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Um de nós, de Asne Seierstad

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Ela correu.

Subiu a ladeira, passando sobre a camada de musgo. as galochas

afundavam na terra úmida. o chão da floresta fazia um barulho de

sucção sob os seus pés.

Ela vira a cena.

Vira o homem atirar e um menino cair.

“Não vamos morrer hoje, meninas — tinha dito para as duas que

estavam ali com ela. — Não vamos morrer hoje.”

Agora  soavam mais tiros. Estampidos rápidos, uma pausa. Depois,

outra série.

Ela tinha chegado à Trilha do amor. as pessoas corriam ao seu redor, tentando encontrar esconderijos. Atrás dela, uma cerca de arame enferrujada se inclinava, ladeando a trilha. Do lado de fora, penhascos íngremes se lançavam no lago de Tyrifjorden. As raízes de alguns lírios-do-vale se agarravam à ponta do precipício, como se brotassem da própria rocha. Já haviam perdido as flores, e a dobra central das folhas estava coberta da água da chuva que corria num fio sobre a pedra. Do alto, a ilha parecia verde. as copas dos grandes pinheiros se alastravam, confundindo-se umas com as outras. Árvores finas com Delgados ramos folhados se Esticavam para o céu.

Ali embaixo, vista do chão, a floresta era rala.

No entanto, em alguns lugares o capim era tão alto que poderia cobrir uma pessoa. Numa encosta, as formações rochosas se projetavam para fora como escudos oferecendo abrigo.

Os tiros soavam mais nítidos.

Quem estava atirando? Quantos eram?

Ela rastejava para a frente e para trás na Trilha do amor. Havia vários

jovens ali. Já era tarde demais para correr.

“Temos que deitar no chão e nos fingir de mortos — disse um

rapaz. — É só deitar numa posição estranha que eles vão pensar que

estamos mortos!”

Ela se deitou com o rosto parcialmente virado para o chão. Um menino se deitou ao lado com o braço cingindo sua cintura.

Eram onze pessoas. Todos faziam o que um deles disse.

Se ele tivesse dito: “Corram!”, talvez eles tivessem corrido. Mas ele disse: “Deitem no chão!” Pertinho um do outro, estavam deitados com as cabeças viradas para a floresta e os troncos escuros das árvores, descansando os pés contra a cerca. Alguns se apinhavam num grupo,dois amigos tinham se lançado praticamente um em cima do outro.

Duas amigas do peito estavam de mãos dadas.

Vai dar tudo certo — disse um dos onze.”

O pior aguaceiro havia passado, mas os pingos de chuva ainda escorriam por dentro das golas e pousavam sobre as faces suadas.

inspiravam o mínimo de ar possível, tentando deixar a respiração inaudível. Um pé de framboesa estava perdido na ponta do penhasco. rosas-silvestres, de um rosado pálido, quase branco, se agarravam

à cerca. Então ouviram passos se aproximando. Ele caminhou tranquilo pelo urzal. As botas pisaram fundo sobre as campânulas, os trevos e os cornichões. Alguns galhos carcomidos quebraram.

A pele era pálida, úmida; os olhos, claros. Sobre uma calva incipiente, havia uma fina camada de cabelo penteado para trás. Seu sangue estava cheio de cafeína, efedrina e aspirina. Até então, ele havia matado 22 pessoas na ilha. Depois do primeiro tiro, tudo tinha sido fácil. O primeiro tiro custou. Fora quase impossível. Mas a essa altura, ele andava tranquilamente com a pistola na mão. Parou na pequena colina que deveria ter escondido os onze. Calmamente, olhou para eles e perguntou:

“Onde está o filho da puta?”

A voz era alta e clara.

Ninguém respondeu, ninguém se mexeu.

O braço do menino ao lado pesava sobre ela. Ela vestia uma capa de

chuva vermelha e botas de borracha; ele usava uma bermuda xadrez e uma camiseta. Ela tinha a pele queimada do sol; ele era branco.

o homem em cima da colina começou pelo lado direito. O primeiro tiro entrou na cabeça do menino que estava deitado na extremidade do grupo. Depois, ele mirou na parte de trás da cabeça dela. Os cabelos castanhos ondulados brilhavam molhados na chuva. O tiro atravessou o crânio e entrou no cérebro. Ele atirou mais uma vez. Dessa vez apontando para o topo da cabeça. Essa bala também atravessou o cérebro e continuou pela garganta em direção à cavidade torácica, parando perto do coração. O sangue estava sendo bombeado para fora. Escorria ao longo do jovem corpo, pingava na trilha, molhava as agulhas de pinheiro e se empoçava em pequenas depressões no chão. Segundos depois, o menino que a estava abraçando foi atingido. O tiro atravessou o topo da cabeça. A bala se estilhaçou ao atingir pele, tecido, osso. Os estilhaços alcançaram o cerebelo e despedaçaram o tronco cerebral. O coração parou de bater.

Da cabeça, gotejou um pouco de sangue. O sangue se misturou com a água da chuva e penetrou no solo.

Um celular tocou dentro de um bolso. Outro emitiu um bipe de mensagem recebida. Uma menina sussurrou “não” em voz baixa, quase inaudível, no momento em que foi atingida na cabeça. Seu “nããão” alongado foi esvaecendo e emudeceu.

Os tiros vieram em intervalos de poucos segundos. Suas armas tinham mira a laser. A pistola emitia um raio verde; o fuzil, um vermelho. as balas acertavam o ponto indicado pelo raio.

Uma menina quase no final da fileira lançou um olhar para as botas pretas e lamacentas. Na parte de trás do calcanhar, apontando para a trilha, havia esporas de ferro.Nas calças, reluzia uma faixa refletiva xadrez.

Ela estava segurando a mão de sua melhor amiga. Seus rostos estavam virados um para o outro.

Um tiro disparou, a bala passou pelo topo da cabeça, pelo crânio e pelo lóbulo frontal da mais loura das duas. os espasmos atravessaram seu corpo, alcançando a mão dela, que se soltou da mão da outra.

Dezessete anos é uma vida muito curta, pensou a que ainda restava.

Então houve outro estampido.

O tiro zuniu no ouvido, rasgou o couro cabeludo. o sangue correu

pelo rosto, banhando as mãos nas quais descansava a cabeça.

o menino do lado sussurrou:

Estou morrendo. Socorro, estou morrendo, me ajude — implorou.

Sua respiração ficou cada vez mais baixa até não sair mais nenhum

som.”

De algum lugar no meio do grupo soavam gemidos fracos. Havia soluços baixos e alguns sons guturais. Depois se ouviam

Apenas lamentos fracos.

No fim, o silêncio era total. Onze corações haviam batido sobre a trilha. Agora, um só continuou batendo.

Um pouco mais adiante, um tronco de árvore cobria um buraco na cerca. Vários jovens haviam passado pela pequena abertura, descendo a encosta íngreme.

“As meninas primeiro!”

Um rapaz tentava ajudar as pessoas a descerem. ao ouvir os tiros da trilha, ele mesmo se preparou para o salto. Sobre areia molhada, pedras e cascalho, lançou-se da Trilha do amor.

Sentada na ponta de uma formação rochosa, estava uma moça de  cabelos ondulados. Ela o viu no meio do salto e chamou seu nome. Ele parou assim que o pé atingiu o chão, freou e olhou em volta.

“Vem sentar aqui comigo! — chamou ela.”

Havia jovens ao longo de toda a rocha. Eles se apinharam, abriram espaço, e ele se sentou ao lado dela. Os dois se conheceram na noite anterior. Ele era do norte; ela, da região oeste.

Ele a pusera em cima do palco durante o show. Namoraram na Trilha do amor, descansaram no Cabo Desnudo. a noite de julho tinha sido escura. Ela emprestara seu casaco a ele. Na última ladeira antes de chegar ao acampamento, ele lhe pedira que o carregasse nas costas, de tão cansado que estava. Ela rira. Mas o carregara. Só para tê-lo perto dela. O assassino deu chutes nos onze jovens da trilha para certificar-se de que estavam mortos. Menos de dois minutos foi o tempo gasto com eles. Não tinha mais o que fazer ali e continuou andando pela Trilha do amor.

Dentro do uniforme, pendia um medalhão numa corrente de prata, uma cruz vermelha sobre esmalte branco. a cruz era cravada de uma intrincada filigrana, um capacete de cavaleiro e uma caveira. agora, o

medalhão batia contra a cova da garganta enquanto ele, dando passos firmes e calmos, olhava à sua volta. De um lado, a floresta rala; do outro, o precipício para além da cerca.

Ele parou perto do tronco de árvore. Espiou-o e passou os olhos pela encosta íngreme. Um pé saía para fora de uma formação rochosa. Ele viu algumas cores numa moita. O menino e a menina seguravam as mãos um do outro com força. Ouvindo os passos pesados pararem, ela fechou os olhos. O homem de uniforme levantou o fuzil e mirou no pé.

Ele puxou o gatilho. O menino deu um grito, e sua mão escapou da mão da menina. Areia e pedras salpicaram o rosto dela. Ela abriu os olhos.

Ele desceu aos saltos. Será que estava caindo, será que estava pulando? Ela não sabia. Seu corpo foi lançado mais longe ao ser atingido por outro tiro, dessa vez nas costas. Ele flutuou no ar. Aterrissou à beira do lago. Ali ficou pendurado sobre uma pedra. A bala havia atravessado a jaqueta, o casaco que ele lhe pedira emprestado no  dia anterior, o pulmão, a caixa torácica, antes de romper a artéria do pescoço.

O homem na trilha cantou vitória.

“Hoje vão todos morrer, seus marxistas!”

Ele ergueu a arma novamente.

 

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