Entrevistas

“O Brasil na fita”, de Ricardo Molina

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Por Cláudia Lamego

Do toque contínuo de relógio ao fundo, a um capítulo de uma novela que se ouve ao longe, passando pela leitura labial e uma mais complexa reconstituição de cena de um crime, são muitos os recursos utilizados pelos peritos para formularem seus laudos. A tecnologia ajuda, e muito, mas a inteligência e a perspicácia também são ingredientes fundamentais para atestar uma suspeita ou negar um fato. Nenhum detalhe é irrelevante. Deixar de fora um elemento importante pode ser indício de fraude ou desleixo interessado. São muitos os casos relatados pelo perito Ricardo Molina em seu “O Brasil na fita”, uma espécie de diário de seu trabalho em anos nos casos mais rumorosos e polêmicos do país.

O seu livro é uma espécie de diário contemporâneo de nossa história. Durante esses anos todos de atuação como perito nos casos políticos e criminais mais importantes do país, você chegou a escrever um diário mesmo, anotações, algo do tipo?

Nunca escrevi um diário. Mas como sempre guardei toda a documentação relacionada com cada caso, assim como os próprios laudos emitidos, a maior parte das informações pode ser recuperada. A memória, por enquanto, ainda ajuda. Além disso, muitos dos casos tiveram repercussão na imprensa e estão até hoje na internet, mesmo os antigos da era pré-internet. Isso facilitou a pesquisa e a comprovação dos dados. Vale ressaltar que o que pautou a escolha pelos assuntos que integram o livro foram a importância do acontecimento no cenário nacional e a diversidade de técnicas periciais envolvidas.

Complementando a pergunta anterior, quando você achou que tinha um bom livro em mãos? E como foi o processo de produção, entre a pesquisa nos arquivos, o agrupamento por temas e a escrita?

Não creio que tive a clara sensação algum dia de ter um “bom livro”. Tinha sim a percepção de que 25 anos elaborando laudos nas mais diversas áreas e sabendo que boa parte desses laudos envolvia questões políticas importantes, muitas delas afetando diretamente os rumos da política nacional, surgiu a ideia de colocar em um livro essa experiência. Na verdade, sem o entusiasmo e dedicação do jornalista Ricardo Lima, acho que o livro nunca teria saído. Conversamos a respeito da ideia, e ele fez uma pesquisa inicial nos meus arquivos e nos arquivos da imprensa, levantando e organizando um enorme material. Ao constatarmos o volume de informações que foi obtido, assim como seu conteúdo, concluímos que o livro teria que ser produzido.

A questão da organização dos temas foi bastante difícil. Alguns casos foram agrupados por envolverem mais diretamente ações policiais, outros por darem ênfase a aspectos políticos, outros ainda, pela sua importância e complexidade, mereceram capítulos isolados (Magri, PC Farias, Ossadas de Perus, ACM e Gil Rugai).

A escrita foi um processo a quatro mãos. Eu e o Ricardo Lima nos reuníamos semanalmente, durante mais de quatro anos, e, a partir de dados levantados, em diversas fontes e, obviamente, da minha própria memória, fomos escrevendo e, principalmente, reescrevendo inúmeras vezes cada capítulo, até chegarmos a um resultado que nos pareceu satisfatório.

No livro, você diz que nunca pertenceu a partido político e já fez laudos que prejudicaram gente de vários partidos. Também cita o caso de Pelé, um ídolo esportivo do Brasil e seu, em particular, sobre quem você fez um laudo desfavorável. O que você leva em consideração ao aceitar um trabalho? Já chegou a recusar algum? No caso das ossadas achadas no cemitério de Perus, pelo estado deteriorado do material, você teria recusado a assumi-las, se pudesse?

Já fiz laudos para todos os partidos políticos, cujos resultados, eventualmente, beneficiaram ou prejudicaram este ou aquele partido. Meu critério não é nunca político, mas sempre técnico. O que é importante na avaliação preliminar de um caso (e isso é algo que sempre faço) é verificar a viabilidade técnica do que está sendo colocado como objetivo pericial. Não deve interessar ao perito incorporar critérios éticos ou de gosto pessoal em sua decisão quanto a aceitar o caso. O perito é apenas um técnico e não deve emitir juízo de valor (embora, infelizmente, muitos o façam).

Já recusei muitos trabalhos por ter entendido que não havia condições técnicas para a realização do que se pretendia. E tal situação pode ocorrer independentemente de se trabalhar para a acusação ou para a defesa.

O caso das Ossadas, como deixo claro no livro, entendo como um enorme equívoco da Unicamp. Não participei do processo de decisão quanto a aceitar aquele encargo, mas sem dúvida seria contrário. Acho que a própria universidade arrependeu-se de ter se proposto uma missão impossível. O capítulo, que não traz necessariamente um laudo meu (afinal, não sou médico legista) foi incluído porque eu assumi a chefia do departamento de medicina legal naquela ocasião, e quis esclarecer dúvidas e mal-entendidos sobre a minha opinião e posição nesse caso.

Durante as investigações sobre a CPI na Alerj do caso Carlinhos Cachoeira, você chegou a ser acusado de receber dinheiro do bicheiro. Ao responder, disse que dá consultas à imprensa sem receber honorários. Como é a sua relação com os jornais, revistas e telejornais nesse sentido? Em quais casos você cobra honorários pelo trabalho? E quando é apenas uma fonte a confirmar uma notícia?

Nunca recebi nada do Cachoeira. Aliás, os laudos que fiz no caso foram a pedido da Alerj, não do Cachoeira.

Quanto às consultas para a imprensa, a maioria é mesmo sem cobrança de honorários. Caso se trate de um laudo mais elaborado, que envolva um tempo maior de elaboração, pode eventualmente haver cobrança. Isto já aconteceu algumas vezes.

Mas em alguns casos, em função até da celeridade imposta pela imprensa, trata-se de uma consulta   para que o órgão de imprensa tenha a garantia de que o material é autêntico. Dependendo do tempo disponível, a situação tem que ser resolvida em algumas horas. Sendo tecnicamente possível, aceito o desafio, se não é, comunico que seria preciso esperar mais um pouco. Esse tipo de situação pode ser crítica em publicações semanais, pois dependendo do conteúdo da notícia, uma semana pode ser uma eternidade.

O livro é recheado de casos em que provas desaparecem ou são tratadas com desleixo, laudos de instituições são contestados ou provas contundentes são deixadas de lado, evidenciando o caráter político de determinadas investigações. Neste cenário, deve ser um desafio manter a credibilidade do trabalho, defender seu ponto de vista, que desagrada a muita gente, e evitar pressões, tanto políticas quanto da própria imprensa, ávida por resultados e holofotes, certo? Qual o segredo para transitar em terrenos assim, muitas vezes, minados?

Não há segredo. Basta manter o critério técnico como norteador. As divergências na área pericial são comuns, assim como são comuns no campo da própria Ciência. Estranho seria se fosse o contrário. Uma das críticas mais veementes que faço aos Institutos de Criminalística é a sua auto apregoada “oficialidade”. Esses profissionais não raramente também invocam um alegado “compromisso com a verdade” que, segundo eles entendem, só eles possuiriam. Confunde-se, portanto, tudo: “oficialidade” vira “neutralidade” e “compromisso com a verdade” vira “inquestionabilidade”. Ora, tais prerrogativas são meramente burocráticas. Não se pode aceitar a priori que um laudo está correto porque reveste-se de uma aura de “oficialidade”. Qualquer um que trabalhe com perícias técnicas (em qualquer área) sabe que os órgãos oficiais de perícia erram. E erram muito, mais do que seria aceitável.

Quanto à imprensa e sua fome por resultados, é mesmo preciso ter muito cuidado. É preciso ser muito cauteloso para não cair em algumas armadilhas. Felizmente, como conto no livro, meu batismo de fogo foi com um caso de enorme repercussão na época (o caso Magri), durante o qual fui obrigado a ter uma relação constante, por mais de duas semanas, com um batalhão de repórteres de toda a imprensa, escrita, falada e televisada. Aprendi muito rapidamente, com a inestimável ajuda do Eustáquio Gomes, então assessor de imprensa da Unicamp, a como lidar com esse tipo de pressão. Aliás, durante vários anos, Eustáquio sempre foi um conselheiro muito competente, que me ajudou a não ser enrolado pela imprensa.

A tecnologia é uma grande aliada, mas me parece que o olhar do perito, sua perspicácia e talento são essenciais para o sucesso do seu trabalho, não? No livro, você revela sua relação com a música e cita a máxima do grande maestro e compositor Koelreutter (“Não acredite em nada que eu disser, pergunte sempre o porquê”), que te influenciou. Fiquei curiosa para saber quais seriam suas influências da TV, da literatura e do cinema, lembrando que o seu livro daria uma boa série ou um bom filme também.

Tecnologia e conhecimento técnico são importantes, mas não são tudo quando se fala de atividade pericial real. Muitos acadêmicos extremamente competentes em suas áreas não conseguem desempenhar bem quando são convocados para atuar como peritos. Tem uma coisa que alguns profissionais não entendem que é o fato de o interlocutor do perito ser, basicamente, o Juiz. Não se trata de escrever um paper acadêmico, mas sim um laudo que precisa ser entendido pelo Juiz, mesmo sendo rigorosamente técnico e objetivo. Assim, há muito mais em jogo do que simplesmente domínio técnico de alguma área do conhecimento. Além disso, há que se lembrar que o perito, em uma certa medida, é também um “Sherlock”, cuja atenção aos detalhes é crucial para o sucesso do trabalho. O diabo está no detalhe, diz o velho ditado. Nada mais certo quando se fala de perícia.

O livro termina com um capítulo quentíssimo e escrito já na fase da revisão da obra. É sobre a polêmica do grampo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atingiu a presidente Dilma. Como dar o ponto final numa história, a do Brasil, que, pelo retrospecto que traz a sua obra, ainda deve ter tantos capítulos emocionantes?

Apesar do que escreveu o Fukuyama sobre o “fim da história” (embora ele mesmo já tenha mudado de ideia), é certo que a história, seja a do Brasil, seja a do mundo, não tem, nem pode ter, um “fim”. Especialmente no Brasil, onde, como comento no livro, os eventos políticos se atropelam, a história se reescreve a cada minuto. Lembro agora de uma frase do Pedro Malan, que teria dito que no Brasil “nem o passado é previsível”. Ponto final não é possível nem desejável. Por isso o livro termina como se houvesse ali um mero ponto e vírgula. Muita coisa virá por aí. Provavelmente alguns dos novos eventos criarão novas solicitações. Eu, espero, vou continuar por aqui por mais algum tempo.

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