Prata da Casa

“A fome”, de Martín Caparrós

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Por Marcelo Vieira

À porta de uma choça numa aldeia do Níger, Martín Caparrós pergunta a Aisha, 35 anos e olhos de tristeza:

— Se pudesse pedir o que quisesse, qualquer coisa, a um mago que fosse capaz de atendê-la, o que lhe pediria?

— O que eu quero é uma vaca que me dê muito leite; então, se vender um pouco do leite, poderei comprar as coisas para fazer sonhos e vendê-los no mercado.

O incrédulo jornalista insiste:

— Mas o que estou lhe dizendo é que o mago poderia lhe dar qualquer coisa, o que você lhe pedisse.

— Qualquer coisa?

— Sim, qualquer coisa.

Aisha baixa o tom de voz para responder:

— Duas vacas. Com duas, sim, não mais passaria fome.

Mas o Níger foi só a primeira parada de Caparrós no itinerário de quatro anos que deu origem a seu A Fome. O autor, nascido na Argentina, viajaria também para Índia, Bangladesh, Quênia, Sudão, Madagascar, Estados Unidos e Espanha com o objetivo de não somente entender e narrar a fome, mas também de promover, sobretudo no Ocidente, o incômodo e a resposta social necessários para que medidas sejam tomadas. Assim, interroga nossa consciência, nossa ignorância: você sabia que nenhuma doença ou guerra matou mais gente até hoje do que a fome? Que 800 milhões de pessoas — uma em cada sete pessoas — no mundo sofre desse mal?

Depois do Níger, segundo maior produtor de urânio do planeta, temos Bangladesh, segundo maior exportador mundial de roupas, com uma densidade demográfica de 1.140 habitantes por quilômetro quadrado, muitos dos quais famintos, desesperançosos e reféns da indústria que move seu país — ou, pelo menos, as camadas mais ricas dele. É ali que conhecemos Amena, a mãe que dá um dos testemunhos mais aterradores de A Fome: quando não há o que dar de comer para os filhos, põe água para ferver e acrescenta pedras ou galhos. “Então as crianças percebem que estou cozinhando alguma coisa e eu lhes digo que vai demorar um pouquinho, que durmam um pouco, que depois as acordo. E então dormem mais tranquilas. Enquanto isso, na Argentina, um lixão periodicamente abre as portas para pessoas que buscam frenéticas qualquer coisa que sirva para ser revendida ou reaproveitada… ou comida. E, por falar em lixão, adivinha onde vai parar 30% do que se compra nos supermercados da Espanha?

A narrativa de Caparrós não nos poupa dos detalhes mais assustadores e comoventes; inquietantes e difíceis de acreditar, compreender e aceitar. Ao nos apresentar personagens, de carne e osso e nome, o autor confere identidade às estatísticas; humanidade a pessoas tratadas como números. É daquelas leituras capazes de mudar a maneira como enxergamos a desigualdade. Nem sempre o que está longe dos olhos permanece longe do coração. A Fome é um livro árido, desértico, difícil de engolir; como um comprimido que desce pela garganta deixando um gosto ruim na boca.

Mas, assim como o remédio, é totalmente necessário.

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