Dica de leitura

Por que ler Antonio Callado

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Por Cláudia Lamego

Em abril de 2013, a José Olympio assinou contrato para reeditar toda a obra de Antonio Callado. No ano seguinte, com projeto gráfico renovado, foi lançado “Quarup”, 60 anos depois de sua primeira publicação. Na orelha da obra, Ferreira Gullar evoca o romance como uma obra seminal do Brasil, que ecoa os índios de Gonçalves Dias, a Iracema de José de Alencar, o Macunaíma de Mario de Andrade, os poemas antropofágicos de Oswald de Andrade, Cobra Norato de Raul Bopp e os sertões de Euclides de Cunha e Guimarães Rosa.

Em ensaio publicado na reedição de “Assunção de Salviano”, o primeiro romance do autor, a crítica Ligia Chiappini diz que a ficção de Callado “pretende servir ao conhecimento e à descoberta do país”, ressalvando que essa tradição do romance empenhado ou engajado se realiza, em suas obras, com “um refinamento que não compromete a comunicação e com um caráter documental que não perde de vista a complexidade da vida e da literatura”.

Para o jornalista Artur Xexéo, que assina a orelha de “Concerto carioca”, outro romance reeditado, “ninguém pode dar um mergulho profundo no Brasil das décadas de 1960, 1970 e 1980 sem ler Callado”. “Do bate-papo politizado nos bares da zona sul carioca às guerrilhas rurais. Do papel de parte da Igreja Católica na resistência aos anos de chumbo até os sequestros de embaixadores que aconteciam periodicamente. Do retorno de exilados políticos aos primeiros sinais de abertura até a chegada dos ventos da redemocratização. Está tudo lá”, escreve o jornalista.

Já o crítico Davi Arrigucci Jr. ressalta, em texto para a reedição de “Reflexos do baile”, a costura fina que Callado faz pelo avesso, numa prosa descontínua, mas cristalizada na perspectiva oblíqua do autor, trazendo à baila o que a censura e a repressão pretendiam manter sob as trevas. Ele lembra que Callado se referia a esse livro, que conta a história do sequestro de um embaixador e é narrado a partir de bilhetes e fragmentos de cartas escritos no cativeiro, como o único que lhe agradava em toda a sua obra.

Em perfil publicado na reedição de “A expedição Montaigne”, o escritor Eric Nepomuceno lembra que Callado era um homem de fala mansa e suave, porém firme: “Indignava-se contra a injustiça, a miséria, os abismos sociais que faziam – e em boa medida ainda fazem – do Brasil um país de desiguais (…) Até o fim, Callado manteve, reforçada, sua perplexidade com os rumos do Brasil, com as mazelas da injustiça social. E até o fim abandonou qualquer otimismo e manteve acesa sua ira mais solene”.

Desde o ano passado, a José Olympio vem lançando também a obra teatral de Callado. A primeira foi “Pedro Mico”, sobre um malandro carioca que vive em uma favela do Rio e, quando chega o dia em que se vê encurralado, decide encenar um suicídio – inspirado pela história da vida (espaço) de Zumbi dos Palmares. Para o professor João Cezar Castro Rocha, que assina o prefácio da obra, “Pedro Mico, de 1957, inaugurou o ‘teatro negro’ de Antonio Callado. Se, nos textos iniciais, o índio, embora direta ou indiretamente estivesse em cena, não deixava de estar à margem, agora, o excluído por definição do universo urbano – o preto, favelado e marginal – assume o protagonismo, esboçando o desenho da utopia que marcou a literatura do autor de Tempo de Arraes: a possibilidade de uma revolta organizada, talvez mesmo de uma revolução, a fim de superar as desigualdades estruturadoras da ordem social nos tristes trópicos”.

Depois de ver “Pedro Mico” ser encenada por atores brancos com o rosto pintado, Callado decidiu escrever “A revolta da cachaça”, sobre a dura realidade dos atores negros no Brasil. A obra foi dedicada ao ator Grande Otelo, que deveria ter interpretado Ambrósio. O texto, entretanto, não chegou a ser montado na época em que foi escrito.

Em texto para o Suplemento Pernambuco, a pesquisadora Regina Dalcastagnè celebra a volta da obra de Callado às livrarias, mas lamenta que, nesse intervalo, o autor tenha desaparecido das salas de aulas, dos projetos de tese, dos artigos e das vistas do leitor especializado. “Um erro – como se vê pelos últimos acontecimentos no país, ele permanece absolutamente atual.”

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