Entrevistas

“Grito”, de Godofredo de Oliveira Neto

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Por Manoela Sawitski

 

Ainda que o real seja insuficiente ou medíocre, a arte pode alterar os rumos da vida, criando outros espaços, ressignificando a passagem do tempo. De muitas formas, esse pode ser o caso de Eugênia e Fausto, uma atriz octogenária aposentada e um jovem ator iniciante, vizinhos em Copacabana e atores num reino particular onde realidade e fantasia, vida e arte, erudito e popular, literatura e teatro se misturam. São eles os personagens centrais de Grito, o mais recente romance de Godofredo de Oliveira Neto.

O escritor catarinense radicado no Rio de Janeiro é graduado e mestre em Letras pela Universidade da Sorbonne e doutor em Letras pela UFRJ, onde é professor desde a década de 1980. Dele, a editora Record também publicou Amores exilados, Menino oculto, Ana e a margem do rio, e O bruxo do Contestado.

 

O universo teatral não está apenas tematizado no livro, também o molda estruturalmente. Como você chegou a essa estrutura?

O teatro é onde se dá a transmissão de mensagens múltiplas e simultâneas, arte que se encaixa bem no século XXI, mundo da simultaneidade das informações. A literatura só tem a ganhar com essa extensão. Ela que, se comparada ao teatro, é monódica, pois utiliza só o código da língua escrita. Grito tenta abraçar e homenagear essas duas formas artísticas. E como fundo e forma são indissociáveis, a arquitetura do livro leva em consideração esses dois discursos narrativos. Cenas teatrais vão servir de metáforas para a narrativa literária.

 

Qual tem sido sua relação com a dramaturgia e o teatro?

Relação intensa e densa de leitor e de frequentador assíduo de teatro.  O drama que se aproxima inexoravelmente na relação entre Fausto e Eugênia no livro foi  pensado como eu estivesse assistindo a um espetáculo de teatro.

 

Esse encontro de Eugênia, uma atriz octogenária aposentada, com o jovem Fausto, que dá os primeiros passos como ator, vizinhos em Copacabana, nos transporta para um território estranho e fabuloso, onde os dois se multiplicam, desempenhando inúmeros papéis. Como os dois personagens surgiram para você?

Foi lendo Goethe – Fausto e o Werther, Thomas Mann e o seu Fausto, Valéry idem, Shakespeare e os brasileiros Machado, Vianninha, Nelson Rodrigues, Boal e o teatro brasileiro contemporâneo que o livro foi saindo. E os inúmeros papeis que tanto fascinam o personagem Fausto do Grito correspondem, ainda que eu não tenha me dado bem conta quando escrevia, às múltiplas identidades dos  jovens contemporâneos.

 

Há inúmeras referências a salas de espetáculo e peças em que Eugênia teria atuado,  isso pressupõe uma pesquisa de época e referências de personagens reais para composição da personagem?

Sim, esse era o desafio. Uma pesquisa de época sem cair no didatismo. O importante para a literatura é em primeiro lugar a fruição. Mas ela tem também a função de desnudar um real fabricado e de recusar a vida acanhada e curta dos humanos diante da grandiosidade do universo e da natureza. A pesquisa, então, levou em conta o conhecimento acumulado concentrado nos canônicos e o diálogo com o contemporâneo.  Eugênia tem conhecimento histórico da cultura teatral advinda de leituras mas principalmente da sua experiência de atriz de teatro com dezenas de textos decorados. Já o jovem Fausto está dando os primeiros passos.

 

Você investe fortemente em certos cruzamentos, entre arte e vida, ficcional e real, literatura e teatro, juventude e velhice, de tal modo que polos aparentemente opostos se tocam e por vezes se fundem.  Pode falar um pouco sobre esse aspecto do romance?

Busquei explorar o fato de que existe, tudo bem, polaridade e antinomia na vida e na arte, como justamente a juventude e a velhice. Mas as oposições são quase sempre simplificadoras e redutoras. Quis fugir desse esquema que leva necessariamente ao preconceito. Juventude, velhice, alta cultura e cultura popular misturados.

 

Fausto encena histórias do seu cotidiano de rapaz negro e pobre, e o grito da irmã gêmea que morreu no parto está sempre presente. Estar em cena seria uma forma de dar vida a esse duplo impossível que o acompanha?

Exato. Penso que Fausto tenta dar vida a esse duplo que o acompanha, como você diz. Otto Rank tem um trabalho seminal sobre o tema, principalmente no cinema. Crenças e histórias populares esteiam a arquitetura psicológica da condição humana. O empuxo do processo civilizatório é maior do que a intervenção pontual de homens e mulheres em busca da afirmação da sua individualidade  e da valorização da sua magra contribuição para aquele processo. Eugênia, a experiente atriz de teatro, sabe bem disso, o jovem Fausto do apartamento de Copacabana ainda está aprendendo.

 

Mas Eugênia recusa as experiências e afetos que Fausto desenvolve fora do seu universo particular. Há nessa relação movimentos simultâneos de contenção ou controle e de expansão. Isso faz parte da natureza desse choque entre o velho e o novo? Ou é da natureza das paixões?

É a natureza das paixões, sim. Busquei dar à relação entre Fausto e Eugênia essa direção. A primeira paixão é a paixão de ambos pela arte, a arte dramática. Há uma relação de posse e de dominação entre os atores. Se há outra paixão os leitores dirão.

 

E quanto à questão do erotismo na velhice? Há imagens muito fortes e vívidas do corpo de Eugênia, assim como do seu desejo…

Há todo um espaço relativamente pouco ocupado  para se investigar o tema, que, aliás, nada tem de novo.  Se você pensar no conto de Clarice “Ruído de passos”, por exemplo,  verá essa questão abordada. Há vários   outros exemplos. Mas  tento, no Grito, algo mais assimétrico, uma fusão entre os duplos de que já falamos, um ponto de cruzamento ideal, um espaço ideal que não existe, só na literatura.

 

Eugênia fala, a respeito de Fausto, que “é extremamente gratificante ver um jovem buscando na arte um sentido para a vida. Queria que isso acontecesse com mais frequência no mundo de hoje”. Há em seu relato um movimento constante nesse sentido – verter vida em arte, cotidiano em dramaturgia. Trata-se de um tentativa de redimir o real, um real desfavorável para ambos? A relação entre a arte e a vida hoje, como você a tem percebido?

O real é insuficiente e medíocre. Insuportável até. Penso na frase de Flaubert em carta a sua amante Louise Colet que Vargas Llosa citou em excelente ensaio sobre o escritor francês: “O único meio de suportar a existência é despojar-se na literatura como em uma orgia perpétua”. A vida sai dignificada com a arte.

Comentários
  • Marcelo Pinho

    oi

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