família como da empresa e das condições permitiram a sua criação e a sua evolução ao longo do tempo. Misturei  fatos muito curiosos do cotidiano brasileiro aos grande acontecimentos. A sociedade carioca, o carnaval, o futebol, o trânsito, os hábitos, os escândalos, a vida política e social do país. Tudo pesquisado em jornais de épocas, em livros e através dos preciosos registros deixados por Hans Stern.

Na busca dos arquivos da  H Stern, você descobriu cartas que eram desconhecidas pela própria família. Como isso aconteceu ?

As cartas estavam guardadas em caixas misturadas a documentos e registros de fatos curiosos da empresa que Hans Stern e seus diretores mais próximos gostavam de registrar. Quando vi as cartas, misturadas a todo aquele material, não acreditei. Eram crônicas de uma época escritas por um jovem de 16 anos.  É genial. As cartas são tão bem escritas, e traçam um perfil tão saboroso do Brasil e do Rio de Janeiro, que fiz questão de reproduzir grandes trechos delas. São documentos históricos. Não podia cortá-las. Achei que, como eu, os leitores também ficariam fascinados com aquela escrita.

O livro percorre a evolução da empresa e revela sua vanguarda em vários aspectos, inclusive no que se refere às estratégias de marketing. O que mais chamou sua atenção em relação a essa área?

A modernidade. A inovação. Como Hans percebeu, já nos anos 50, técnicas de marketing e de venda que seriam empregadas por outras empresas muitos anos depois. Ele era um visionário e absolutamente apaixonado pelo que fazia. E essa paixão ele passa também para os filhos. É uma história de empresa familiar bem sucedida onde os herdeiros buscam sempre inovar. É um caso interessante porque não existem aquelas disputas familiares que costumam destruir as empresas. Pelo contrário. A joalheria quase desaparece justamente no momento em que Hans, após uma briga com Roberto Stern, o primogênito e seu sucessor, decide entregar a empresa para o comando de executivos fora da família. É um momento em que a empresa corre sério risco de quebrar. Segue, então, todo o esforço para recuperar a companhia. São estratégias e histórias fascinantes não apenas para quem acompanha administração. É quase um thriller.

O prestígio mundial da H Stern e sua presença em mais de 30 países faz com que muitos brasileiros não saibam de que se trata de uma empresa brasileira. Por outro lado, o fato de ser uma empresa brasileira que valoriza pedras preciosas nacionais atrai atrizes internacionais. Como você analisa isso?

Acho que tem a ver com a nossa baixa autoestima. Sempre achamos que o que vem de fora é melhor. Não conseguimos acreditar que empresas de excelência, com alto controle de qualidade e respeito pelo consumidor possam ser brasileiras. E, infelizmente, acho que os estrangeiros também pensam dessa forma. Mas o fascinante é que tudo o  que Hans sempre quis foi mostrar aos consumidores que a H Stern era uma empresa 100% brasileira. Tanto que, desde o começo, cria estratégias de marketing para que as pessoas entendam que a H Stern era uma multinacional brasileira de varejo. Ele era um alemão muito brasileiro. Muito carioca. Talvez por isso a empresa tenha dado tão certo. Porque juntou o melhor de dois mundos.

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