Na imprensa

Os cem anos da seca e “O quinze” na imprensa

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Lançado quando a autora tinha apenas 20 anos, “O quinze” foi o livro de estreia de Rachel de Queiroz. Na trama, a escritora, que nasceu no Ceará, narra a saga de uma família durante uma das maiores secas que atingiram o Nordeste brasileiro, em 1915. A história mostra a fuga dos retirantes em meio ao sertão na tentativa de escapar da fome e chegar à capital. O cenário é desolador: perdem parentes pelo caminho e, quando finalmente chegam, vivem amontoados, numa espécie de campo de concentração.

A tal seca retratada pela escritora no livro completou 100 anos em 2015. E “O quinze” chegou também à 100ª edição pela José Olympio no ano passado. O marco foi celebrado com projeto especial, capa dura e prefácio inédito da autora Nélida Piñon. A celebração chegou também à imprensa: muitos veículos se inspiraram na obra de Rachel de Queiroz para relembrar a seca de 1915 e mostrar as diferenças e semelhanças no cotidiano de quem vive no sertão de hoje, separado daquele de “O quinze” por esses 100 anos.

Na semana passada, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de três reportagens: a equipe seguiu os passos do protagonista Chico Bento em Quixadá, no Ceará, e mostrou a realidade de gente que ainda lida com os problemas da seca.

Antes, em setembro, o jornal Estado de São Paulo também já havia publicado uma grande reportagem com abordagem similar; em fevereiro, o pontapé inicial foi dado pelo Diário do Nordeste, que também entrevistou moradores do sertão e preparou um material especial.

Em 2016, a José Olympio vai atualizar o projeto gráfico de toda a obra de Rachel de Queiroz, cujo contrato para publicação foi renovado no ano passado. São 20 livros, incluindo os infantis e juvenis, um livros de crônicas reunidas e uma peça de teatro. O próprio “O quinze” abre os trabalhos este ano, junto com “Dora Doralina” e “Memorial de Maria Moura”, primeiras obras a serem lançadas com novo visual.

Leia abaixo um trecho de “O quinze”:

 

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas.

— Mãezinha, cadê a janta?

— Cala a boca, menino! Já vem!

— Vem lá o quê!…

Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos… nem um triste vintém azinhavrado…

Lembrou-se da rede nova, grande e de listas que comprara em Quixadá por conta do vale de Vicente.

Tinha sido para a viagem. Mas antes dormir no chão do que ver os meninos chorando, com a barriga roncando de fome.

Estavam já na estrada do Castro. E se arrancharam debaixo dum velho pau-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer ao tempo, porque aqueles cepos apontados para o céu não tinham nada de abrigo.

O vaqueiro saiu com a rede, resoluto:

— Vou ali naquela bodega, ver se dou um jeito…

Voltou mais tarde, sem a rede, trazendo uma rapadura e um litro de farinha:

— Tá aqui. O homem disse que a rede estava velha, só deu isso, e ainda por cima se fazendo de compadecido…

Faminta, a meninada avançou; e até Mocinha, sempre mais ou menos calada e indiferente, estendeu a mão com avidez.

Contudo, que representava aquilo para tanta gente?

Horas depois, os meninos gemiam:

— Mãe, tô com fome de novo…

— Vai dormir, diacho! Parece que tá espritado! Soca um quarto de rapadura no bucho e ainda fala em fome! Vai dormir!

E Cordulina deu o exemplo, deitando-se com o Duquinha na tipoia muito velha e remendada.

A redinha estalou, gemendo.

Cordulina se ajeitou, macia, e ficou quieta, as pernas de fora, dando ao menino o peito rechupado.

Chico Bento estirou-se no chão. Logo, porém, uma pedra aguda lhe machucou as costelas.

Ele ergueu-se, limpou uma cama na terra, deitou-se de novo.

— Ah! Minha rede! Ô chão duro dos diabos! E que fome!

Levantou-se, bebeu um gole na cabaça. A água fria, batendo no estômago limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa.E novamente estendido de ilharga, inutilmente procurou dormir.

A rede de Cordulina que tentava um balanço para enganar o menino — pobrezinho! O peito estava seco como uma sola velha! — gemia, estalando mais, nos rasgões.

E o intestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum…

 De manhã cedo, Mocinha foi ao Castro, ver se arranjava algum serviço, uma lavagem de roupa, qualquer coisa que lhe desse para ganhar uns vinténs.

Chico Bento também já não estava no rancho. Vagueava à toa, diante das bodegas, à frente das casas, enganando a fome e enganando a lembrança que lhe vinha, constante e impertinente, da meninada chorando,do Duquinha gemendo:

“Tô tum fome! Dá tumê!”

Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra.

Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho…

E a mão servil, acostumada à sujeição no trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante.

A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram.

Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta.

Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos:

“Mãe, dá tumê…”

E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daquela miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo…

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