Entrevistas

“Vamos juntas? – O guia da sororidade para todas”, de Babi Souza

Nenhum Comentário

Por Cláudia Lamego

A jornalista Babi Souza voltava de ônibus à noite de mais um dia de trabalho em Porto Alegre. Precisava cruzar uma rua escura e deserta para chegar a seu destino e sentiu medo. Ao olhar em volta, viu que diversas outras mulheres caminhavam da mesma forma, apreensivas. “E se fossem juntas?”, ela pensou. Nascia ali a primeira ideia do “Vamos juntas?”, projeto que incentiva mulheres a oferecer companhia e apoio às outras e que agora chega às prateleiras em formato de livro. Em “Vamos juntas? – O guia da sororidade para todas”, Babi conta a trajetória da iniciativa, mostra depoimentos compartilhados por algumas das milhares de mulheres que conectou no projeto e ainda apresenta conceitos básicos sobre feminismo, empoderamento e, principalmente, sororidade.

No livro, que teve pré-lançamento em Porto Alegre no Dia Internacional da Mulher e chega a todas as livrarias do Brasil agora em março pela Galera Record, Babi defende a união como a melhor saída para as mulheres em sua luta contra o machismo e a opressão. Nesta entrevista, ela fala sobre suas expectativas com a obra, formas de colocar a sororidade em prática e o processo de escrita do livro.

 

As mulheres aprenderam a competir, em vez de se juntar. As novas gerações, no momento em que surge o “Vamos juntas?” e a campanha do primeiro assédio, por exemplo, talvez já estejam muito mais próximas da sororidade propagada por esses movimentos. Como fazer chegar essa mensagem a mulheres mais velhas, ainda muito impregnadas da velha cultura? Acha que o livro pode funcionar como um primeiro passo?

Com certeza o livro terá esse papel. Muitas mulheres mais velhas têm conhecido o Vamos juntas? através de suas filhas e, no momento em que a mensagem do movimento ultrapassa a barreira da internet e está dentro da casa dessas famílias, certamente está mais perto delas também.

Você trabalhava numa agência de comunicação e teve o insight do “Vamos juntas?”. Atender a essa enxurrada de afeto, de depoimentos e também de pedidos de ajuda de mulheres do Brasil todo é uma das maiores provas de sororidade possível, não? Como você tem lidado com isso desde então?

Sim, o carinho que eu sinto das apoiadoras do movimento que nem me conhecem pessoalmente é uma grande prova de que a sororidade existe e, principalmente, de que quando uma mulher estende a mão pra gente (como eu fiz para elas) a recíproca sempre é verdadeira.

Hoje, há uma discussão muito forte sobre o lugar de fala de minorias ou grupos que sofrem com preconceitos, assédio e exclusão. Até que ponto você concorda que um homem possa participar ou opinar sobre questões de gênero, por exemplo? Acredita que esse lugar necessária e urgentemente deve ser ocupado pela mulher? Acredita que a liberdade de expressão possa, em alguns casos, estar acima da legitimidade de fala de algum grupo?

Sem dúvidas o protagonismo nessas causas deve ser das mulheres. Elas devem debater, elas devem procurar e protagonizar soluções, mas acredito que quanto mais homens observarem essa luta e entenderem minimamente como é ser mulher, melhor será. Não acredito que a violência de gênero seja solucionada apenas com mulheres falando sobre isso, afinal, ela parte dos homens. Na página mesmo recebo mensagens de homens que comentam sobre como passaram a entender melhor o assédio, por exemplo, depois de acompanhar a página. Aprender sobre como as mulheres se sentem e como respeitá-las é fundamental.

Como responder à questão da competição feminina no território das relações afetivas? No episódio da Ivete Sangalo com uma suposta rival, várias mulheres se solidarizaram com a cantora. A “outra” é vista como invasora de um território sagrado da união, enquanto que o homem tem sua atuação relativizada. Há casos e casos ou nesse terreno a sororidade também é mais que válida?

Principalmente nessas relações do dia a dia a sororidade deve ser colocada em prática. A clássica história de que quando o marido de uma mulher trai é culpa da outra mulher, e não do marido, reproduz um padrão muito triste. E é nessas vivências do lar que as crianças aprendem a ser sexistas, a culpabilizar a mulher e a sempre privilegiar o homem. Vai do lar para a vida.

Por último, conte um pouco do processo do livro. Ele mescla a história do “Vamos juntas?” com informações e depoimentos, num equilíbrio perfeito para quem quer entender um pouco esse universo e o conceito de sororidade. Em quanto tempo você conseguiu produzir, como foi o processo de seleção das histórias, enfim, conte um pouco desses bastidores da produção.

Foi um desafio e tanto escrever o livro a tempo de ele ser lançado no mês da mulher. Mas como a vibe desse mês é de revolução e reflexão, senti que precisava mesmo fazer esse esforço: escrevi o livro em dois meses. Foi um período intenso de muita pesquisa, análises e reflexões. A página me ajudou muito com isso e foi nesse mesmo processo de imersão dentro do universo da mulher que eu reli todas as histórias já publicadas pela página e escolhi aquelas que serviram melhor como exemplo para cada momento do livro. Eu aprendi muito escrevendo o livro e me esforcei demais para que ele fosse uma obra de fácil entendimento para todos. O meu maior objetivo em escrevê-lo era justamente transformar o guia em algo democrático que tocasse o coração de todos, de forma que cada leitor entendesse por qual motivo é tão indispensável colocar a sosoridade na nossa vida.

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais