Prata da Casa

O fenômeno Cassandra Clare

1 Comentário

Por Cláudia Lamego

– Cláudia, tá tudo bem aí?, quis saber a editora-executiva da Galera Record, Ana Lima, que estava com membros de vários fã-clubes numa sala do hotel no Anhembi onde ficam hospedados a maior parte dos autores, jornalistas e editores que participam da Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

– Mais ou menos. Eu agora não sei dizer, porque estou na enfermaria do evento acompanhando uma menina de 14 anos que desmaiou.

Naquele momento, a sala de atendimento médico talvez fosse o lugar mais tranquilo dentro do Pavilhão. Nos fundos, uma multidão se acotovelava, passava mal, gritava e chorava por uma senha que desse direito a um autógrafo da Cassandra Clare, autora das séries “Instrumentos mortais” e “Peças infernais”. A distribuição estava marcada para as 10 horas da manhã daquele sábado, mas cerca de quinze minutos antes da abertura da feira fãs exaltados quebraram as portas de vidro (ninguém se machucou!!) e invadiram o local numa correria desabalada ao estande da editora. Pegos de surpresa, os funcionários da Record e os da Bienal improvisaram um espaço maior para organizar a fila. Deu errado. Todo mundo se embolou. Todo mundo queria a senha. Não havia senha para todos. Já não me lembro como o imbróglio todo foi resolvido, mas sei certinho a cara de cansaço, fome e, pasmem, alegria com a qual terminamos aquele dia.

Com mais de um 1,6 milhão de livros vendidos no Brasil e 36 milhões no mundo todo, Cassandra atraiu à Bienal de São Paulo milhares de fãs de todo o país, de Norte a Sul. Na fila já há quatro horas, um menino chorava porque seu ônibus partiria para Santa Catarina naquele instante e ele ainda estava longe da autora. Excepcionalmente, deixamos o garoto furar a fila. Idade: 8 anos. Uma equipe de TV logo quis entrevistá-lo. Na mesa, a autora, que nasceu no Irã, filha de americanos, e passou a infância e adolescência nos Estados Unidos, se surpreendia com os pedidos inusitados dos brazucas:

– Speak “pão de queijo”, please.

– Cassandra, say BRIGADEIRO for brazilian fans.

Ela, simpática, atendia. Depois nos pedia para traduzir. Muitos, eu diria que a maioria, chegavam perto dela falando inglês. Traziam presentes. Desenhos. Flores. Cartas. Outros queriam abraçar. Encostar. Mostrar a tatuagem dos símbolos do universo dos livros dela. Outros vinham fantasiados. Com cartaz. Com camisetas feitas especialmente para o encontro com a autora. Uns ficavam mudos. Outros choravam. Uma professora de um colégio público de São Paulo gastou seu parco inglês para dar um recado à autora:

– Fiz questão de vir aqui te agradecer pessoalmente por fazer os meus alunos gostarem de ler. Eles te adoram, Cassandra.

Quando coisas especiais assim aconteciam, Cassandra levantava, abraçava e dava um presente. Ela trouxe vários colares para dar aos fãs. Assim que os mimos acabaram, um adolescente negro se aproximou e contou que tinha desistido de se matar desde que lera os livros dela. Por que? Porque a história tinha um personagem gay, assim como ele, e herói, com quem ele se identificou. Cassandra chorou. E tirou o próprio colar para dar a ele.

9788501401083.No dia seguinte, funcionários da Record passaram a noite na fila para evitar os transtornos do dia anterior. Cheguei cedo para acompanhar a imprensa, que estava em polvorosa para saber se haveria confusão novamente. Nos primeiros lugares, um pai com ar de cansado tirava fotos com as duas filhas e uma amiga. “Viemos do interior, de carro, e passamos a noite aqui. Ele é o melhor pai do mundo”. Devia ser mesmo. No dia seguinte, no aeroporto de Congonhas, um senhor se aproxima e pede para tirar foto com a autora. Eu, que até chegar na editora, três meses antes, nunca tinha ouvido falar em seu nome, fiquei de cara. “Minha filha é muito fã. Tenho que tirar a foto porque se eu contar que encontrei a Cassandra, ela não vai acreditar em mim”.

Naquela tarde, no Rio, mais choro, mais autógrafo, mais emoção. Uma moça contou que passou dias em convalescença no hospital com os livros da Cassandra. E só melhorou por causa deles, acredita. Eram muitas histórias emocionantes. Impossível lembrar de todas. Impossível esquecer o furacão que foi a passagem dela no Brasil. Cenas que vêm à mente agora que o livro novo está nas livrarias. Imagino todas aquelas pessoas em suas casas, nos ônibus, nos hospitais, nas escolas, wherever, lendo e se emocionando com a história da heroína Emma, estrela de “Dama da meia-noite”, livro que inaugura nova série, “Os artifícios das trevas”. Será que a Cassandra um dia volta?

Comentários
  • Bianca

    Que texto lindo! Eu não vi a Cassandra qd ela veio, qs antecipei as férias para tentar vê -la na Bienal de SP. Ela, assim como outros autores (Rowling, minha diva!!) tem um dom especial de cativar multidões… Espero ansiosamente ela voltar para o Brasil, pq na próxima vez, eu arrumo até um atestado para faltar ao trabalho! Kkkkk.

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