Prata da Casa

Conto “No aguardo”

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Por Atlas Moniz

Eu achei que a vida tinha me ensinado a ter pele e carne de pedra e que nada mais, nunca mais pudesse me atingir. Acreditava que nós éramos invencíveis, você me entende? Eu e meu irmãozinho querido devíamos ter sido invencíveis, porque, se nada tinha nos pego até então, nada nunca mais pegaria. Como se a vida fosse uma conta de soma zero. Para mim, eu tinha passado por tanta merda que, chegando aos meus vinte e dois anos, seria impossível que algo desse errado a partir daquele aniversário. Não poderia dar errado porque a vida não poderia ser tão cruel assim, o universo não poderia estar conspirando, as estrelas não poderiam estar alinhadas para que algo viesse me ferrar mais uma vez.

Mas não é assim que a vida funciona. Queria ter percebido isso antes. Talvez, se eu fosse mais cuidadoso, isso não teria acontecido. Se não confiasse tanto assim na minha sorte, na minha invencibilidade; se tivesse parado para pensar um pouco, “nossa, isso parece mesmo perigoso, melhor não tentar!”, era capaz que eu ainda estivesse feliz. Mas, pensando bem, não foi minha culpa. Não foi culpa de ninguém. Era impossível prever o que aconteceria.

Meu irmão e eu saímos de casa, e ele foi executado.

Tentaram.

Meu irmão é policial militar. Não é grande coisa, só um soldado raso, daqueles que sobem o morro onde nasceram para atirar em gente que podem ou não conhecer, podendo ou não morrer nas mãos dessas mesmas pessoas. A vida é uma merda. Meu irmão não era um cara importante, e noto que já penso nele no passado. Ele não é um cara importante: não era comandante, não era sargento, não era oficial, não era nada. Era só um rapaz ainda mais novo que eu.

Saímos de casa e tentaram o executar.

Foi uma ação muito rápida: uma moto passou, meu irmão levantou os olhos, seu cabelo loiro ficou vermelho e ele caiu no chão, imóvel, como se fosse um boneco de pano largado por uma criança que se distraíra com outra coisa, como se sua alma tivesse simplesmente cansado daquele corpo e decidido ir embora sem avisar.

Meu irmão não me deixou últimas palavras importantes. Na verdade, suas últimas palavras para mim foram “você fechou o gás?”, ou algo assim. Queria que tivesse sido algo magnífico como “te amo muito, irmão”, ou “você sempre foi meu ídolo”, ou “muito obrigado”. O problema é que nada disso se parece com algo que diria. Ele provavelmente me falaria algo como “você precisa tomar cuidado agora, precisa ver sempre se o gás está acabando, precisa se dedicar à faculdade. Se você arranjar uma namorada melhor que aquela cafetina tudo será lucro e eu poderei ter morrido em paz. Lembre-se de deixar a mamãe orgulhosa. Quem sabe com a minha morte você não corta o cabelo e arranja um emprego? O quê? Não, um emprego mais digno que um estágio não-remunerado. Você está prestando atenção em mim? Eu vou morrer e você está aí fingindo que não me escuta. Palhaço!”

Tenho a impressão de que nunca mais vou ouvir nada dele. Então, aquelas palavras simples, idiotas e costumeiras – “você fechou o gás?” – ecoam nos meus ouvidos há três meses e não sairão nunca.

Quando meu irmão caiu, fiquei sem reação por uns bons momentos. Ele é o policial, não eu. Estudo Artes. Sou a vergonha da família. Por uns segundos fiquei com medo de ser o próximo a morrer, mas os motoqueiros foram embora e ficou só um corpo estirado no chão, o sangue formando um halo em torno do cabelo claro, olhos castanhos semiabertos e uma camisa barata manchada. Peguei o celular e chamei pela polícia, ambulância e o caralho a quatro.

De lá até o hospital foi só um borrão, e, quando os jornalistas começaram a surgir, descobri que a vida não tinha me dado porra nenhuma de casca de pedra, metal ou diamante para me proteger.

Meu irmão, nós sobrevivemos a uma infância fodida e aprendemos a desconfiar até mesmo das nossas próprias sombras. Apesar de não parecer, não somos sem pecado. Ninguém imagina que um estudante de Artes de cabelo longo e que um policial militar loirinho e bonitinho sejam pessoas ruins. Mas você sabe que temos sangue nas mãos. E por isso mesmo achei que nunca mais passaríamos por um perrengue como esse.

Naquele dia, porém, não desconfiamos das nossas sombras e deu no que deu.

Agora você está dormindo. Não acorda há três meses. Não sei nada de medicina, mas me falaram que, se acordar, dificilmente será o mesmo. Há uma chance de você morrer, de milagrosamente acordar e voltar ao normal, e de acordar e não ser mais quem conheci.

Será que é muito egoísmo pensar nesse tipo de coisa? Será que eu deveria ficar feliz pelas chances de você acordar serem maiores que as de morrer? Eu quero você de volta. Não quero outro irmão.

Pensei que talvez começasse a despertar para o mundo caso percebesse que a vida passa e que eu não ficaria preso a ele como um fantasma impossibilitado de seguir adiante. Voltei para a faculdade, voltei a produzir arte, voltei a fazer minhas coisas. Tentei.

Na faculdade, o que o professor diz o meu cérebro não registra. Eu quero ser feliz, mas tudo agora passa como um filme antigo e queimado, desinteressante e impossível de ser assistido. As pessoas falam e não ouço. Me sinto tentado a voltar ao hospital a cada dia para ver como ele está, mas sempre – quase sempre – resisto e lembro que há uma vida fora daquele lugar estéril.

Minha mãe se recupera lentamente. Está velha. Tenho de cuidar dela e não deixar sua saúde mental despencar penhasco abaixo.

Aconteceu uma coisa muito engraçada um dia desses. Perguntaram quem eu era e não acreditaram que fosse seu irmão. Você é loiro, sou moreno. Obviamente, não poderíamos ser relacionados por sangue. Não somos. Quando disse que não somos mesmo, comentaram em eufemismos e meias palavras que você é como um grande amigo de infância e só. Não é meu irmão de verdade, assim como nossa mãe não é nossa mãe de verdade.

Me sinto feito de vidro. Qualquer palavra mais forte vai me quebrar. Quase quebrei e quase levei todo mundo junto.

Tentei produzir arte. Ficou um lixo e joguei tudo fora. Sei que preciso viver para mostrar que estou bem, mas isso é tão difícil. Minhas recaídas me levarão de volta ao hospital. Vou apodrecer junto de você.

Tentei voltar a fazer minhas coisas. Não consigo nem me concentrar. Não consigo mais estudar.

Você sabia que tenho um namorado?

Melhor: você sabia que nosso colega de quarto é o meu namorado?

Agora sabe. Ontem, pela primeira vez em três meses, ele sugeriu que tentássemos mudar um pouco a rotina. Porque eu não posso apodrecer junto de você. Preciso me libertar dessa coisa que a você não atinge; só a mim. Você está preso aí porque destruíram seu cérebro. Eu estou preso por ter uma esperança pegajosa que me gruda a você, meu irmão. Você não pode fazer nada contra um lobo frontal ou lateral ou um cerebelo afetado. Eu posso me livrar dessa esperança cruel.

Por alguns momentos foi como viver de novo, respirar de novo, sentir de novo, ver as cores de novo. E, quando a euforia passou, quando as coisas voltaram ao normal, quando meu coração voltou a bater no ritmo normal e a minha pele esfriou, quando o suor secou e deitei a cabeça no travesseiro, comecei a chorar.

Talvez já estivesse chorando muito antes daquele momento, talvez só tivesse percebido muito depois. Talvez tenha sido por isso que nosso colega de quarto hesitou tanto. Eu devo ter chorado o tempo todo.

Ele sabe que estou doente. Ninguém nega mais isso. Meu irmão, eu não consigo passar pelo meu luto assim. Não vou superar meu luto nunca e vou apodrecer de verdade. O desespero gruda em mim como muco e nem com mil banhos vou conseguir tirar isso da minha pele.

Eu quero voltar para o hospital e ver como você está, ficar sentado a seu lado, aguardando, aguardando, aguardando, aguardando, criando raízes, apodrecendo, me confundindo com o ambiente até que nem mais me percebam.

Até que você acorde. Aí serei o primeiro a o ver despertar. E terá valido a pena.

Pronto. Tive a recaída, que, sinto, deve ter algo a ver com sua consciência voltando. Você vai levantar os olhos para mim nem que seja para me dar uma lista de coisas a fazer, a comprar, para me lembrar de algo, e aí suspirar uma última vez e morrer, nem que seja para rir de mim uma última vez e ir embora para sempre.

Por isso vou manter a minha lealdade e esperar, esperar horas, dias, semanas, meses; vou me confundir com o papel de parede e minha respiração chegará ao ponto de imitar perfeitamente os sons das máquinas. Minha boca só vai conseguir produzir os bipes do seu coração que ainda bate.

Muita coisa mudou desde que você dormiu. Eu cortei o cabelo como mandou. Minhas notas não deram para passar de semestre, mas consegui um estágio remunerado. Minha namorada decidiu ir embora e você pode ou não ser tio a essa altura do campeonato. Agora só tenho o meu namorado e o som das máquinas para me acompanhar. A eleição foi um desastre, ah, tem tantas coisas que quero te contar quando você abrir os olhos. O trânsito está um caos, muitas obras. Mais uma guerra muito longe explodiu, e eu vi uma estrela cadente e desejei que você acordasse.

Sei que você ouve tudo que digo e por isso continuo dizendo, mas repetirei mais uma vez quando você recobrar a consciência e falar meu nome. Nossa mãe está bem melhor, meu namoro com nosso colega de quarto está indo maravilhosamente bem. Seu chefe, aquele comandante com cara de ranzinza, todo mês nos manda condolências. As condolências podem ficar para ele, mas o soldo não; te manter assim não é barato. As flores estão desabrochando e adotei um gato ontem. Decidi pintar a casa, mas não mexi nas suas coisas: continuam do mesmo jeito que as deixou quando saímos. Quero que você acorde logo para me dizer que jeito dar naquele quarto empoeirado. Como vou limpar aquilo tudo? Como vou fazer com o gato? Em quem você queria ter votado?

Você tem de acordar para falar tudo que precisa e ouvir tudo que tenho a dizer.

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