Palavra de editor

Quem sabe inglês?

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A propósito da treta literária da hora, a que opõe Augusto de Campos e Ferreira Gullar, vejo-me deliciosamente obrigado a reproduzir um trecho do Capítulo V do incontornável – como se provará abaixo – romance de Diogo G. Rosas, “Até você saber quem é”, lançamento quentíssimo da Record que, como pode ser a grande literatura, recria – em detalhes saborosos – o espírito de um tempo.

Nunca é demais lembrar Bruno Tolentino. E nunca é demais notar que o tempo de que trata o texto abaixo é exatamente o mesmo de hoje – ao menos no que se refere ao mercado editorial brasileiro (e seus manifestos e abaixo-assinados).

Carlos Andreazza, editor-executivo

*******

[…]

Ao chegar em casa uma tarde, depois de passear com meu pai, soube que Daniel tinha me telefonado. Perguntei à empregada se havia algum recado.

— Não, ele não quis deixar recado. Disse que ligava depois.

Retornei a chamada, mas ninguém atendeu. Mais tarde, quando eu já havia esquecido o assunto, minha mãe me chamou, com um movimento silencioso dos lábios, para o telefone de parede da cozinha.

— Roberto, Roberto. Quando você volta, cara?

Restava ainda um ciclo de quimioterapia. Depois, seria recomendável que eu ficasse em Curitiba por algumas semanas. Não havia planos de volta tão cedo, e ele sabia disso tanto quanto eu.

— Por quê? Aconteceu alguma coisa?

— Ih, rapaz, está uma confusão por aqui que você não pode imaginar. Diga, que jornais você está lendo aí?

— A Folha e a Gazeta, por quê? Qual é a confusão?

— Você não tem como conseguir o Estadão de sábado? Por acaso teu pai ainda guarda aquela pilha de jornais na lavanderia? Será que dá para encontrar a Folha de tal e tal dia?

— Talvez, se você me disser o que está acontecendo.

Daniel fez um esforço para me explicar a tal confusão, mas devo confessar que o assunto — uma briga entre poetas pelos jornais — me pareceu mais banal do que sua ansiedade indicava. Conforme entendi mais tarde, dias antes Augusto de Campos havia traduzido alguns poemas de
Hart Crane para a Folha de S.Paulo. Pouco depois, nas páginas do Estadão, um desconhecido criticara uma das traduções de Augusto. O desconhecido se chamava Bruno Tolentino, e seu texto, segundo meu amigo, era “completamente fora de si”.

— Mas é só isso? — perguntei, desapontado. — Dois poetas batendo boca? E o que é um texto “fora de si”?

— Agressivo, irônico, destrambelhado, engraçado pra caralho, às vezes até brilhante. Mas já vi que você não está entendendo. Faça o seguinte: veja se consegue os jornais. Senão, tento te mandar uma cópia por fax. Leia tudo e depois conversamos. A discussão não é tudo; preciso muito falar com você.

Intimado dessa maneira e já bastante curioso, fui à lavanderia desbravar a montanha de jornais velhos que meu pai guardava com devoção. Horas depois, o caso me parecia mais claro, ainda que nem um pouco mais importante. O texto de Augusto de Campos — chamado “Hart Crane: a poesia sem troféus” — era longo e previsível. Uma apresentação do autor, a tradução de quatro ou cinco poemas, comentários às próprias traduções, e só. Para quem conhecia o trabalho dos irmãos Campos não havia surpresas. Todos os seus velhos temas e obsessões repetiam-se com uma regularidade de relógio cuco: microdetalhes da tradução, referências a Pound e Cummings, comparações com Sousândrade, estava tudo ali.

A resposta publicada no Estadão era outra coisa, começando pelo título: “Crane anda para trás feito caranguejo”. As primeiras linhas davam o tom:

Assim não dá! O verso vai bem, muito bem, em mãos de muita gente por este Brasil que cansou de usurpadores. Mas vai mal, muito mal, há quatro décadas com nossa dita “vanguarda”, a mais envelhecida e empoeirada vitrina terceiro-mundana.

E era mantido, com brio, no restante do texto:

E o que nos brinda o multirretratado medalhão é um escárnio anêmico a toda vitalidade natural do idioma que Camões padeceu e cantou. Ao exibir aos supostos pobretões de nosso rincão poético o que fez a Crane (“com exclusividade”, informa-nos a capa do suplemento), o augusto escriba sucumbe a um subparnasianismo como o autor do original abusado jamais sonhou ler nem sóbrio e Onestaldo de não-sei-o-quê não comporia nem bêbado.

Mais tarde, ao telefone, Daniel e eu nos divertimos lendo em voz alta trechos como:

[…] os versos são rijos, o ritmo vai a reboque da métrica e bamboleia ao sabor do previsível e do irresponsável, a respiração natural à fala poética sofre de sufocação metronímica e o “Ovirudum”, nosso orgulho nacional, faz sua entrada desde o verso inicial, na preciosa inversão “do norte
o rosto” […]
[…] E estamos a meio do poema de Crane, que a flor dos Campos já rachou ao meio com inabilidade de peggiorfabbro, para quem o rigor formal se confunde com o rigor mortis. A métrica ta-ti-tan-ta-ti-tan, em nada inglesa, abafou até agora a respiração natural da dicção de Crane, enquanto o ritmo, totalmente ignorado como elemento constitutivo, foi atrelado ao velho metrônomo oitocentista dos saraus bocejantes […]

Pouco a pouco fui percebendo que a crítica não se dirigia só àquele trabalho, mas aos irmãos Campos e a seu papel na poesia brasileira como um todo.

A semelhante fac totum foi abandonada a lira nacional, a sabichões desta ordem a palma e o espaço e o silêncio em que operar a lobotomia do verso e do jovem. Macacos me mordam, mas desde minha infância gente assim se arvora a ensinar-nos to make it new. E vai-se ver não sabe fazer nem o velho e cansado parnasianismo de pacotilha das mais ralas versões de Guilherme de Almeida, por exemplo, que, justiça seja feita, jamais resvalaram em paralisias tais.

Vista com mais calma, a confusão era até divertida. Quanto à substância, bastava um pouco de atenção para perceber que o tal Tolentino havia acertado em algo: a tradução era mesmo fraca. Mas daí a ver algum significado mais profundo em uma briguinha de literatos recheada com termos técnicos de poesia me parecia um pouco de exagero. Eu dizia tudo isso a Daniel quando ele finalmente se pôs a me explicar o que estava acontecendo:

— Não, você não sabe da história toda. A discussão pelo jornal é só o começo.

Fiquei então sabendo que, já no domingo, André Weiss lhe confidenciara que alguns amigos e conhecidos estavam pensando em fazer um abaixo-assinado a favor de Augusto de Campos.

— Que bizarro!

— Pois é, foi exatamente o que achei. Primeiro porque ninguém conhece o tal do Bruno Tolentino, e qualquer manifestação só vai encher a bola do sujeito.

— A propósito, quem é esse Tolentino?

Nesse ponto, Daniel estava tão perdido quanto eu.

— Ótima pergunta. Segundo o nosso André, “um desclassificado, um sujeitinho que se apresenta como poeta mas que não passa de um mitômano de quinta categoria”. E plagiário, ainda por cima.

— Putz…

Daniel fez uma pausa. Pelo telefone, escutei um longo suspiro.

— Parece que ele morava no exterior, na Europa. Mas não importa, agora vem o melhor. Não só a ideia foi para a frente, como desde ontem o André está me infernizando para que eu participe do tal abaixo-assinado. Segundo ele, até o Caetano Veloso já assinou.

— Putz… E o que o Caetano tem a ver com isso?

— Essa foi a primeira coisa que perguntei, mas o André não gostou muito. Parece que o Gil vai assinar também, e a Marilena Chaui. É muita gente. Fiquei meio em dúvida e pedi um tempo para pensar. Já li e reli esses textos mil vezes e, para ser sincero, não vejo nada de mais. O Tolentino pegou pesado, mas na substância ele está certo. Precisa fazer abaixo-assinado por isso? E vão dizer o quê?

— É, não faz sentido mesmo.

— Mas o que me deixou irritado de verdade foi o André insinuar que eu deveria participar porque isso seria bom para mim. Quando insisti que a tradução estava ruim mesmo, André me chamou de ingênuo. Você acha que estou sendo ingênuo, Roberto?

A iniciação de meu amigo nas camorras do submundo intelectual brasileiro me deixou um pouco triste, mas não teria sido suficiente para me tirar o sono. Essa honra coube a uma festa de aniversário na casa ao lado da de meus pais, que se estendeu madrugada adentro com gritos, truco e música alta. Na manhã seguinte eu ainda dormia quando a empregada abriu a porta do quarto, lançando uma luz oblíqua sobre o canto do aposento onde ficava minha cama.

O telefone: alguém precisava falar comigo com urgência. Levantei-me resmungando, irritado com Daniel. Telefone no ouvido, o sotaque cantado não admitia confusões com meu amigo.

— Robeeeeeerto, meu caro. Não me diga que você estava dormindo a essa hora! Que safado, contou uma história triste aos amigos e foi para Curitiba de férias! Como está o professor
Schmidt? Tenho recebido notícias de que o tratamento vai bem, é verdade?

Terminando de acordar, agradeci a caixa de chocolates, os cartões e toda a atenção que André dedicou a meu pai naquele período difícil. Falamos de amenidades por alguns minutos antes de chegarmos ao assunto que o levava a me ligar da editora.

— Roberto, eu queria pedir a sua ajuda porque uma coisa muito desagradável está acontecendo por aqui.

Na dúvida entre me fazer de desentendido e entrar de uma vez na conversa, permaneci calado. André continuou:

— Nosso amigo é um tanto cabeça-dura, como você certamente sabe melhor do que eu. Não sei se Daniel comentou contigo o imbróglio que se instalou por aqui com aquela canalhada do Tolentino contra o Augusto.

— Ele mencionou o assunto.

— Pois então, você tem que me ajudar a convencê-lo. É muito importante que ele participe do abaixo-assinado!

— Veja bem, André, acho que isso é entre vocês dois.

— O problema é que Daniel está entendendo tudo errado, e chegamos a um ponto em que ele simplesmente não escuta mais. Escute você, por favor! — continuou André, nervoso como eu nunca o havia ouvido. — Esse seu amigo é muito teimoso, muito teimoso! Por favor, me deixe explicar do que se trata, para ver se mais tarde você consegue convencer aquele cabeça-dura! Daniel pensa que estamos armando uma vingança, que o Augusto ficou sem resposta e foi chamar a turma do bairro, como numa briga de colégio. Nada mais falso, meu caro! Nada mais falso! Em primeiro lugar, o abaixo-assinado não é contra o artigo em si. Escute como começa: “Está fora de discussão o direito do articulista de discordar das opções poéticas de Augusto de Campos ou de contestar suas posições estéticas. Mas isso não lhe dá o direito de insultar e denegrir a pessoa de um poeta que há quarenta anos vem atuando […].” Ou seja, no fundo, é uma manifestação a favor da liberdade de expressão e do debate construtivo. Em segundo lugar, há outras razões que explicam a reação do Augusto e de seus amigos, razões que Daniel não conhece nem está disposto a ouvir.

A essa altura, André já havia recuperado a compostura e falava mais com ironia do que com raiva. No entanto, ficava cada vez mais claro que o assunto era importante para ele.

— E, em terceiro lugar, as pessoas que estão aderindo são muito sérias; o nome de Daniel daria densidade ao texto. Hoje mesmo tive garantia de fonte segura que o João Cabral vai assinar também. O João Cabral, Roberto!

— Mas, André — consegui, por fim, dizer —, se o próprio texto do abaixo-assinado diz que está fora de discussão o direito do tal do Tolentino de discordar do Augusto de Campos, por que essa confusão toda? Não era mais fácil deixar ele discordar e pronto? E quais são as “outras razões” que justificam essa histeria toda? Se Daniel não está disposto a ouvir, eu estou.

Nosso editor tomou fôlego e pensou por alguns segundos, como que buscando as palavras exatas. Por fim, disse:

— Que bom que encontrei alguém de bom senso nessa confusão! A história é longa, mas vou tentar resumir o mais importante. Por favor, tenha paciência. Veja só, parcialmente por culpa deles, os concretistas foram tratados de maneira muito injusta por muito tempo, tanto na imprensa quanto nas universidades, no eixo USP/Unicamp. Por baixo da discussão literária, e esse é o problema, havia uma corrente de força nitidamente política. Não repita o que estou dizendo, mas a verdade é que, de certa forma, eles foram vítimas semiconscientes de uma imposição da hegemonia de esquerda a nossos estudos literários. É claro que, na maior parte das vezes, essa discussão se deu em códigos que apenas os iniciados eram capazes de decifrar. Mas quando os concretistas eram atacados como “formalistas”, isso queria dizer fascistas, pró-ditadura militar (o que nunca foram) e todas essas coisas horríveis que você conhece. Esse clima durou quase duas décadas, de meados dos anos 1960 até os anos 1980, e os deixou com cicatrizes terríveis, além de uma, não de todo injustificada, mania de perseguição. Sei que é difícil pedir a alguém “de fora” que considere esses dados, mas muita gente acredita que, cada vez que os adversários deles transformam uma discussão razoável em polêmica, a possibilidade de falar com seriedade do trabalho dos concretistas, elogiá-lo ou criticá-lo de modo adulto, vai para o ralo outra vez.

— Olhando a questão por esse lado, o assunto muda um pouco de figura — murmurei.

— Tudo isso para dizer que essa confusão talvez seja uma infelicidade, mas a culpa maior é do Tolentino. Certo ou errado na substância, aquele texto é uma irresponsabilidade que vai atrasar a discussão sobre poesia no Brasil em vinte, trinta anos.

No dia seguinte o abaixo-assinado tinha de estar pronto. Tempos depois soubemos de um movimento de última hora, por parte de alguns signatários, para abortar a iniciativa, mas a impressão que nos chegava à época era a de que não havia lugar para discussão. Ao menos essa era a opinião de André Weiss. Num gesto a meu ver desesperado, ele chegou a insinuar que seu autor de maior sucesso cedo ou tarde sofreria retaliações se não assinasse o texto dos amigos de
Augusto.

Ao falar com Daniel à tarde, encontrei-o melancólico.

— Não vou assinar, já está decidido.

— Você vai ficar sozinho — respondi.

— Cara, você disse tudo. Estou me sentindo monstruosamente sozinho.

Daniel falava de um telefone público no Conjunto Nacional. Ele me contou que havia passado a tarde toda na Livraria Cultura, andando entre as prateleiras e pensando.

— Mas isso é mesmo ruim? Como você pode ter certeza? Na verdade, sempre estive sozinho, nós dois sempre estivemos sozinhos. Nunca conhecemos ninguém, e, nesses casos, isso faz toda a diferença. Os argumentos do André são bons; eles me fizeram pensar, é claro. Mas eu não tinha como saber tudo aquilo. Aquelas informações dependem de contatos, de ter crescido no lugar certo, entre as pessoas certas. Agora tenho esses contatos, mas antes, em Curitiba, eu só tinha o texto. No Edifício Asa eu lia as polêmicas do Merquior pelo jornal, lia aquele debate entre o Nabokov e o Edmund Wilson por causa da tradução do Puchkin, e parecia que aquelas pessoas escreviam de outra galáxia, de tão distantes que estavam. Eu não conhecia os envolvidos, não sabia quem tinha comido a mulher de quem, nada disso. Nós líamos isso juntos e comentávamos um com o outro. E só, nada mais. E você se lembra como, no fim, sempre ficava claro que alguém tinha vencido a discussão, que o outro tinha apelado, ficado sem resposta?

— Claro que lembro — respondi, sorrindo sozinho na sala da casa de meus pais.

— Pois então, olhando só o texto, o Tolentino tem razão. Ele está certo: a tradução é constrangedora. Talvez não seja a melhor maneira de julgar, mas é a única que conheço, a única a que estou acostumado. Quando a história do abaixo-assinado surgiu, essa foi uma das primeiras coisas que eu disse ao André.

— E o que ele respondeu?

— Começou a rir, a rir com gosto, quase gargalhar. Me acusou de idealismo, ingenuidade; disse que eu achava que escritores não eram gente, que não faziam força no banheiro.

— Putz…

Em Curitiba, a melhora de meu pai acompanhou o progresso da primavera. Retornei a São Paulo no momento em que seus cabelos devastados pela quimioterapia voltavam a surgir, ralos e brancos, no couro cabeludo coberto de manchas. Cheguei na manhã da eleição de Fernando Henrique Cardoso e encontrei quase esquecido o assunto que havia eletrizado o inverno, depois de um último pico de emoções gerado por uma resposta de Augusto de Campos, acompanhada do famigerado abaixo-assinado, e outra de Tolentino. A vida seguiu, cada vez mais imprevisível, mas o affaire Tolentino-Campos teve ainda um epílogo que merece ser contado.

Poucos meses mais tarde, meu namoro com Fernanda dava os primeiros passos quando decidimos tirar alguns dias de folga no Rio para descansar. A desculpa da escapada foi um convite de Daniel, que gravaria uma entrevista para a televisão e aproveitaria a oportunidade para passar um tempo no apartamento de sua mais recente namorada, a artista plástica Vera Rizzo, antiga amiga de André e responsável pela capa original de Os diálogos do castelo. Vera foi a primeira vegana que conheci. À época, aliás, creio que o termo nem sequer existia, pois ela mesma se descrevia como “vegetariana radical”, o que, no Brasil do começo dos anos 1990, era mesmo algo radical e complicado, a ponto de tê-la forçado a aprender a cozinhar os próprios pratos. À menor menção de descrença ou ironia diante de suas opções gastronômicas, Vera convidava quem quer que fosse para comer em sua casa, e seus jantares tornaram-se lendários
nos círculos artísticos da Zona Sul.

Recém-chegados à cidade, Fernanda e eu fomos devidamente convidados a um desses jantares, com a desculpa de conhecermos também o ateliê da artista. No dia marcado, uma tempestade espantosa quase nos impediu de fazer um curto trajeto entre Copacabana e o apartamento de Vera, no Leblon. Ao chegarmos, descobrimos que não tínhamos sido os únicos detidos pela chuva; Daniel havia saído no começo da tarde e ainda não dera sinal de vida. Um bom tempo
depois, enquanto examinávamos quadros e mais quadros em busca de um presente para André Weiss, meu amigo apareceu ensopado da cabeça aos pés, com uma expressão de felicidade no rosto, segurando com força um saquinho de plástico para evitar que seu conteúdo se molhasse. Na soleira da porta, ele sorria e se sacudia como um cão molhado.

— Não houve jeito de sair da Leonardo da Vinci. Para falar a verdade, pensei que fosse morrer afogado lá embaixo. Em compensação, olhe o que achei — disse, estendendo o braço gotejante em minha direção e me dando o tal saquinho, do qual extraí um livro.

Enquanto Daniel tomava um banho rápido, examinei com cuidado o pequeno volume. Na capa, sobre um fundo branco, dois desenhos em negro mostravam os rostos de Augusto de Campos e Bruno Tolentino se encarando. Por cima deles, uma chamada em vermelho: “É pau puro!” Durante o jantar — delicioso, devo dizer —, nós quatro nos divertimos com o livrinho recém-publicado por Tolentino, que compilava a polêmica e acrescentava uma seção de versos satíricos contra os concretistas e os signatários do abaixo-assinado, todos no tom agressivo, divertido e alucinado de seus textos originais.

Noite adentro, Daniel leu para nós trechos dos artigos e de alguns poemas. Pouco a pouco, percebi que sua animação inicial se dissipava. Em determinado momento, notei-o marcando com os dedos duas páginas do livro.

— No fundo, o que o Tolentino fez foi deixar um documento com sua versão da briga, um texto para o futuro — disse, com uma expressão grave. — E os leitores do futuro vão ser tão ignorantes do contexto e das razões profundas da discussão quanto eu. Não sei se o Augusto ou algum de seus amigos terá esse mesmo cuidado, mas, se isso não acontecer, algo me diz
que a última palavra sobre o assunto vai ser mesmo esta aqui:

Porque inglês eu sei!
Como sei também
quando vejo um rei
que nem manto tem,
nem vergonha e nenhum
inglês! E a lei?
A lei que quebrei
ao chamar alguém
de mau tradutor
mau leitor do inglês,
mau versejador,
é a do Amém, é claro!
A lei que talvez
nos saia mais caro…

— Putz…

— Tem também estes outros versos, escutem só:

Como um rebanho, uma horda,
nós, os abaixo assinados,
cá estamos, disciplinados,
como bonecos de corda.
Mal informados, mal lidos,
somos cãezinhos fiéis,
e vimos lamber os pés
de barro dos nossos ídolos.

— O André vai ficar maluco quando ler isso — falei.

— Sim, vai.

— Pode não ser toda a verdade, mas ficou chato, né?

— Muito — respondeu Daniel, suspirando.

[Diogo G. Rosas; Até você saber quem é – Editora Record, 2016]

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