Entrevistas

“Musa praguejadora”, de Ana Miranda

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Por Claudia Lamego

Vencedor do prêmio literário de melhor ficção de 2015 da Academia Brasileira de Letras (ABL), “Musa praguejadora” combina rigor histórico e lirismo na composição da biografia do poeta barroco Gregório de Matos. A escritora Ana Miranda, que já havia explorado a obra do autor baiano no romance histórico “Boca do inferno”, aqui constrói o arco de existência cheio de reviravoltas de Gregório a partir dos poucos registros deixados por ele, numa minuciosa pesquisa histórica.

Neste 23 de dezembro em que celebramos os 379 anos de nascimento de Gregório de Matos, leia abaixo a entrevista de Ana Miranda, na qual a autora discute detalhes da obra, as fronteiras entre ficção e realidade, o processo de pesquisa e sua relação com o poeta.

Como você, autora de Musa Praguejadora, define o seu livro? Podemos dizer que é uma obra de não-ficção, ou, em se tratando desse poeta, que não deixou escritos assinados e sobre o qual pairam versões, críticas e olhares tão diversos, a ficção é necessária para dar conta de sua obra e seu tempo?

É um reencontro meu com Gregório de Matos, esse meu amigo, amante, companheiro com quem convivi imaginariamente durante anos, desde quando li seus primeiros versos, sonhei com ele, e escrevi um romance em que é protagonista. Pretendi que fosse uma obra de não-ficção, e pode ser definida assim, embora, como você diz muito bem, a ficção é necessária para dar conta de sua vida no século 17, tão pouco documentada – mas revelada em plenitude, na sua poesia. Além do mais, sou romancista. A minha frase na epígrafe revela o que penso sobre o tema: Os ficcionistas são historiadores que fingem estar mentindo, e os historiadores, ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade. Em Musa Praguejadora escrevi partes romanceadas seguidas de partes documentais. As romanceadas estão em itálico. O livro vai tentando psicografar a biografia do poeta, desde a vinda de seu avô, do Minho para o Brasil. É uma biografia não acadêmica, ela é mais literária.

Muitas das partes ficcionais de Musa Praguejadora são a recriação em prosa de poesias atribuídas ao próprio Gregório, e uma recriação de diálogos, contextos, sentimentos do poeta a partir da sua própria obra. Essas partes se alternam com textos escritos em forma de biografias tradicionais, baseadas em documentos. Seria uma resposta a uma pergunta tão frequente entre os leitores, sempre em dúvida sobre o que ficção e o que é história, quando leem um romance histórico ou, mesmo, uma biografia tradicional?

Sim, creio que a leitura de Musa Praguejadora dá esta sensação, de que existe uma fronteira entre a ficção e a história. Mas, num olhar mais profundo, o leitor vai compreender que esses mundos se entrelaçam todo o tempo, e a diferença parece estar mais na forma como se apresenta o tema. Por exemplo, a cena do poeta em sua casa no Dique, em que ele contempla as lavadeiras, é romanceada. Mas é um extravasamento da própria poesia, uma das mais belas que ele escreveu – “não serão as mais belas, mas hão de ser, por força, as mais lavadas…”. Portanto, é biográfico, mas é ficcional, é poético. Muito interessante foi o trabalho de entrelaçar poesia e vida de Gregório de Matos. Eu agora o conheço um pouco mais.

No fim do livro, você escreve uma espécie de ensaio, onde justifica a escolha por voltar a escrever sobre Gregório de Matos e também contextualiza a figura do poeta na literatura, na crítica e na sociedade brasileira. Como se deu essa sua paixão por Gregório e quanto tempo você estima que tenha dedicado ao poeta para finalizar este livro?

A minha paixão por Gregório de Matos nasceu da minha leitura de seus poemas, ou melhor, dos poemas atribuídos a ele. Os sete volumes organizados por James Amado, que li no final dos anos 1970, são um tesouro não apenas da expressão do Barroco brasileiro, como também uma fonte de conhecimentos sobre o nosso passado, e uma fonte fascinante, diferente de documentos; fala sobre as pessoas, os sentimentos, os costumes, os dilemas, os conflitos, a vida, enfim, de antepassados nossos. Tudo isso é fabuloso! Mas o que me apaixonou foi mesmo a linguagem dos poemas, o modo barroco de falar, as expressões. Foi a linguagem que consumou o nosso casamento. Essa convivência de décadas me deu uma boa desenvoltura para falar de Gregório, sinto-o sempre ao meu lado, e precisei de apenas alguns meses para escrever a biografia de mais de quinhentas páginas, enquanto demorei uma década para escrever um romance sobre ele. Também, não tive o desafio da criação de um romance. A biografia foi mais simples de escrever.

O quanto você teve que pesquisar a mais para fazê-lo, já que Gregório foi personagem de Boca do Inferno, sua estreia no romance, que lhe rendeu prêmios, tantos leitores, e reconhecimento?

Nestes anos de trabalho com literatura, escrevendo livros que se passam em épocas antigas, desenvolvi uma extrema capacidade de pesquisa. Parece que há algum aspecto mágico a me guiar, sempre encontro o que procuro, e tenho intuição para o que não procuro. A pesquisa me lembra uma floresta escura, onde aprendi a me guiar, já conheço as árvores, as trilhas. A vida de Gregório de Matos faz parte do meu passado, das minhas lembranças, e foi apenas uma questão de me debruçar para aclarar as águas. Ainda tenho a estante de livros que li nos anos 1980, sobre o poeta e seu tempo. E desde 1989, quando o romance foi publicado, alguma coisa se descobriu sobre a vida do poeta, graças, especialmente, a seu principal biógrafo, o professor baiano Fernando da Rocha Peres, e a outros que cito na bibliografia. Hoje, há muito material sobre o tema, bem mais do que nos anos 80, quando não havia quase nada, e nem internet, nem estantes virtuais com todos os livros à disposição.

Foi lançada recentemente no Brasil uma coleção de cinco volumes de textos do poeta, na qual os autores, João Adolfo Hansen e Marcello Moreira, relativizam a fama de obsceno de Gregório. Os estudos, publicações e releituras de Gregório nunca se esgotam? Você ainda pretende lançar algo mais relacionado a ele? Acha que possa surgir ainda algo de novo?

O obsceno é uma das faces do poeta. É fruto das circunstâncias, uma questão da época e da tradição portuguesa, e não predomina em sua vida e obra. Também está relativizado na biografia que escrevi. Dessa forma, a Anna Dantes, que fez o trabalho de design do livro, com muita sensibilidade escolheu imagens que não remetem ao obsceno, o que teria sido o óbvio. Mas remetem à sensualidade que está presente no corpo do livro. Acho que ainda há muito a se escrever sobre o poeta e sua obra, ele é um tema fascinante e infinito. Não tenho planos de escrever mais sobre ele. E é preciso que surja algo novo, ainda lhe devemos um estudo aprofundado sobre a questão da autoria dos poemas.

Ainda hoje pairam muitas dúvidas sobre a autoria dos poemas, uma vez que Gregório de Matos jamais publicou um livro, e sua obra chegou até nós em manuscritos não assinados. Como você tratou essa questão, na biografia?

Adotei o pensamento de Antônio Houaiss, em quem tanto confio. Ele escreveu que, diante dos que aprovam e os que desaprovam essa obra, “o processo deve ser anulado, por insuficiência de instrução cabal. Num caso e no outro se aceita o corrente texto disponível como a obra de Gregório de Matos”, etc. Está citado na coleção do James Amado. Adotei todos os textos como fundamento para uma recriação de sua vida, e sem nenhum pudor, uma vez que não estou tratando especificamente da questão literária. Todos os poemas são documentos de sua época. Difícil alguém escapar a essa contingência. Um estudioso português, Francisco Topa, vem realizando um trabalho de verificação, e chega a afirmar que tal e tal poemas não são de autoria de Gregório de Matos. Mas mesmo esses poemas eu usei, para compor a sua vida ou recriar o seu tempo.

Você diz que “A leitura dos poemas de Gregório de Matos nos leva a caminhar pelas ruas da Bahia, navegar pela costa do recôncavo, atravessar o oceano, vagar pelos engenhos coloniais.” Para você, ler Gregório de Matos nos permite conhecer melhor o nosso passado, as nossas origens. Musa Praguejadora cumpre esse papel, ao nos transportar para aquela época. Fale um pouco desse desafio e de como você se sente sendo cicerone de um tempo e uma história tão extraordinária.

É uma questão de imaginação. E de linguagem. As palavras guardam o seu tempo. Um texto qualquer escrito numa época qualquer, num lugar qualquer, nos transporta imediatamente para esse tempo e lugar. Para mim é natural fazer essas viagens na imaginação. Estou acostumada. Tenho a sensação de que realmente vivi na Bahia colonial e acompanhei os passos do poeta. Conversávamos. E a sensação é tão extraordinária quanto a história. É impressionante fazer as conexões com o tempo presente, ir adivinhando os motivos pelos quais somos assim, nós, brasileiros, parece que tudo fica claro. Com esse passado, o Brasil só poderia ser este país. Inferno e paraíso. Ou, como dizia Gregório, inferno para os bons e paraíso para os maus. Gostei muito de escrever essa biografia.

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