Entrevistas

“Um ato de bondade”, de Polly Samson

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Por Thaís Britto

Polly Samson escreve em diversos formatos. É autora de canções do Pink Floyd e da carreira solo do marido, o músico David Gilmour. Na literatura, já publicou contos e romances. Neste mês, lança pela Record “Um ato de bondade”, um drama familiar que revela a maturidade de sua narrativa. Polly esteve no Brasil para lançar o livro, e participou do Salão Literário, no último domingo, ao lado de Gilmour e do escritor Damian Barr.

O intrincado enredo acompanha a vida do casal Julia e Julian. Ela, uma mulher que vivia presa a um relacionamento abusivo; ele, um estudante universitário nove anos mais novo. Os dois vivem felizes ao lado da filha por um bom tempo, mas a rotina familiar começa a desmoronar quando Julian fica obcecado por reformar a casa onde cresceu, e a menina fica doente. A narrativa mistura passado e presente, contada pelos dois personagens separadamente.

O livro não tem um formato linear, ele mistura o tempo presente com memórias, e demanda atenção do leitor. Como foi o processo de escrita?

Eu comecei pensando num formato completamente diferente. Eu ia fazer um romance sobre a história do Julian e da Julia que terminaria com um mistério. No fim desta parte, o Julian descobriria que pode escrever novamente, e a segunda parte seria uma coleção dos seus contos. E esses textos revelariam, de forma bem ambígua, o que aconteceu. E contariam o segredo. Comecei a escrever esses contos, e um deles inclusive foi publicado no Reino Unido, mas no meio do caminho mudei de ideia. E decidi escrever o romance com duas vozes: da perspectiva do Julian primeiro; e depois a visão da Julia, com as informações que ele não tinha. Então os contos foram ótimos porque me ajudaram a escrever a nova história.

E uma outra coisa que eu faço – achava que todos faziam, mas recentemente descobri que não – é andar como se fosse meus personagens. É como se fosse o método de atuação, eu chamo método de escrita. Tento ter as memórias deles e pensar como eles e saio para caminhar como se fosse meus personagens. Quando eu volto para a página em branco, consigo escrever os sentimentos deles.

Como funciona exatamente esse “método de escrita”? Pode ser bem confuso ter um monte de personagens na cabeça, não?

Eu realmente me obrigo a acreditar que sou aquele personagem. E vou andar como se fosse ele. E sempre um de cada vez, claro. E funciona. Por exemplo se você está escrevendo um homem, ajuda muito sair por aí e realmente convencer-se de que você é um homem. E olhar as pessoas, as mulheres, com esse olhar. É diferente. Tenho muitos homens na minha vida para observar, tenho 3 filhos e um marido, então posso usar um pouco disso para tentar me transformar naquele homem, Julian. Sim, é bem estranho (risos). E eu nunca tinha reparado que era estranho até começar a conversar com outros escritores e eles dizerem: “Olha, isso é uma boa ideia!”. Eu achava que todo mundo fazia isso, porque atores fazem isso o tempo inteiro e eu acho que atuação e escrita têm muito a ver, no que diz respeito a entrar na pele do personagem.

Qual foi a sua inspiração para a história do livro?

Comecei a escrever esse livro em 2010, e é baseado numa história de família, que aconteceu com meu tio-avô na época da Segunda Guerra. O que acontece com Julian no livro aconteceu com ele [omitimos mais detalhes aqui para evitar spoilers]. E ele acabou cometendo suicídio. E quando há uma história de suicídio na família, isso marca você. Eu sempre pensei em usar essa trama, e trazê-la para os dias de hoje. E resolvi enfim escrevê-la em 2010 ao escrever esse livro. Mas, depois, ao revirar papeis muito antigos e escritos quando eu tinha 20 e poucos anos, encontrei esse enredo rascunhado e esquematizado já naquela época. E eu tinha esquecido totalmente.

Mesmo se baseando numa história tão específica, você conseguia se inspirar em detalhes do cotidiano, quando saía para essas suas caminhadas como os personagens, por exemplo?

Com certeza! Uma vez, estava fazendo uma caminhada como Julian. Ainda era bem no início, estava pensando sobre o livro. E até então, o Julian ia odiar a Julia na história. Eu estava andando à beira do mar e de repente eu vi uma mulher – era a Julia. Ela estava sentada num banco, olhando o mar, e eu instantaneamente soube que era ela. E meu coração se encheu de esperança e amor. E eu percebi que o Julian não poderia odiá-la. Não importava o que ela tinha feito, ou como o tivesse traído, ele a amava. E é assim que o método de escrita funciona, porque eu estava sendo ele. E acho que foi melhor para o livro, porque foi mais real que ele a amasse.

E qual foi a parte do livro mais difícil de escrever?

Certamente foram as cenas do hospital. Quando comecei a escrever as cenas, eu fui visitar vários hospitais infantis em Londres, e é bastante triste. Eu sentava, e deixava o universo do hospital acontecer ao meu redor para poder absorver aquilo. Mas aí o meu pai ficou muito doente em outro hospital em Londres. Então foi muito ruim, porque eu ficava no hospital infantil para a pesquisa, e aí pegava um ônibus para o outro lado da cidade, onde meu pai estava morrendo. Foi demais, foi horrível. Mas não havia como eu não fazer. Eu tinha que ir ao hospital infantil porque eu queria escrever aquilo certo. Então não havia opção, mas foi péssimo ser no mesmo período da doença do meu pai. Foi muito difícil.

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