Entrevistas

“Bitch”, de Carol Teixeira

1 Comentário

Por Cláudia Lamego

Há livros que chamam atenção do leitor pela capa. Outros, pela orelha. E há aquelas obras com inícios memoráveis, que prendem o leitor de cara. Em “Bitch”, todos esses elementos estão presentes, a começar pela foto da capa, a orelha de Xico Sá e a frase de abertura, na qual Carol arrebata: “Deleuze disse certa vez que, se você não captar o ponto de demência, o pequeno grão de loucura de uma pessoa, você não pode amá-la de verdade”. Mas, a autora dá um outro recado, ainda no fim desse primeiro capítulo: “Pare o julgamento que você está fazendo agora. Não se engane com esse início erudito e pretensioso. Entre a metafísica e a putaria, eu fico sempre com a putaria.”

A história parte então, desses dois pontos: a personagem principal, Princess, é uma artista plástica de São Paulo que passa as férias no Sul da França, no iate da família, curtindo uma vida hedonista, ligada à arte e ao sexo. A narrativa é intercalada com a história de C., uma escritora também sem inibições, que precisa se isolar para escrever seu novo livro. Com cenas provocantes de sexo e reflexões filosóficas e literárias, as duas se relacionam com seus amantes, amigos, família e namorados e têm um encontro seminal e metalinguístico na história.

Os personagens femininos são fortes. A avó de Princess, por exemplo, é uma famosa artista plástica, cuja liberdade influencia a arte da neta. O sexo, na narrativa, é descrito como uma via de poder da mulher. “É um livro de buscas femininas mas que fogem do clichê. Não é um conto de fadas, não é uma história de amor, porque, ao contrário do que nos fizeram acreditar, não é só isso que a mulher busca. A mulher não precisa deixar de ser sensual e usar sua sexualidade porque precisa ‘ser respeitada’. A Princess representa muito essa minha ideia que tem sido um statement na minha vida. Claro que quem detém o desejo do outro está no poder. E o poder da mulher é subversivo sim, não podemos temer ele em sua totalidade (que passa pela sexualidade)”, afirma Carol na entrevista abaixo.

 

Seu romance começa com uma citação do filósofo francês Gilles Deleuze, de uma entrevista em que ele fala sobre o ponto de demência, que seria o “pequeno grão de loucura” das pessoas, sem o qual não podemos amá-las. A trama veio desse insight ou ele se encaixou perfeitamente na história?

Amo essa citação dele. Me identifico porque eu sempre fui fascinada pelo ponto de demência dos outros, como eu escrevo no livro, aquela zona turva em que a racionalidade não chega, em que o corpo reage por si, sem a mediação da razão. O erotismo nos leva a esse ponto (Deleuze não disse isso, mas eu digo). Por isso sou fascinada pelo tema, por isso escrevo sobre sexo. O livro partiu dessa citação sim, eu queria escrever uma obra na qual os personagens encontrassem ou fossem levados a encontrar esse ponto. Além da citação do Deleuze tem outra citação que me inspirou também no início, uma que não está no romance. É uma descrição que o Bataille faz no livro ‘História do Olho’ (um dos meus romances eróticos preferidos) quando fala da personagem Simone. Ele escreve: “é uma pessoa simples, nada tem de angustiado no olhar ou na voz. Mas é tão ávida por qualquer coisa que perturbe os sentidos, que o menor apelo confere ao seu rosto uma expressão que evoca o sangue, o pavor súbito, o crime tudo que arruína definitivamente a beatitude e a consciência tranquila”. Acho isso tão forte. Eu queria uma personagem que tivesse essa avidez. No fim a Princess nem tem muito dessa personagem, mas essa possibilidade da “ruína da beatitude e da consciência tranquila” evocada por uma mulher me inspirou. Já no início eu sabia que não seria um livro maniqueísta nem um livro bonitinho “do bem”. Eu queria escrever algo que perturbasse.

 

Na orelha da obra, Xico Sá define Bitch como “algo entre Bataille e os filmes amadores no Xvideos”. Uma frase que talvez resuma essa ideia está também no primeiro capítulo, em que você começa com Deleuze e termina alertando: “Entre a metafísica e a putaria, eu fico sempre com a putaria.” Aí está a chave para surpreender o leitor com a narrativa que vem em seguida?

Essa é a melhor definição para meu livro, amei o que o Xico Sá escreveu. É exatamente isso, o romance tem esse jogo meio hi-lo, vai de Nietzsche e Bataille a descrições muito baixas e pornográficas. Sim, o primeiro capítulo é onde eu e C. (meu alter ego) estamos realmente misturadas. É como se fosse na voz dela aquilo, mas ao mesmo tempo é eu avisando o leitor que apesar da embalagem filosófica, o buraco é mais embaixo. Entre as ideias metafísicas e o a irracionalidade do corpo, fico sempre com a segunda opção. Acho que o livro tem muitas leituras possíveis, mas, em última instância, é a supremacia do corpo em detrimento da racionalidade. O corpo vence no final. Princess acha o ponto de demência de Henrique.

 

Há dez anos, num perfil seu escrito por Ronaldo Bresssane, você disse que tinha realizado todas as suas fantasias sexuais. Em Bitch, a artista plástica Princess transforma em arte as suas tramas sexuais e, no caminho inverso, procura experiências sexuais que servissem de material para sua exposição. Minha pergunta é: de dez anos para cá, você descobriu novas fantasias, inclusive para contá-las nesse novo romance?

Certamente sim. Acho que essa é uma busca eterna, as possibilidades são infinitas no sexo. É justamente quando a gente já realizou todas as fantasias mais clichês que vem a melhor parte, as fantasias mais elaboradas, o erotismo mais psicológico. E, como a Princess, já vivi bastante coisa para escrever sobre depois. Uso o tempo toda minha vivência como material para minha arte e todos meus artistas preferidos usam também.

 

Aliás, como você o define, nesse caminho que percorre entre a autoficção e a metaficção, em que chega a promover o encontro entre a autora, presente em capítulos alternados do livro, e Princess, sua protagonista? Pergunta indiscreta: você também se excitou ao escrevê-la?

Eu definiria como uma balada niilista e rock n’ roll sobre a impossibilidade da moral, o limite na relação arte/vida e a complexa sexualidade feminina. E eu diria que uma grande diferença entre meu livro e os romances eróticos que têm sido lançados é que não é um livro só para o público feminino, acho que os homens vão gostar bastante também – escrevo há muito tempo para o público masculino. Mas as mulheres vão se identificar com a força das personagens femininas. Esse encontro que voce menciona entre meu alter ego e a protagonista foi planejado desde o início, mas essa competição que se criou entre elas foi daquelas coisas que saíram do meu controle. Elas começaram a competir e eu deixei. Deve parecer estranho ler isso para quem não escreve, mas todo escritor sabe que tem um momento da história em que os personagens tomam conta. Você precisa retomar as rédeas em algum momento, mas sempre tem uma parte do processo em que os personagens fazem a festa e você se vê manipulado. Esse embate entre elas metaforicamente acabou representando esse jogo de poder que acontece entre escritor e personagem. Gosto muito de autores que ‘entram’ na própria obra, mas não tinha visto isso em romance erótico. O Houellebecq em ‘O mapa e território’, por exemplo, faz isso. Só que o Houellebecq nesse livro se mata e se esquarteja na trama, já eu transo (ou não, não vamos dar spoiler) com o namorado da protagonista (risos). Cada escritor com suas loucuras.

Sim, me excitei bastante escrevendo as cenas de sexo e também naquelas que tem tensão sexual, mas não acontece nada. Vou te confessar que até minha vida sexual ficou mais tranquila no ano passado porque toda minha libido estava direcionada para esse livro enquanto eu o escrevia. Esse era meu termômetro para saber se a cena tinha dado certo: se aquela cena me perturbou era porque eu tinha acertado (risos).

 

Bitch tem personagens femininos fortes, como a protagonista Princess e sua avó, Dominique. Num dos capítulos, você deixa claro que vê o sexo como um dos canais de empoderamento da mulher. Tem visto essa discussão atualmente nos debates sobre o feminismo? Ah, e uma curiosidade: como no livro, você concorda com a ideia de “quem detém o desejo do outro está no poder”?

Eu cresci numa família de mulheres, com valores matriarcais. Meu pai morreu cedo, eu tinha uns 4 anos, então fui criada pela minha mãe (que é a mulher mais forte que conheço) e com minhas três irmãs. Uma família de mulheres fortes, por isso o poder feminino nunca esteve em questão, a mulher era incrível e ponto. Cresci adquirindo essa certeza através de exemplos, esse era o meu universo. É inevitável que isso apareça no meu livro. É um livro de buscas femininas, mas que fogem do clichê. Não é um conto de fadas, não é uma história de amor, porque, ao contrário do que nos fizeram acreditar, não é só isso que a mulher busca. A Dominique representa muito isso, ela é a mulher mais foda do livro, minha personagem preferida.

Mas sobre a questão do sexo: sim, acredito que o empoderamento passa pela sexualidade, pela tomada de poder da própria sexualidade. A mulher não precisa deixar de ser sensual e usar sua sexualidade porque precisa ‘ser respeitada’. Ser complacente com essa dicotomia do “ou bonita ou talentosa” é ser complacente com toda uma cultura machista de ideias que estão tão introjetadas no superego das pessoas que muitas nem questionam. É ser complacente com aquela besteira de “se valorizar, se dar ao respeito”. A Princess representa muito essa minha ideia que tem sido um statement na minha vida. Claro que quem detém o desejo do outro está no poder. E o poder da mulher é subversivo sim, não podemos temer ele em sua totalidade (que passa pela sexualidade). A mulher tem esse poder assombroso, que é anterior a qualquer autorização. Olha os momentos históricos: guerras travadas por mulheres, reinos desfeitos. Não é à toa que a sociedade vive batendo cabeça desde sempre para lidar com esse poder. Escondem as mulheres atrás de burcas, as mutilam ou as expõe demais hiperssexualizando.

 

“A arte existe para que a verdade não nos destrua” é uma das frases que você tem tatuada no corpo. Rimbaud, um de seus autores preferidos (passava temporadas no Sul da França lendo sua poesia, certo?), fez da vida poesia e da poesia vida. Assim é Carol Teixeira, escritora, especialista em sexo, colunista, compositora, cantora, DJ, autora de teatro, mulher? Tem algo ainda em você a ser revelado?

Concordo com Henry Miller quando diz que não acredita em nenhum artista que não coloque sua arte em prática na sua vida, que “moral e estética fazem apenas um”. É assim para mim também. Misturo arte e vida o tempo todo. Como C. no livro, “vivo de ficções”.

Essa, aliás, é uma questão primordial no livro, o turning point do romance se dá pela arte na hora em que a avó de Princess, Dominique, tem aquele papo com a neta depois que ela é pedida em casamento e lê aquele trecho do Artaud dizendo que a arte precisa faz gritar. Sou fascinada pelo poder que a arte tem de fazer gritar. E gosto dessa ideia da vida como obra de arte, o Nietzsche explora bastante essa ideia no livro Gaia Ciência. E tudo na minha vida é estetizado, até as questões menos óbvias como minhas tatuagens por exemplo. Todas têm um sentido, é minha existência marcada no corpo, todas se referem a uma determinada fase ou alguma definição minha que eu precisava marcar ali. Quando eu casei também, eu fiz quase uma instalação artística para a cerimônia. Mas o contrário também acontece, eu roubando da vida para arte. Por isso os outros ao meu redor entram nessa mistura de arte/vida também. Vampirizo as pessoas que passam pela minha vida, mas não de uma forma superficial e inocente, contando historinha que aconteceu entre eu e elas ou algo que me contaram. É mais profundo. Eu capto a essência, é a essência que eu roubo pra escrever (tem coisas bem sérias que fiz nesse sentido para esse romance, que nem posso mencionar, mas fico feliz que as pessoas envolvidas não se incomodaram). Parece meio do mal falar isso, mas não é crueldade, é arte.

Comentários
  • Que entrevista incrível!
    Fiquei muito curiosa para ler o livro da Carol. Parece ser realmente um livro que foge do estereótipo de romances eróticos e, ao mesmo tempo, nos aprofunda em outros universos e no próprio universo feminino.
    Amei!

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