Dica de leitura

“A fascinação das palavras”, de Julio Cortázar e Omar Prego Gadea

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Por Andressa Camargo

O jornalista uruguaio Omar Prego Gadea e o escritor argentino Julio Cortázar se conheceram em Paris, em 1974. Exilados na cidade luz, então um refúgio para latino-americanos que fugiam das ditaduras implantadas em seus países, logo se tornaram amigos. Em 1982, Omar pediu a Julio que lhe concedesse uma longa entrevista. A ideia era publicar o material em um livro, no qual o autor pudesse falar sobre sua trajetória profissional e sua vida de combatente “das causas que considerava justas no mundo”.

Cortázar topou o desafio e, ao longo de meses, recebeu o amigo em sua casa, localizada em um prédio antigo da Rue Martel. Ali, aconchegados em meio a estantes repletas de livros e discos de jazz, os dois conversavam longamente. O resultado desses encontros é este A fascinação das palavras, publicado aqui pela Civilização Brasileira.

No livro, Cortázar fala sobre sua infância em Banfield, na Argentina, sobre os romances que sua mãe lhe apresentava quando criança (entre os quais estavam obras de Alexandre Dumas e Victor Hugo, mas também “livros de pouca qualidade, dramalhões”), sobre o tempo que passou na Escola Normal de Professores Mariano Acosta (inspiração para o conto “La escuela de noche”), sobre a descoberta da palavra, da língua, da sintaxe. Desvenda também seu processo criativo, detalhando os caminhos que o levaram à produção de seus contos e romances mais famosos. Aborda ainda, entre muitos outros temas, a grande influência que a música tem em sua obra.

 

Trecho da obra

Omar Prego: Ainda ha pouco, nesta conversa, você disse que íamos voltar a falar do momento em que você percebeu qual era a diferença entre a má literatura e a “grande literatura”.

Julio Cortázar: Sim. Não é um momento, digamos, muito definido, que eu posso determinar com exatidão. Mas lembro muito bem que, já a partir dos dezesseis ou dezessete anos, eu era um onívoro capaz de devorar os Ensaios de Montaigne alternados com as aventuras de Buffalo Bill, Sexton Blake, Edgar Wallace, os romances policiais da época (eu era um grande leitor de romances policiais) e os Diálogos de Platão. As águas não estavam muito bem separadas, era uma grande confusão. Coisa que não lamento, porque mesmo a má literatura, quando se lê abundantemente na infância e na adolescência, vai deixando um material temático, uma riqueza de linguagem, vai mostrando coisas e até procedimentos. Um dia, andando pelo centro de Buenos Aires, entrei numa livraria e vi um livro, de um tal Jean Cocteau, que se chamava Ópio e tinha o subtítulo “Diário de uma desintoxicação”. Tinha sido traduzido por Julio Gómez de la Serna e prefaciado por Ramón. Um prólogo magnífico, como quase todos os prólogos de Ramón. Bem, nesse livro havia alguma coisa (para mim Jean Cocteau não significava nada), então o comprei, entrei num café e, nunca vou esquecer, comecei a lê‑lo às quatro da tarde. Às sete estava ainda lendo, fascinado. E esse livrinho de Cocteau me fez mergulhar de cabeça, não só na literatura moderna, mas no mundo moderno.

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