Entrevistas

Filhas de Eva, de Martha Mendonça

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Por Marta Barcellos

 

Quando ficou entre os vencedores do primeiro concurso Contos do Rio, promovido pelo jornal O Globo, em 2003, a jornalista Martha Mendonça decidiu voltar a escrever ficção, uma rotina abandonada por causa da profissão. Nascia assim uma escritora ágil, com domínio da linguagem, e também versátil: as histórias e personagens de Martha foram parar não só em livros, como nas telas, no palco e até no site de humor Sensacionalista, do qual é uma das fundadoras e redatora.

Em seu quarto livro publicado pela Record, “Filhas de Eva”, Martha retoma o momento daquela primeira virada: a coletânea inclui “Namorada”, o conto premiado em 2003, além de outras 17 narrativas sobre mulheres “adjetivas”, personagens que começam a se revelar ao leitor já a partir de títulos como “Obcecada”, “Indecisa”, “Romântica”, “Desperta” ou “Morta”. Com aparente despretensão, a autora empreende uma investigação do universo feminino em toda a sua complexidade, como se houvesse uma interligação entre os relatos ora comoventes, ora contundentes.

Nesta entrevista, dada enquanto se divide entre vários novos projetos (está no grupo de roteiristas do programa de humor que vai substituir o “Zorra”, na TV Globo), Martha fala da construção das personagens, de seu fascínio pelo feminino, da influência do humor e também da possibilidade de, no futuro, as filhas desta Eva serem adaptadas para outras linguagens. Da autora, a editora Record também publicou 40: um romance feminino, Canalha, substantivo feminino e A história sensacionalista do Brasil (em coautoria com Leonardo Lanna, Marcelo Zorzanelli e Nelito Fernandes).

 

A primeira frase do conto “Eva”, que abre o livro, é uma referência ao célebre começo de “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir (“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”). Você pretendia imprimir algum efeito com essa primeira personagem ancestral, que nunca brincou de boneca e já nasceu “assim”? Eva e suas filhas de alguma forma dialogam com o feminismo?

Escrevi a maioria desses contos há muito tempo, alguns há mais de dez anos. Os contos começaram a sair depois que o “Namorada” ficou entre os vencedores do Contos do Rio. Mas não era fácil para uma autora iniciante publicar contos, então eles ficaram engavetados e eu lancei outros cinco livros. Recentemente, resolvi mandar para a editora, que gostou – e aí senti falta de alguma coisa que os amarrasse. Foi quando veio a ideia da Eva e dessa introdução.

A referência a Beauvoir surgiu como uma brincadeira. Simone falava das pressões sociais e culturais que nos fazem mulheres. Eva, na minha fantasia, não teve esta condição, por ter sido a primeira.  Ela era o que era, não lhe foram dadas bonecas, nem lhe foram negados direitos. E, em seus sonhos – ou premonições – ela antevia tudo o que seríamos, essa diversidade caótica e bonita em todos os tempos e idades. Não escrevi os contos pensando em dialogar diretamente com o feminismo, mas acredito (e espero) que, ao mostrar esse mosaico feminino, com suas dores e paixões, eu consiga gerar uma identificação natural com as mulheres.

 

As “filhas de Eva”, em sua grande maioria, não têm nome. São tipos familiares, mulheres comuns e nossas conhecidas, embora seus pequenos grandes dramas sejam muito comoventes. De onde vieram as personagens?

Nunca sei direito responder a esta pergunta, mas provavelmente veio de mim, de amigas, de pedaços de personagens. Há algumas inspirações mais diretas, como uma tia-avó, cuja história inspirou o conto “Indecisa”, e um acontecimento da vida de minha sogra, já falecida, que era mãe-de-santo, em “Pombagira”. O conto “Obcecada” surgiu quando eu ouvia a canção “Monomania”, da Clarice Falcão, mas não é exatamente do que fala a música. Fora esses, nenhum outro conto é a história de alguém de forma direta.

 

Como este livro se encaixa no contexto do universo feminino que você vem construindo ao longo da sua obra? Traz um contraponto, ou algum aspecto ainda não abordado? Por que o ponto de vista feminino lhe interessa?

Como ele foi escrito antes dos outros – “Mulheres no ataque”, “Canalha – substantivo feminino” e “40” -, não se trata de uma continuação. Olhando agora, para trás, vejo que esse interesse de escrever sobre o feminino é resultado de um blog que eu e a jornalista Carla Rodrigues fizemos de 2002 a 2004, que falava sobre mulheres. Ali pensamos muitas coisas e dialogamos virtualmente com muita gente sobre o assunto, sobre a aventura feminina. E acredito que meus livros sejam o fruto desse trabalho. Carla hoje é, inclusive, professora de Filosofia e pesquisadora de gênero.

 

Alguns autores relatam ter se impressionado com os próprios personagens, quando os estavam criando. Algumas das filhas de Eva “perseguiram” ou abalaram a sua autora?

Tanto tempo depois de ter escrito, percebo que eles têm realmente vida própria, como se suas histórias tivessem seguido em frente sem mim nesses anos todos. Ao reler esses contos, alguns me abalam de fato, como “Compulsiva”, que fala do descontrole emocional de uma mulher que compensa sua insegurança na comida, e o desespero da mulher moderna em “Apressada”. Talvez porque os dois falem muito de mim (e, ao mesmo tempo, de tantas mulheres).

 

Apesar de validar e compreender o sofrimento das personagens, assumindo o seu ponto de vista, o narrador parece imprimir algum toque de humor e até de otimismo à maioria das histórias. Esta é uma visão de mundo da autora (de uma autora que trabalha com o humor)?

Acho que sim. Meu pensamento é impregnado de humor. Hoje, depois que deixei o jornalismo e me tornei redatora/roteirista, o humor é a matéria-prima do meu trabalho diário, no site Sensacionalista e no novo Zorra, na TV. Além disso, sou uma otimista incurável, percebo que é um sentimento quase infantil. Mas, ao mesmo tempo, me sinto bem sendo assim, olhando as coisas com leveza, ironia ou crítica.

 

O seu trabalho de escritora, dramaturga e de roteirista de alguma forma se confunde na hora da criação? “Filhas de Eva” já nasce com potencial de adaptação para a TV, o teatro ou o cinema?

Quando escrevo, não penso em adaptação. No caso desses contos, menos ainda, já que foram escritos uma década antes de eu pensar em virar roteirista. Mas adaptações de histórias são sempre possíveis. Quando escrevi “Canalha – substantivo feminino”, também não pensei nisso, mas acabaram inspirando uma série que teve três temporadas no GNT – e o formato acaba de ser comprado para uma produção americana. Filhas de Eva tem boas personagens, o que pode, com certeza, inspirar adaptações de todo tipo. Torço para isso.

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