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Uma mensagem sobre amor e envelhecimento

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J Egberto25Por Teresa Palazzo Nazar

Sempre penso que as ideias vão me tomar de assalto e fazer verter sobre o papel borbulhas de palavras, mas não. Esse pequeno comentário tomou-me um certo tempo e algumas  horas de sono . Será que foi porque o assunto  “A mãe eterna” colocou-me em conflito com a questão já sabida da transitoriedade? Não apenas Freud, mas outros escritores ocuparam-se desse assunto e eu, sempre suspeitei que falar e/ou escrever  sobre a brevidade da vida era uma boa maneira de perder o medo da morte, encará-la  como o que, justamente, lembra-nos da beleza na natureza e no homem , pois “o valor da transitoriedade é o valor do tempo “1. Nisso está a importância de dar lugar digno não apenas ao nascimento e à vida produtiva de alguém, mas também reconhecer as marcas do envelhecimento como traços de uma experiência, que sendo comum a todos, faz-se singular a cada vez e tem sua beleza e lugar.

Em “A mãe eterna”, Betty Milan aborda não somente a questão da velhice extrema. Ela revela de modo tocante os sentimentos de quem a experimenta nos dois lados da questão: aquele que envelhece e quem o assiste. Trata-se de um texto sobre a delicadeza da relação entre duas mulheres. Uma mãe e sua filha. Um momento em que o amor que as une não apazigua mais a violência do tempo, a separação iminente pela morte, desde sempre prometida, mas nunca considerada.

“A bem da verdade, não tenho certeza de nada desde que perdi a certeza de que você estará sempre comigo…desde que você se tornou mortal aos meus olhos. O seu envelhecimento me impôs a perda e eu já  não sou a mesma. Em breve, você terá sido minha mãe.”2

Qual o recurso para um luto a se fazer quando não se tem um cadáver, quando aquele que já não é o que fora resiste ao chamado da morte? A narradora propõe a escrita rememorando o possível para transpor o que é imposto como perda. Recurso esse sofisticado, em que se eterniza o que o tempo e o cotidiano dos dias teimam em fazer esquecer.

O que pode a memória enquanto rastro de letra no corpo? O que ela transmite? A memória se fia e se tece no contar a um outro o que se experimenta; o  verbo no presente denota o fato de que uma experiência é travessia, ultrapassagem de um obstáculo, de uma situação perigosa. No livro em questão, a experiência é não apenas o difícil lidar com uma mãe que quer a morte, mas não a deseja, mas também o trabalho de elaboração de seu percurso com esse outro e de um luto, portanto, de uma separação.

Um estilo de vida implica também um modo de encarar a morte e a autora nos diz lindamente a partir de um comentário da personagem-mãe, parafraseando Hipócrates, que o médico não deve querer vencer a morte, mas cuidar da vida e para isso precisa “curar o corpo consolando a alma.” 3

Encontramos aqui uma outra questão importante levantada nesse livro: a cultura contemporânea, em especial a ciência, não considera o direito de morrer. Tudo é conduzido como se a morte não fosse o destino de todos  tal como está escrito na porta de quase todos os cemitérios: “Nós que aqui estamos por vós esperamos.”

Talvez seja esta uma das razões pela qual nosso tempo “recalca” a morte tanto no plano individual quanto social, estabelecendo mecanismos de defesa em que é bloqueada toda e qualquer alusão ao perecimento, seja iminente ou tardio, apagando ou tentando apagar da cena do mundo a experiência com a morte do outro. O efeito disso pode ser observado no modo como são tratados os que estão moribundos em hospitais, onde a assepsia se estende até à interdição do convívio com os familiares e onde a determinação de “manter a vida a todo custo” esquece o quanto custa a perda da dignidade e da livre escolha de morrer entre os seus.

Um dos maiores problemas de nosso tempo é a enorme dificuldade em assistir e dar afeto aos doentes e àqueles que estão em adiantada velhice, como se isso não fizesse parte da vida e como se não fosse um rito necessário à despedida dos entes queridos. Por quê? Porque a morte do outro lembra-nos da nossa própria morte e isso é exatamente o que se quer negar!

Assistir a quem envelhece, Betty nos adverte, implica em desapegar-se das fantasias infantis de imortalidade: “Antes de se apagar, o seu pai me disse querida, eu vou morrer. Como é que ele soube? E eu, filha, quando?”4

De fato, quando se é criança e há a percepção primeira da possibilidade da perda dos pais um conflito se instaura e a angústia advém. Muitos sentimentos carregados de culpa e medo surgem no momento em que os pensamentos sobre a morte do outro e a de si próprio invadem o sonho de imortalidade.

Nossa contemporaneidade promove uma profunda e alarmante fratura na memória, quando tenta negar a morte e, sobretudo, quando afasta do campo da visão e convívio, tanto o doente quanto o velho. Cito: “A visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte. O amor de si sussurra que elas são imortais: o contato muito próximo com moribundos ameaça o sonho acalentado. Por trás da necessidade opressiva de acreditar em nossa própria imortalidade, negando assim o conhecimento prévio de nossa própria morte, estão fortes sentimentos de culpa recalcados, talvez ligados a desejos de morte em relação ao pai, à mãe e aos irmãos, com o temor de desejos análogos da parte deles.”5

Mas, antes de morrer, é preciso ter vivido, construído no corpo próprio e do outro a memória do que terá sido sua experiência, sua travessia. Se a reminiscência encobre e impede a rememoração, a memória está gravada no corpo, como tatuagem de uma trajetória.

Apague os rastros”, parece dizer nossa contemporaneidade. Mas, como esquecer sem antes dar lugar, sem contar a outros? “Como escapar dos ancestrais?” 6 pergunta a personagem-narradora, já que os ancestrais estão presentes mesmo quando não percebemos, nos mínimos gestos, em gostos estranhos, no tom da voz. A letra de seu amor está no dom do nome, mas também nas pequenas estranhezas que identificam e dão o sentimento de pertença. Ao escrever é a letra quem opera, dando a dimensão de exílio entre aquele que escreve, aquele que lê e o que resta como escrito. Seja por isso ou porque escrever oferece, secretamente, a via de um certo triunfo sobre o aniquilamento, escrever acalenta como uma doce canção, em que  “só os mortos inesquecíveis se tornam inteiramente vivos para nós” 7

Para além da perda de alguém que se amou é preciso reconhecer a transitoriedade da própria existência, lembrar que a vida finda no minuto em que o corpo esfria. No entanto, “quem ama não se separa 8“. Faz do corpo inerte memória viva, canção para corações quentes !

1 Freud, S. “Sobre a transitoriedade”. Rio de Janeiro, Imago, 2006, p.317.

2 Milan, B. “A mãe eterna”. Rio de Janeiro. Record, 2016, p. 106

3 Milan, B. “A mãe eterna”. Rio de Janeiro. Record, 2016, p. 34

4 Elias, N. “A solidão dos moribundos”. Rio de Janeiro. Zahar, 1982, p.17

5  Milan, B. “A mãe eterna”. Rio de Janeiro. Record, 2016, p. 35

6 Milan, B. “A mãe eterna”. Rio de Janeiro. Record, 2016, p. 99

Sweig, S. “O mundo insone”. Rio de Janeiro, 2013, p.123

8  Milan, B. “A mãe eterna”. Rio de Janeiro. Record, 2016, p. 140

 

 

 

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