Entrevistas

“O romance inacabado de Sofia Stern”, de Ronaldo Wrobel

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Por Flávio Izhaki

Um advogado carioca recebe um telefonema da Alemanha sobre uma caixa de joias perdida desde o período nazista, encontrada depois de décadas. A herança pertence a uma certa Sofia Stern, avó do personagem, ainda viva, mas já perdendo a lucidez. Ao mesmo tempo, um diário da vida de Sofia e de sua melhor amiga Klara relata a vida das duas nos anos 1930 em Hamburgo.

Com ritmo de thriller, pesquisa histórica notável, mas sem perder uma dicção literária, “O romance inacabado de Sofia Stern” intercala a atual busca do advogado por respostas sobre a vida da avó na juventude com partes dos diários da época. Sofia, então ainda adolescente, vira cantora de cabaré, trafica drogas, se envolve amorosamente com um opositor ao regime nazista, enquanto Klara vira uma modista requisitada mesmo dentro do Partido.

“O romance inacabado de Sofia Stern” é o terceiro romance de Ronaldo Wrobel, autor do elogiado “Traduzindo Hannah”, livro lançado originalmente pela Editora Record em 2010 e publicado em oito países.

O livro tem ambientação na Alemanha nazista dos anos 1930.  A cidade de Hamburgo é descrita em detalhes, assim como Munique e Zurique.  As personagens principais são uma modista, crível a ponto de imaginarmos as peças que ela cria, e uma cantora de cabaré com repertório de músicas americanas. Qual a importância da pesquisa para a criação do romance?

“O romance Inacabado de Sofia Stern” é, todo ele, fruto de pesquisas históricas. A trama foi se definindo durante leituras de obras como “A Chegada da Terceiro Reich”, do historiador inglês Richard Evans, e “LTI: a linguagem do Terceiro Reich”, do professor alemão Victor Klemperer, que enfrentou o nazismo e teve seus diários publicados no Brasil. Eu pretendia escrever sobre uma avó alemã que escondia mistérios da juventude, mas os tais mistérios foram se definindo no curso das pesquisas históricas. Procurei explorar facetas menos óbvias do período pré-guerra na Alemanha nazista. Por exemplo: falei dos jovens anti-hitleristas que ficariam conhecidos como Piratas Edelweiss e que alguns estudiosos consideram precursores do movimento hippie. Também falei do controle oficial sobre a moda feminina alemã. Li muitos relatos de quem viveu o nazismo, com ênfase nos desafios rotineiros, no terror que era viver num lugar onde ninguém confiava em ninguém. Visitei Hamburgo em 2012 e 2013. Foram vários dias caminhando pela cidade, conversando com professores e consultando o acervo do Instituto da História dos Judeus Alemães. Descobri por acaso curiosidades como a existência de um shopping-center construído sobre um antigo cemitério judaico destruído na Segunda Guerra. Quase tudo foi aproveitado na trama.

A grande questão levantada pelo romance é um debate acerca da moral. Todas as personagens têm questões ligadas ao tema e reagem de maneira diferentes aos dilemas enfrentados. Por se passar num país já em situação de pré-guerra, traição, mentiras e mortes atravessam o romance com os personagens lidando com aquilo sem grandes traumas. A moral em tempos de guerra é diferente? Era sua intenção questionar isso?

Sabidamente, a moral dos homens varia conforme a circunstância e o chamado espírito do tempo, e o período nazista é prova eloquente disso. Não faltam relatos de covardias e heroísmos inacreditáveis, vide os livros de Primo Levi. Nas casas, nas ruas, nos gabinetes governamentais, nas trincheiras, nos campos de concentração. Procurei retratar a moral cotidiana na Alemanha dos anos 1930. Pessoas comuns foram dragadas pelo terror e, muitas vezes, acabaram se tornando suas próprias e devotadas agentes. O texto gravita em torno de duas amigas adolescentes que moram em Hamburgo, ingressam na vida adulta durante o regime hitlerista e enfrentam uma série de dilemas, traumas, anseios ditados por seu contexto.

O Holocausto ocorreu há mais de 70 anos e a maioria dos sobreviventes já faleceu. Qual a importância de se escrever e discutir esse assunto hoje? É com olhos apenas no passado ou no presente e no futuro?

O Holocausto é um evento recentíssimo em termos históricos e seus efeitos se fazem presentes o tempo inteiro, nem sempre de modos óbvios. Meus avós foram contemporâneos do horror nazista e meu pai nasceu em 1937, dois anos antes da eclosão da Segunda Guerra. Claro que isso repercutiu em minha vida, nos valores que me foram transmitidos e no próprio modo como esses valores foram transmitidos. Meus avós costumavam descrever os horrores daqueles tempos em momentos solenes ou triviais, inclusive para me convencer a comer direito ou para cuidar de meus brinquedos. A guerra escancara a condição humana sem retoques, mostrando aquilo de que somos capazes em momentos críticos. Claro que os horrores nazistas podem voltar a acontecer com outras roupagens, pretextos e proporções. O nazismo deve ser uma fonte permanente de reflexão, sobretudo para que se evitem recidivas.

O personagem do neto se chama Ronaldo W. e escreve usando a primeira pessoa, o que sugere que estamos lendo uma autoficção, tão em voga na literatura brasileira contemporânea. Por que tomou essa decisão?

Narrativas ficcionais são alegorias que, muitas vezes, recriam a realidade com toques lúdicos e metafóricos. Meu livro anterior, “Traduzindo Hannah”, é uma autobiografia disfarçada. Um dos motivos para emprestar meu nome ao personagem se deve ao próprio processo criativo, pois parte da narrativa flui em primeira pessoa. Eu estabelecia as reações do personagem com base nas minhas próprias. Fiz questão de visitar os locais mencionados no romance. Estive não apenas em Hamburgo, mas em Zurique e Basileia. O nome original do protagonista era Guilherme. Mudei para Ronaldo na última hora porque o personagem era meu retrato fiel. Ele me cedeu a oportunidade de viver suas aventuras e eu lhe cedi meu nome.

Com essa artimanha, o autor adiciona uma camada de veracidade à ficção. Isso pode sugerir que a história narrada aconteceu e que o dito diário de Sofia é real. Há alguma coisa de verídico nessa assertiva?

Proponho a seguinte reflexão: digamos que eu encontre um amigo na rua e que resolva descrever esse encontro num livro de ficção, mudando o cenário, os personagens e a circunstância, porém mantendo a essência do encontro e de seus efeitos. Seria correto dizer que aquilo nunca aconteceu, que é fruto de uma invenção? No tocante ao romance, minhas avós não tinham diários (não que eu soubesse) nem vieram da Alemanha (embora uma delas tenha embarcado em Hamburgo para o Brasil, assim como a personagem principal), mas eram senhoras misteriosas. Suas casas tinham penumbras, armários e objetos misteriosos que me deixavam assombrado e bastante curioso. Certa vez minha avó me flagrou num quarto escuro e gritou que aquele não era lugar de criança. Avós são sempre criaturas misteriosas. Todas, sem exceção.

Seu livro anterior teve grande sucesso e repercussão internacional, tendo sido lançado em oito países. Como foi escrever o romance depois disso? Qual a sua expectativa para esse livro?

No início eu tentava recriar a linguagem e a ambiência de “Traduzindo Hannah”. Depois compreendi que esse romance era um thriller que pedia uma linguagem mais moderna e dinâmica, embora a trama me soe mais complexa e detalhada. Quem escreve ficção sabe que em algum momento os textos falam por si, muitas vezes à revelia do criador, como filhos que crescem e definem suas personalidades a despeito dos pais. Levei mais de cinco anos escrevendo “O Romance Inacabado de Sofia Stern”. Foram muitos dilemas, muitas marchas e contramarchas. Às vezes eu me pegava sem ideia do que escrever na página seguinte. Isso aconteceu com frequência. O processo de revisão foi outra batalha porque cortei nada menos do que 100 páginas, eliminando capítulos inteiros e mudando trechos fundamentais. Por exemplo: a viagem do Ronaldo para a Suíça seria para o Quênia. Eu já tinha lido sobre o país africano e me preparado para conhecer Nairóbi. A troca do Quênia pela Suíça foi penosa porque o capítulo já estava escrito, inclusive detalhando a construção de uma ferrovia durante a colonização britânica. Enquanto isso amigos e leitores me faziam a pergunta clássica que todo escritor conhece: e o próximo livro?!

Assim como em “Traduzindo Hannah”,  seu livro une uma pesquisa histórica com uma trama pessoal. Fora do Brasil esse interlúdio é bastante comum, mas na literatura contemporânea brasileira poucos conseguem fazer isso (e com qualidade). Quais as suas referencias nessa área?

Fui criado por avós e tios-avós vindos da Rússia, da Letônia e da Polônia no período hoje conhecido como entreguerras. Havia um clima épico nos encontros familiares porque alguém sempre resolvia falar do passado. Para mim, tudo era estranho e fascinante. Eu achava absurdo ouvir alguém dizer que “passara frio” durante a Revolução Russa porque, para mim, frio era algo gostoso e acolhedor. Um dia vi uma exposição de fotografias sobre o Holocausto na escola onde estudava (Max Nordau).  Só então compreendi a tristeza e a densidade espiritual da geração de meus avós, que haviam perdido parentes e amigos nas catástrofes da primeira metade do século passado. Meus romances costumam lidar com realidades paralelas, assim como minha infância, que alternava frivolidades com referências históricas. Gosto muito de narrativas intercaladas em romances. Cito como exemplo desse modelo de estrutura o romance “O paraíso na outra esquina”, de Mário Vargas Llosa. Um belo livro.

A imigração é um tema central nos seus dois últimos livros, ambos ligados ao judaísmo, mesmo o não praticante deste romance. Esse tema será sempre central na sua obra?

Meu próximo romance não vai lidar com judaísmo nem com imigração judaica. Pretendo sair dessa “zona de conforto” com a qual já me familiarizei e ingressar numa história mais contemporânea, mais condizente com o momento que o Brasil enfrenta, um momento de intensa reflexão sobre suas tradições éticas e políticas. Quero tratar desse assunto num thriller passado no Rio de Janeiro.

O ritmo e a estrutura do romance sugerem um thriller pronto para ser roteirizado. Pensa nisso? Já há algum contato?

Sempre gostei de ler roteiros para cinema. Quando escrevo, procuro visualizar as cenas. Penso até em enquadramentos e em efeitos sonoros. Claro que eu adoraria ver meus romances adaptados para as telas. Tenho feito contatos através de minha agente, Luciana Villas Boas.

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