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Michael Sandel faz palestra no Rio

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Por Cláudia Lamego

Você acha legítimo que, diante de um consenso mundial sobre a necessidade de diminuir a poluição no mundo, um país rico, em nome de seu progresso, em vez de cumprir a sua parte, pague para que um país mais pobre o faça? Foi com essa pergunta e um certo espanto com a divisão da plateia sobre o assunto que o filósofo Michael Sandel iniciou a sua palestra hoje, no Rio, para um público de economistas, estudantes, advogados e educadores. Como faz em suas disputadas aulas em Harvard, Sandel convocou os presentes a justificarem suas escolhas. A cada resposta, contra ou a favor, ele pedia réplicas e tréplicas, levando a plateia a refletir sobre suas escolhas.

Sobre a resposta de que, sim, era justo, na lógica do mercado, que um país pudesse poluir mais que outro, desde que desse compensações financeiras, ele perguntou a um dos presentes: se você estivesse numa praia no Brasil, onde fosse proibido jogar lixo na areia e existisse uma multa para tal infração, e se você estivesse longe da lixeira, se divertindo entre amigos e com dinheiro para pagar tal multa, o que você faria? Esse dinheiro, lembrou Sandel, pagaria o funcionário contratado para recolher (se não houvesse lixo, não haveria esse emprego) e ainda restaria dinheiro para os cofres públicos. A reflexão, segundo ele, é: valeria a pena mesmo assim?

Com suas perguntas provocativas, Sandel tenta associar conceitos de ética e filosofia, deslocando o debate para vários campos de discussão e disciplina, com o intuito de mostrar que nem sempre a justiça será alcançada se a sociedade abrir mão de certas regras e valores morais. Durante o encontro, um dos ouvintes citou o escândalo da Lava-Jato e pôs em questão, para Sandel, se seria aceitável que as empresas envolvidas, tendo pagado multas, devolvido dinheiro ao Erário e com seus executivos presos, pudessem ser perdoadas e continuar atuando e sendo contratadas pelo Estado – em nome da geração de empregos e da estabilidade da economia. Sandel não quis responder sobre o caso brasileiro, mas citou Barack Obama ao lembrar que, na crise financeira dos Estados Unidos em 2008, os bancos não foram punidos. Para ele, a sombra dessa impunidade ainda está sob a cabeça do próprio presidente e dos americanos, envolvidos agora num dos maiores debates eleitorais de sua história, com a presença inquietante de uma figura como Donald Trump.

Na plateia, um menino de 17 anos levou o debate para o campo da educação e perguntou a Sandel sobre a avaliação de alunos e escolas com vistas a rankings. Para Sandel, as avaliações devem ser usadas para aperfeiçoar a educação e nunca critérios como bônus para os melhores devem se sobrepor ao fim em si, que é a educação de qualidade para todos.

O filósofo, que chegou ontem ao Brasil, em meio ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, começou sua fala lembrando a todos que estudava para ser um jornalista político e estava em Washington estagiando na época do escândalo de Watergate e da renúncia de Richard Nixon. Em vez da carreira nos jornais, acabou enveredando pela filosofia e hoje é um dos mais populares professores de Harvard. Por suas aulas, já passaram mais de 15 mil alunos. Seu curso, “Justiça”, virou uma série de TV em 12 episódios e foi base para o livro de mesmo título que no Brasil já vendeu mais de 120 mil exemplares, publicado pela Civilização Brasileira. São dele também “O que o dinheiro não compra” e “Contra a perfeição”.

Na aula de hoje, a mensagem que ele tentou passar é: até que ponto o mercado pode ditar as regras de uma sociedade, influenciar a moral e levar as pessoas a abrirem mão da ética por um suposto benefício que, inclusive, pode servir apenas a uma minoria já abastada e não à justiça para todos? Com suas perguntas, provocações e a promoção do diálogo ao vivo, entre opiniões díspares, ele acaba deixando uma pulga atrás da orelha de todos e garantindo muito assunto para o café, o almoço e o chopinho no bar de logo mais.

SAIBA MAIS SOBRE OS LIVROS DE SANDEL:

 

Mans‹o_Capa 41“Justiça: o que é fazer a coisa certa”
(Justice)
350 páginas
Editora Civilização Brasileira

Em “Justiça”, Sandel dramatiza o desafio de meditar sobre esses conflitos e mostra como uma abordagem mais segura da filosofia pode nos ajudar a entender a política, a moralidade e também a rever nossas convicções. Justiça é o ao mesmo tempo estimulante e sensato – uma nova e essencial contribuição para a pequena prateleira dos livros que abordam, de forma convincente, as questões mais difíceis de nossa vida cívica.

 

 

O que o dinheiro não compra“O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”
(What money can’t buy)
238 páginas
Editora Civilização Brasileira

Hoje, quase tudo está à venda. Existe algo errado em um mundo onde tudo parece estar à venda, desde o número do celular de seu médico até vagas em uma universidade de prestígio? E o que dizer de pessoas que alugam um espaço na testa para publicidade ou crianças que recebem dinheiro da escola para cada livro que leem? Estes são alguns dos exemplos que Michael J. Sandel utiliza para mostrar que hoje em dia quase tudo está suscetível à lógica de compra e venda, sem que nenhum questionamento moral de valor seja feito.

 

Mansão_Capa 41“Contra a perfeição: ética na era da engenharia genética”
(The Case Against Perfection: Ethics in the Age of Genetic Engineering)
160 páginas
Editora Civilização Brasileira

Os avanços da ciência genética nos apresentam uma promessa e um dilema. A promessa é que em breve poderemos ser capazes de tratar e prevenir uma série de doenças debilitantes. O dilema é que apesar destes e outros benefícios, nosso repertório moral ainda está mal equipado para enfrentar as perguntas mais complexas suscitadas pela engenharia genética. “Contra a perfeição” explora este e outros dilemas morais relacionados com a busca por aperfeiçoar a nós mesmos e a nossos filhos. Michael Sandel argumenta, de forma brilhante, que a revolução genética vai mudar a forma como filósofos discutem a ética e vai colocar as questões espirituais de volta na agenda política.

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