Na imprensa

Leia um trecho de “Uma vida pequena”, de Hanya Yanagihara

Nenhum Comentário

JB não era dado à introspecção, mas, no trem a caminho da casa da mãe naquele domingo, não pôde deixar de experimentar uma leve sensação autocongratulatória, combinada a algo próximo de gratidão, por ter a vida e a família que tinha.

Seu pai, que havia emigrado para Nova York do Haiti, morrera quando JB tinha três anos e, embora JB sempre gostasse de pensar que se lembrava de seu rosto –bondoso e gentil, com uma pequena tira de bigode e bochechas arredondadas como ameixas quando sorria–, ele nunca saberia se apenas achava que lembrava, tendo crescido vendo a fotografia do pai na mesinha de cabeceira da mãe, ou se lembrava de verdade.

Ainda assim, aquela fora sua única tristeza quando criança e, no entanto, parecia mais uma tristeza obrigatória: não tinha pai e sabia que as crianças sem pai sofriam com essa ausência em suas vidas. Mas ele próprio jamais sentira esse tipo de anseio. Depois que o pai morrera, sua mãe, uma haitiano-americana de segunda geração, fizera doutorado em pedagogia, enquanto lecionava na escola pública perto de casa que não achava boa o bastante para JB.

Quando ele entrara para o ensino médio como bolsista numa escola particular cara, a uma hora de trem de onde moravam no Brooklyn, a mãe era diretora de outra instituição, uma escola técnica em Manhattan, e professora adjunta no Brooklyn College. Um artigo no “New York Times” comentara sobre seus métodos de ensino inovadores e, embora fingisse aos amigos que não se importava, JB sentia orgulho da mãe.

Ela sempre estivera muito ocupada durante a infância do filho, mas JB nunca se sentira negligenciado, nunca sentira que a mãe amava seus alunos mais do que o amava. Em casa ficava também a sua avó, que cozinhava tudo o que ele quisesse, e cantava para ele em francês, e lhe dizia literalmente todo dia que ele era um tesouro, um gênio, o homem da sua vida. E havia suas tias, a irmã de sua mãe, que era detetive em Manhattan, e a namorada dela, uma farmacêutica e também americana de segunda geração (embora fosse de Porto Rico, não do Haiti), que não tinham filhos e o tratavam como seu próprio. A irmã de sua mãe gostava de esportes e o ensinou a pegar e arremessar uma bola (algo que, mesmo na época, não lhe inspirava o menor interesse, mas acabou se tornando uma habilidade social útil depois), e a namorada se interessava por arte; uma de suas recordações mais antigas era a de uma visita com ela ao Museu de Arte Moderna, onde se lembrava claramente de olhar para “One: Number 31, 1950” emudecido de admiração, mal ouvindo a tia enquanto ela explicava como Pollock fizera a pintura.

Durante o ensino médio, quando um pouco de revisionismo pareceu necessário para ele se distinguir e, especialmente, causar desconforto em seus colegas de turma ricos e brancos, ele alterou a verdade de sua condição: tornou-se outro garoto negro sem pai cuja mãe só completara os estudos depois que ele nasceu (deixou de mencionar que fora o doutorado que ela completara, por isso as pessoas presumiam que fosse o ensino médio) e cuja tia trabalhava nas ruas (de novo, presumiam que fosse prostituta, e não detetive).

Sua foto de família favorita fora tirada por seu melhor amigo no ensino médio, um menino chamado Daniel, ao qual ele revelara a verdade pouco antes de deixá-lo tirar o retrato da família. Daniel vinha trabalhando numa série de fotos sobre, como ele chamava, famílias “quase à margem da sociedade”, e JB tivera que corrigir às pressas a percepção de que sua tia era meretriz e sua mãe tinha um nível de escolaridade baixo antes de deixar o amigo entrar na casa. A boca de Daniel se abrira, mas nenhum som emergira, e então a mãe de JB chegara à porta e mandara que saíssem logo do frio, e Daniel tivera de obedecer.

Daniel, ainda atônito, posicionara-os na sala de estar: a avó de JB, Yvette, sentada em sua cadeira favorita de espaldar alto; de pé, sua tia Christine e a namorada, Silvia, de um lado; JB e sua mãe do outro. Mas então, pouco antes de Daniel tirar a foto, Yvette exigira que JB ocupasse o seu lugar.

– Ele é o rei da casa –dissera a Daniel enquanto as filhas protestavam.

– Jean-Baptiste! Sente-se!

Ele se sentou. Na foto ele apertava os dois braços da poltrona com suas mãos rechonchudas (já era rechonchudo na época), enquanto de cada lado as mulheres lhe lançavam olhares amorosos. Ele próprio olhava diretamente para a câmera, com um sorriso largo, sentado na cadeira que devia ter sido ocupada por sua avó.

A fé que elas depositavam nele, em seu triunfo, persistia inabalável, de maneira quase desconcertante. Estavam convencidas –mesmo quando a convicção do próprio JB era testada tantas vezes que tinha dificuldade em sustentá-la– de que um dia ele seria um artista importante, que seu trabalho seria exibido nos principais museus, que as pessoas que ainda não lhe tinham dado oportunidades não tinham consciência do seu dom. Às vezes ele acreditava nelas e se deixava levar por toda aquela confiança. Outras vezes ficava desconfiado –a opinião delas parecia tão oposta à do resto do mundo que ele se perguntava se não estariam sendo condescendentes com ele, ou eram simplesmente loucas. Ou talvez tivessem mau gosto. Como podia o julgamento de quatro mulheres diferir tanto do das outras pessoas? As chances de que a opinião delas fosse a certa não eram lá muito boas.

E, no entanto, ele se sentia aliviado todo domingo nessas visitas secretas à casa, onde a comida era abundante e grátis e a avó lavava a sua roupa e onde cada palavra que ele dizia e cada rascunho que mostrava era admirado e elogiado. A casa de sua mãe era território familiar, um lugar onde ele sempre seria reverenciado, onde cada costume e tradição parecia feito sob medida para ele e para suas necessidades particulares. A certa altura da noite –depois do jantar, mas antes da sobremesa, enquanto todos descansavam na sala de estar vendo televisão e o gato de sua mãe descansava no colo dele – JB olhava para suas mulheres e sentia algo inflar dentro de si. Pensava então em Malcolm, com seu pai incrivelmente inteligente e sua mãe afetuosa, mas desligada, e depois em Willem, com seus pais mortos (JB estivera com eles uma única vez, no fim de semana da mudança no fim do primeiro ano de faculdade, e ficara surpreso ao ver como eram taciturnos, formais, tão diferentes de Willem) e finalmente, é claro, em Jude, com seus pais completamente inexistentes (o que era um mistério –conheciam Jude havia quase uma década e ainda não sabiam ao certo quando ou se chegara a ter pais, somente que seu passado era triste e não devia ser comentado), e sentia uma onda calorosa e fluida de felicidade e gratidão, como se um oceano estivesse subindo em seu peito. “Tenho sorte”, pensava ele, e então, porque era competitivo e avaliava sua posição diante de seus pares em cada aspecto da vida, “sou o mais sortudo de todos”. Mas nunca pensava que não merecia aquilo, ou que deveria se esforçar mais para expressar sua apreciação; sua família ficava feliz quando ele estava feliz e por isso sua única obrigação com elas era ser feliz, viver exatamente a vida que queria, nos termos que queria.

– Não temos as famílias que merecemos –dissera Willem certa vez, quando estavam muito chapados. Ele, naturalmente, falava de Jude.

– Concordo –respondera JB.

E concordava mesmo. Nenhum deles –nem Willem, nem Jude, nem mesmo Malcolm– tinha a família que merecia. Mas, secretamente, ele fazia uma exceção a si mesmo: ele tinha a família que merecia. Elas eram maravilhosas, verdadeiramente maravilhosas, e ele sabia disso. E, o que é mais, ele as merecia, sim.

– Chegou meu garoto brilhante – dizia Yvette sempre que ele entrava em casa.

Nunca lhe ocorrera que ela pudesse não estar totalmente certa.

 

 

*Tradução de Roberto Muggiati

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais