Entrevistas

“O cérebro autista”, de Temple Grandin e Richard Panek

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Por Luciana Calaza

Quando uma criança inventa uma máquina do abraço – como fez, mais de meio século atrás, a cientista americana Temple Grandin, diagnosticada com autismo – você não destrói o equipamento e diz: “Essa criança deveria ser como as outras”. Você se pergunta “Bem, como ela é?”, e se ajusta às suas diferenças. Esse é o recado do novo  livro de Temple, “O cérebro autista”, escrito com o jornalista Richard Panek.

Quando Temple nasceu, em 1947, o autismo acabara de ser classificado pela medicina e era um desafio para médicos, terapeutas, pais  e educadores. Quase  70  anos depois, o transtorno começa a revelar seus segredos para a ciência, graças a duas novas rotas de investigação: as neuroimagens e a genética. O caminho ainda parece longo. Mas, sabe-se agora, o autismo não está na mente de um indivíduo. Está em seu cérebro.

Temple apresenta  essas  descobertas no livro, mesclando-as com suas próprias experiências como autista. A cientista compartilha, inclusive, imagens de seu cérebro, mostrando características bem sutis que podem explicar seus traços de personalidade mais peculiares. E, de forma animadora, defende a educação e a qualificação profissional de jovens autistas com foco em seus pontos fortes, muitas vezes ignorados.

Uma leitura essencial para profissionais de saúde e educação. Para pais, é mais que isso. É um abraço apertado. Porque começar a entender um filho depois de muitos anos pode ser muito emocionante.

 Em seu novo livro, você diz que o autismo não está na mente, mas no cérebro. Mas o espectro é grande e algumas pessoas com autismo têm muitas dificuldades.

O autismo não é um transtorno psicológico, mas sim neurológico, e que difere muito em relação à severidade. Einsten não falava com três anos de idade. Se ele tivesse nascido na época atual, ele teria sido diagnosticado como autista. Mas há pessoas com um grau de autismo muito severo, que provavelmente não desenvolverão a fala.

Você diz que a ciência ainda subestima as disfunções sensoriais das pessoas com autismo. Pode explicar o que quer dizer?

Os pesquisadores simplesmente não entendem a urgência do problema. Talvez entendessem se pudessem olhar o mundo do ponto de vista da confusão de falhas neuronais dos autistas. A extrema sensibilidade sensorial pode ser muito angustiante. Sons altos podem machucar os ouvidos da mesma forma que quando se tem um nervo perfurado no dentista.

Você diz também que obsessões podem ser uma ótima motivação para se trabalhar com crianças autistas. Poderia explicar o que quer dizer?

Vou te dar um exemplo de como usar uma obsessão para motivar uma criança com autismo: se uma criança gosta muito de trens, leia livros sobre trens para estimular a leitura. Você pode também ler sobre cidades que podem ser visitadas usando trens. A criança vai se interessar em aprender sobre a cidade porque vai associar ao trem. Esta é uma maneira de tornar a obsessão menos restritiva. Você pode ainda ensinar matemática usando problemas que envolvam trens.

Como pais e profissionais podem ajudar crianças no espectro autista a se tornarem adultos realizados?

Uma criança com autismo pode se tornar um adulto realizado tendo uma carreira na qual faz algo em que seja bom. Muitas crianças com autismo são boas nas artes, na matemática ou na música, por exemplo. Se a criança é boa com música, comece a treiná-la para trabalhar com música profissionalmente.  Se ela é boa na matemática, de repente pode aprender a fazer programação de computadores. Se é boa com artes plásticas, pode aprender técnicas para se tornar um artista. Pais e professores precisam trabalhar para fortalecer as coisas nas quais as crianças são boas. Se um menino autista se tornar um músico profissional, ele precisa chegar a tempo nos shows, ser apto a atender pedidos e isso precisa ser treinado. Minha mãe sempre  incentivou minha habilidade com as artes. E essa habilidade foi a base para a minha carreira como desenvolvedora de currais. Meu livro “Pensando em imagens” explora, inclusive, como comecei minha carreira.

 

Comentários
  • Juliana Cristina Gonçalves

    Olá, bom dia!
    Sou aluna do mestrado em saúde ambiental da FMU e vamos realizar um Workshop com a Temple Grandin. Gostaríamos de saber como ter um Stand de livros nos dias do evento?
    Grata desde já,

    Juliana.

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